Foto: José Cruz/Abr

ROGÉRIO FARIA TAVARES*

Em uma semana o Brasil celebra o Dia das Crianças. Foi também num 12 de outubro que nasceu, há 95 anos, o escritor Fernando Sabino, mineiro de Belo Horizonte. Nenhuma data poderia ajustar-se melhor a quem um dia cunhou o próprio epitáfio: “Aqui jaz Fernando Sabino. Nasceu homem, morreu menino”, verdade comprovada por sua obra literária, que contém títulos inesquecíveis como “O menino no espelho” e “A vitória da infância”, esta, uma reunião de vinte e nove textos sobre o assunto.

Tema clássico da literatura universal, a infância não inspirou apenas o autor de “O grande mentecapto”. Diversos foram os autores brasileiros que, ao longo do tempo, se dedicaram à matéria. Para ficar apenas nos dedos de uma mão, de imediato me vêm à mente os nomes de Graciliano Ramos (e o seu “Infância”), Guimarães Rosa (com “Manuelzão e Miguilim”), Otto Lara Resende (e “Boca do Inferno”), e dos contemporâneos João Anzanello Carrascoza (e “Aos 7 e aos 40”) e Luiz Guilherme Piva, sobre quem falarei hoje, mais detidamente.

Nascido em Ubá, terra de Ary Barroso, em 1962, Piva formou-se em economia e fez mestrado e doutorado em Ciência Política, área na qual publicou dois livros importantes: “Ladrilhadores e semeadores: a modernização brasileira no pensamento político de Oliveira Vianna, Sérgio Buarque de Holanda, Azevedo Amaral e Nestor Duarte (1920- 1940)” e “A miséria da economia e da política”.

Composto por 15 textos, o seu “Poemas para vestir” foi feito em parceria com José Santos. “Eram todos camisa dez”, de crônicas, explorou o universo do futebol, interesse reiterado no belíssimo “A vida pela bola” (Editora Iluminuras, 2018, 151 páginas), uma reunião de 64 crônicas originalmente elaboradas para o blog do excelente jornalista Juca Kfouri, somadas à inédita “Secos e molhados”. Escrito em prosa poética, esse livro de Piva comprova seu absoluto domínio das artes narrativas, expõe a elegância e a precisão com que utiliza a linguagem e apresenta ao público cenas marcantes e personagens fortes, que impactam e comovem, mesmo que as histórias sejam curtas.

O livro gira em torno do ‘esporte bretão’. Inspira-se na sua riqueza como manifestação cultural e na sua importância para o desenvolvimento da sociabilidade humana, sobretudo no Brasil. Também honra a melhor tradição da crônica nativa a respeito, em que pontificam nomes como José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues. Mas é seguramente na evocação lírica e mágica do universo infantil que garante ao leitor os momentos de maior prazer e encantamento. Nenhuma criança foi esquecida pela pena arguta de Piva. Há crônicas sobre meninos pobres, moradores de cortiço, de abrigo para órfãos… A infância é vista como espaço da alegria e da espontaneidade, assim mantido na memória dos adultos saudosos.

Em “Fechem os olhos”, ele escreve: “Eu sei que vocês não jogam mais bola. Mas é por isso que estou lhes mostrando esse jogo. Para que percebam que é naquele campinho, com aquela bola, com os traços e modos que vocês tinham quando eram crianças e jogavam futebol que vocês forjaram o que são hoje. Não falo de modos físicos. Nem de fracassos e sucessos. Falo da tormenta ou da paz de espírito. Da dignidade ou da covardia. Da respiração forte ou fraca. Do olhar altivo ou baixo”.

* Jornalista. Da Academia Mineira de Letras