Foto: Valquíria Cássia/Agência Minas

Há dois anos, as paredes desbotadas de uma das enfermarias do Hospital Galba Velloso (HGV) ganharam cores vibrantes. A pintura foi realizada com técnicas de muralismo e de grafite por um grupo de artistas voluntários.

O trabalho contou com a ajuda de pacientes, funcionários e gestores da instituição. O que ninguém sabia é que essa convivência provocaria uma verdadeira revolução no hospital, que integra a rede pública de saúde do Estado.

Desde então, a arte tem ganhado cada vez mais espaço no Galba Velloso, deixando para trás o ambiente árido que remete à política de segregação que vigorou durante décadas nas instituições de saúde mental.

A necessidade de mudar o funcionamento para que fosse executado um trabalho artístico transformou e humanizou as relações e possibilitou novas vias de acesso entre pacientes, equipe e gestão.

“Começamos a pensar em novas maneiras de lidar com o sofrimento mental e, em 2017, surgiu a ideia de criar uma semana anual de arte, que foi realizada em outubro”, explica a psiquiatra Luzmarina Morelo, diretora do Galba Velloso.

A Segunda Semana de Arte do Hospital Galba Velloso – Todos os Sonhos do Mundo foi aberta ontem e se estenderá até a próxima sexta-feira (dia 30). Gratuito e aberto ao público, o evento tem como inspiração a obra do poeta Fernando Pessoa.

Para dar vida à sua arte, Fernando Pessoa abusou da heteronímia e criou escritores fictícios com personalidade própria: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares.

“Fernando Pessoa não é um, são muitos poetas. Cada um tem seu estilo, o que nos faz pensar que cada ser humano pode ter muitas maneiras de viver e de estar no mundo”, explica a diretora Luzmarina Morelo. “A arte permite ao paciente se expressar de outras formas e mostrar que há um ser humano cheio de possibilidades por trás da doença”, assinala Luzmarina.

Interação – Durante as oficinas artísticas, apresentações musicais e teatrais que fazem parte do evento, pacientes, artistas, funcionários e visitantes aprendem, compartilham saberes e interagem.

Interação que nem sempre é possível no dia a dia, devido à rigidez do ambiente hospitalar, onde é preciso seguir regras e obedecer a uma rotina.

“A arte nos traz a oportunidade de nos surpreendermos. Se estamos presos a padrões, podemos não perceber a singularidade de cada paciente”, explica a psicóloga Cláudia Apgaua, gerente assistencial do HGV.

Durante mais de um século, a lógica manicomial isolou da sociedade aqueles que eram classificados como loucos. Comparados a campos de concentração, os hospitais psiquiátricos negavam a seus moradores o direito de ter qualquer direito.

No final dos anos 1970 nasceu o movimento da Reforma Psiquiátrica, que denunciava a violência nos manicômios e propunha a construção de uma rede de serviços e estratégias inclusivas e libertárias.

Em 2001 foi aprovada, no Brasil, a Lei Federal 10.216, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas com sofrimento mental, redirecionando o modelo assistencial em saúde mental.

Dessa lei nasceu a Política de Saúde Mental, com o objetivo de reduzir, de forma programada, o número de leitos psiquiátricos de longa permanência, e garantir o cuidado aos pacientes sem isolá-los de suas famílias e da sociedade.

O Hospital Galba Velloso (HGV) é uma unidade da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig). A instituição possui 120 leitos, taxa de ocupação de 90% e média de permanência de 20 dias. A maioria dos pacientes é do interior do Estado. (As informações são da Agência Minas)