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Até alguns anos atrás, a construção civil era um dos setores da economia que mais empregava pessoas com pouca ou quase nenhuma qualificação. Eram os “peões”, nome dado ao pedreiro, ao armador ou ao servente de pedreiro – aquele que ia para o canteiro de obras praticamente para aprender o ofício. Hoje, o “peão” da construção civil é uma profissão em extinção. Cada vez mais, o canteiro de obras é o local onde apenas se monta o que vem pronto de outras fábricas, como o molde da parede. Depois que os moldes são encaixados um no outro, basta preenchê-los com o concreto.

Toda essa mudança atende pelo nome de “inovação”, uma onda que está atingindo em cheio a indústria da construção civil e é considerada um caminho sem volta. Hoje, além das paredes, há empresas especializadas em montar, fora do canteiro de obras, toda a fiação da futura edificação. Ao ser entregue na obra, basta instalar, na estrutura da edificação, o “chicote elétrico”, como é conhecido o conjunto da fiação, e pronto. Na prática, a construção civil segue o modelo da indústria automobilística, que recebe de um montador externo toda a fiação do carro, cabendo à linha de montagem apenas a função de instalá-la no automóvel.

Para o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) e membro do Conselho Deliberativo da Sociedade Mineira de Engenheiros (SME), Teodomiro Diniz Camargos, o avanço da inovação na construção civil é um caminho sem volta, que passa, em um futuro próximo, entre outras coisas, pela robotização da pintura, pelo uso cada vez maior de impressoras 3D e pela implantação, em casos específicos, de robôs na montagem de paredes.

Nesse cenário, ele afirma que o antigo “peão” da construção civil é um tipo de profissional que tende a deixar de existir nos canteiros de obras. Em vez de um profissional sem muita qualificação assentando blocos, a indústria irá demandar alguém que saiba operar a máquina que fará isso. Por isso, como ressalta Teodomiro Diniz, é que as empresas de construção já estão contratando, há algum tempo, apenas profissionais que tenham o ensino médio.

Para ele, a inovação é a saída que a indústria nacional tem para se contrapor à “desindustrialização prematura” que começa a afetar os negócios das empresas brasileiras.

Na base desse cenário estão, segundo ele, de um lado, o ambiente econômico desfavorável e, de outro, a baixa produtividade, que seria suprida, de acordo com Teodomiro Diniz, pelos investimentos em inovação.

“Não pode ser modinha” – Na construção civil, uma das empresas que mais têm investido em inovação é a MRV Engenharia, hoje, a maior companhia brasileira do setor.

Na MRV, essa diretriz está presente desde o momento da escolha das áreas até a obra em si. Na escolha das áreas, a companhia utiliza o geoprocessamento para agregar dados demográficos, localizar concorrentes e fazer a análise da viabilidade do empreendimento.

Na área de vendas, a empresa está utilizando a inteligência artificial para fazer o primeiro atendimento de possíveis clientes que ligam em busca de informações sobre apartamentos à venda.

Na obra, a face visível da inovação está no uso crescente dos painéis fotovoltaicos para geração de energia elétrica e na substituição do bloco por paredes de concreto, entre outras medidas. Este modelo construtivo começou em 2015 e, ano passado, já estava presente em 85% dos canteiros de obras da empresa em todo o País.

De acordo com o gestor executivo de Inovação da MRV, Flávio Vidal, o uso das paredes de concreto propiciou um ganho de produtividade de 300% nos canteiros de obras. O resultado disso é que hoje a empresa consegue levantar um andar por dia de forma limpa e organizada. No caso dos painéis fotovoltaicos, a previsão da companhia é de que, até 2022, a geração de energia solar seja oferecia na totalidade dos empreendimentos, beneficiando, segundo Vidal, cerca de 600 mil pessoas com uma taxa de condomínio de menor valor.

Outra novidade tecnológica é o uso de sensores para avaliar a maturidade do concreto. O sensor, sem fio e à prova d’água, é fixado na armadura, antes da concretagem, registrando, em tempo real, toda a evolução da cura e o aumento da resistência do concreto. Para ele, a inovação na construção civil, para gerar resultados, tem que estar inserida nos processos da companhia, de forma que possa ser gerenciável e mensurável.

“Não pode ser só uma modinha. Não vai vingar”.

Vidal afirma que MRV foi, desde o início, uma empresa que sempre investiu muito em novos processos, mas foi nos últimos cinco anos que a inovação passou a ser considerada uma área estratégica. Hoje, segundo ele, a MRV investe cerca de R$ 50 milhões por ano em inovação.

Para Vidal, ainda que a MRV esteja em uma boa situação em relação aos seus concorrentes, a engenharia brasileira – como um todo – ainda tem um largo caminho pela frente. “Temos um caminho gigantesco”, afirma o gestor executivo de Inovação da MRV.

Para ele, os anos recentes de crise da construção civil contribuíram para inibir os investimentos em inovação. Porém, para ele, não há como retroceder. “Aposto que as coisas vão melhorar e as empresas vão investir mais em digitalização. “O Brasil tem um potencial muito grande” afirma Vidal.

Potencial para crescimento – Quem também afirma que esse potencial é muito grande é o engenheiro Alexandre Loureiro Ribeiro, um especialista em coach de negócios com foco na engenharia. A dimensão desse potencial pode ser medida, a seu ver, por pesquisa realizada em 2017 pela empresa de consultoria McKinsey, que avaliou 22 setores da economia brasileira sobre uso de tecnologia para a obtenção de ganhos de valor e produtividade.

De acordo com a pesquisa, a construção civil ficou em 21º lugar, perdendo apenas para a pesca e a agricultura.

“Isso me permite concluir que, além da necessidade de capacitação, quanto mais eu investir em tecnologias inovadoras, maior será o ganho de competitividade no mercado”.

Para ele, os sistemas construtivos adotados no Brasil ainda são muito arcaicos. “Da mesma forma como os egípcios fizeram as pirâmides há quatro mil anos, continuamos fazendo alvenaria com o assentamento de tijolos”.

Ele reconhece que a mudança causada pelo avanço da industrialização gera desconforto em alguns setores, principalmente pela redução do número de pessoas empregadas. Nesse sentido, ele considera importante uma ação do governo para dar sustentabilidade às pessoas de baixa qualificação que seriam substituídas por máquinas. Ao mesmo tempo, ele considera fundamental as escolas de engenharia adaptarem seus currículos para a nova realidade.

“Hoje, tem muito engenheiro que sai de uma faculdade onde estudou o mesmo que eu estudei há 30 anos”, afirma Ribeiro.