Crédito: Marcos Santos/USP

Carlos Perktold *

Desde 2016, quando o Dicionário Oxford registrou o neologismo pós-verdade, ele passou a circular pela mídia mundial com a pressa da modernidade. Ela foi eleita a palavra do ano e, a partir daí, sua citação cresceu mais de mil por cento anualmente.

O seu conceito é uma espécie de histeria coletiva para os seus crentes, envolvendo a perda de vínculo com o real, substituindo-o pelas crenças individuais e paixões pessoais. A palavra e o seu conceito são o cruzamento da verdade e o desejo de cada um, misturado com a objetividade. Exemplos: todo eleitor de Bolsonaro é fascista, é o mote petista de 2018 para convencer os potenciais eleitores do atual presidente que votar nele era o mesmo que ser fascista. Lula não é corrupto, é o desejo e a crença de todo petista ou esquerdista, que não acredita nos processos, nos juízes e desembargadores que o julgaram e o condenaram e nem na existência do patrimônio do ex-presidente. Acham que tudo isso é invenção da CIA com seu colaborador Sergio Moro para prejudicar o PT.

A pós-verdade é também filha do casamento espúrio entre os fatos objetivos e os anelos de cada um. Consiste em dar uma nova versão dos acontecimentos concretos que não se pode negar, contaminada com interesses pessoais e políticos de seus acólitos. A verdade está nua e as pessoas não estão constrangidas diante de sua nudez e sofrem de uma cegueira específica, cada qual acreditando na versão que os partidos dão a posteriori ou ainda pelos interesses pessoais e não naquilo que está provado.

A pós-verdade não se confunde com o fake news, descaradamente mentirosa e fácil de ser desmentida. O fake news não envolve emoção e nem paixão ideológica, mas apenas conveniência de grupos políticos para difundir uma falsidade que vem recheada de suspeições ao primeiro olhar. Fake em inglês é o mesmo que falso em português. Não é, portanto, sinônimo de lie, mentira. Não é lie news, mas fake news, um detalhe crítico semântico que o inglês tem e em português, não. Daí o usarmos sempre na língua de Shakespeare.

De qualquer forma que se fala ou se lê em mídia impressa, pós-verdade é um novo absurdo neste país de tantos, impregnada de quimeras pessoais, ideologias políticas e desejo que, como diz a etimologia deste último, é o mesmo que seguir as estrelas”, um sem-fim incomensurável como o espaço sideral, algo irrealizável.

*Advogado, psicanalista e escritor