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Carlos Perktold *

Se não fosse o texto do filósofo Tilden Santiago publicado nesta página na semana passada sob o título “Alguém pisou na lua em 1969?” este articulista não escreveria este relato.

Naquele texto, o filósofo trouxe um belo contraste entre sua Paraíba, seus habitantes, a tradicional agricultura local e a dimensão tecnológica da viagem. Meu receio de trazer estas informações é que se havia na região de nascimento de Santiago e em Belo Horizonte pessoas que não acreditaram naquela epopeia, é possível que várias não acreditassem no meu relato, tão menor em tudo.

Santiago pergunta aquilo que todos nós nos lembramos: onde estávamos quando Armstrong pisou naquele satélite da Terra? É também a lembrança quando nos perguntam onde estávamos quando recebemos a notícia do assassinato de Kennedy. Foram dois fatos históricos mais incríveis literalmente da segunda metade do século 20 e dos quais nossos descendentes falarão pra sempre.

Respondendo a pergunta de Santiago, eu estava em Nova York no dia 20 de julho de 1969, parado e defronte de um telão colocado na porta ao Edifício Time Life em plena Manhattan. Por causa do tamanho da tela e do espaço disponível, imagino que a revista esperava reunir milhares de pessoas naquele local. A Life Magazine não esclareceu em qualquer reportagem o fracasso daquele momento em frente da sua redação e, claro, não publicou qualquer foto de onde estávamos. Por que, pasmem, junto comigo não havia mais de cinquenta ou cem pessoas assistindo aquilo que, na volta, soube ter tido uma audiência incrível no Brasil e pelo mundo afora. Cem pessoas reunidas em NY é um número baixo demais para qualquer evento. É um fracasso de público. O nova-iorquino, o americano médio e os turistas daquele dia não estavam interessados na atitude política e cara de colocar o homem na Lua.

Um camelô desapontado vendia pouquíssimos botões para colocar em lapela com a inscrição “I saw it all” (vi tudo), que mantive comigo até há alguns anos. Perguntei-lhe e também a algumas pessoas ao meu lado por que o desinteresse por algo tão grandioso para o Homem e para a América. Recebi a resposta dos desconhecidos ao meu lado, ratificada depois por garçons, executivos e amigos americanos: “My money, they´re spending my money, that´s why nobody cares”. Fiquei perplexo com os comentários que ratificavam o desinteresse pelo acontecimento e criticava o desperdício de um governo perdulário. Para o americano médio, melhor seria se a verba da viagem tivesse sido usada em programas sociais e não em políticos-tecnológicos.

Atônito, compreendi que a viagem para um lugar tão longe era uma demonstração de relações públicas perante o mundo. Era um ato político. Os Estados Unidos precisavam se recuperar do susto imposto pelo bip-bip-bip-bip, um barulhinho retumbante do Sputnik, primeiro satélite artificial, lançado pela então União Soviética anos antes e que humilhara a América em particular e o mundo Ocidental no geral na tecnologia espacial. Se houve novas viagens para a Lua, elas ficaram no esquecimento. Hoje, o desafio americano é ir a Marte, torrando muito dinheiro dos contribuintes em nome das relações públicas do século 21.

*Psicanalista, advogado e escritor