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Tilden Santiago *

Meio século atrás (20/07/1969) o ser humano pisava na Lua pela primeira vez, é o que se dizia. Isso teria levado Neil Armstrong, às 23h56 de Brasília, a exclamar maravilhado: “Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade”. Essa frase nasceu não apenas de um gênio da técnica e da ciência aeronáutica, ainda que corroído pela “Guerra Fria” e pela corrida espacial, nasceu também da generosidade de um astronauta cientista e amante do humanismo, que falava grego – a língua dos atenienses, berço da democracia e da filosofia, diferentemente dos espartanos, dos romanos e nazistas dominadores.

O chargista Duke ironizou o avanço histórico da Humanidade, ao pisar na Lua com um astronauta prevendo para seu colega o progresso dos humanos ao pisar no satélite: “Daqui a 50 anos, em 2019, acho que o mundo estará muito melhor, sem guerras, fome, miséria, violência, preconceitos… Quer apostar?

Em 20/07/1969, onde você se encontrava amigo leitor? Como você viveu a chegada do homem à Lua? O que pensavam os homens e mulheres, seus amigos, sobre a própria vida, especialmente sobre a chegada ao ser humano à Lua.

Eu morava na Paraíba, a verdadeira, há 16 quilômetros de João Pessoa, em Gramame, no Engenho Velho. Mais de 100 famílias ali moravam, na sequência das Ligas Camponesas, plantando feijão, milho, macaxeira, fava, inhame, cará, abacaxi, jaca e outras frutas na terra arenosa, e gerimum, cenoura, melancia, quiabo, pimentão, coentro, alface e repolho no brejo, assim que as águas se afastavam. Arriava-se o cavalo, com dois caçuas (balaios), pelas duas horas da madrugada, chegando às feiras da capital João Pessoa, com a barra do dia, quatro, cinco horas da manhã.

No dia 20/07/1969, pelas cinco horas da tarde, os lavradores remanescentes das ligas camponesas, com suas enxadas, enxadecos, foices, estrovengas e pás, instrumentos de paz, assentaram no terreiro de Seu João Salustino e Dona Terta, em frente à venda onde se bebia Pitú, Serra Grande e cerveja quente.

Surpresa para esse escriba, ali conhecido pela alcunha de Zé Mineiro, ao ver seu coirmão padre-operário, Chico Kevin, australiano, identificado aos nordestinos, trazendo três cocos, amarrados com embiras, representativos da Terra, do Sol e da Lua. Chico fora oficial do exército australiano e guardava um rigor científico ao querer explicar, na frente da venda do Seu João Salustino (84 anos, ainda puxando mato no cabo da “malvada” e cuidando de vacas e bezerros), que naquela tarde três astronautas norte-americanos iriam pisar na Lua.

Após quinze minutos de aula, Seu João Salustino, da soleira da venda, interrompeu o professor e cientista australiano: “Chega não, Chico! Nas coisas de Deus, o homem não põe a mão nem o pé. Se for quarto-minguante, os pilotos não vão nem tocar o solo da Lua. Se for Lua cheia, Jesus manda uma chuvinha que cobre a face da Lua impedindo a descida dos homens”.

Com exceção desse escriba, toda a plateia ficou do lado de Seu João Salustino, que logo entrou para a venda e ofereceu cachaça, cerveja e tira-gosto de salame, charque e jiló frito para celebrar a Lua, o Sol e a Terra, os céus, a natureza, o Criador do Universo.

Depois da comemoração, Zé e Chico foram para o barraco deles, para ouvir a transmissão dos astronautas norte-americanos, por rádios brasileiras, pela Voz da América e BBC de

Londres. A porta do barraco era sem trinco e a Lua, furando nosso teto de palmeiras, salpicava de estrelas nosso chão de terra pisada, o chão dos pobres que não puderam saborear a epopeia da humanidade pisando na Lua. Nem mesmo os remanescentes das Ligas Camponesas na Paraíba acreditaram que alguém pisou na Lua em 1969.

*Jornalista, embaixador e filósofo