Estão previstas uma série de ofertas públicas de ações de companhias brasileiras em outubro - Crédito: Edsom Leite

São Paulo – A bolsa brasileira começou outubro com forte saída de capital externo das negociações no mercado secundário, em meio ao aumento da aversão a risco externo e receios sobre o ritmo de crescimento das economias dos Estados Unidos e China, que vivem um embate comercial ainda sem sinal claro de desfecho.

Nos primeiros quatro pregões do mês, as saídas de estrangeiros já superam as entradas em R$ 6,2 bilhões. Tal movimento vem após setembro registrar o primeiro saldo positivo mensal desde março. No ano, os números mostram saída líquida de R$ 27 bilhões.

O Ibovespa, referência do mercado acionário brasileiro, acumulou queda de 2% de 1 a 4 de outubro, chegando a cair abaixo de 100 mil pontos na quinta-feira (3). Até a véspera, a perda no mês estava em quase 4%. Os números sobre a movimentação de estrangeiros têm defasagem de dois pregões.

De acordo com o gestor Ricardo Campos, sócio-fundador da Reach Capital, se em setembro observou-se uma aproximação entre Donald Trump e Xi Jinping, combinada com o andamento da reforma da Previdência, calmaria no panorama político do Brasil e bons dados econômicos do País, em outubro esse cenário mudou.

“Tivemos uma ‘escassez’ de informações da China devido ao feriado naquele país na semana passada gerando assim um vácuo para possíveis novos focos de problemas envolvendo o presidente Trump, como o inquérito de impeachment, além de dados alemães decepcionantes , questões relacionadas ao Brexit… Tudo atrelado a um cenário com atraso na reforma da Previdência”, ilustrou.

Na visão de Campos, todos esses eventos geraram “um turbilhão de incertezas”, o que afasta os estrangeiros, que já estão em modo risk off. “Mesmo que os fundamentos da economia brasileira estejam se mostrando mais sólidos e a retomada da economia vindo aos poucos, os estrangeiros não se atrevem a alocar capital com tamanha incerteza ocorrendo.”

A equipe da XP Investimentos também ressaltou a semana conturbada experimentada pelo cenário político brasileiro.

Eles destacaram que o Senado aprovou em primeiro turno a reforma da Previdência, após adiamento e incertezas com relação a sua potencial desidratação, mas o noticiário mostrando falta de articulação para a divisão dos recursos do megaleilão do petróleo previsto para novembro pode prejudicar o seu andamento.

“A economia global ainda está assombrada pelo aumento das incertezas para os próximos anos”, observa a equipe do BTG Pactual, acrescentando que os mercado continuam atentos e permeados por grandes volatilidades em razão de novas preocupações relacionadas à guerra comercial.

Outubro prevê uma série de oferta de ações de companhias brasileiras, entre IPOs e follow ons, que têm sido o meio preferido por investidores estrangeiros para comprarem ações brasileiras em 2019. Quando incluído tais dados, o saldo externo está negativo em ‘apenas’ pouco mais de R$ 1 bilhão.

Entre as operações previstas para o mês estão a oferta inicial de ações da Vivara, que pode movimentar R$ 2,4 bilhões, bem como as ofertas da Helbor (dia 10), do Banco do Brasil (dia 17), da C&A (dia 24) e do Banco BMG (dia 24). (Reuters)

Ibovespa fecha abaixo dos 100 mil pontos

São Paulo – O Ibovespa fechou ontem abaixo dos 100 mil pontos pela primeira vez em mais de um mês, tendo de pano de fundo um cenário negativo no exterior marcado por ceticismo sobre o desfecho das negociações comerciais entre Estados Unidos e China, previstas para esta semana.

Índice de referência do mercado acionário, o Ibovespa caiu 0,59%, a 99.981,40 pontos, após sessão volátil, tendo oscilado da mínima de 99.867,59 pontos à máxima de 101.296,28 pontos. O Ibovespa não fechava abaixo dos 100 mil pontos desde 3 de setembro. O volume financeiro somou R$ 14,29 bilhões.

Investidores começaram a sessão com a notícia de que os EUA incluíram importantes startups de inteligência artificial chinesas em lista de sanções, o que desagradou Pequim, além de declaração da véspera do presidente Donald Trump, de que ele não ficará satisfeito com um acordo parcial.

Também pesou notícia do China Morning Post de que Pequim reduziu as expectativas antes das negociações programadas para quinta-feira entre o vice-primeiro-ministro chinês, Liu He, o representante comercial dos EUA, Robert Lighthizer, e o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin.

“A economia global ainda está assombrada pelo aumento das incertezas para os próximos anos”, observou a equipe do BTG Pactual em nota a clientes, destacando que os mercados seguem atentos e com elevada volatilidade em razão de novas preocupações relacionadas a guerra comercial EUA-China.

A pauta de ontem ainda contou com fala do chairman do Federal Reserve, Jerome Powell, que sinalizou uma abertura para novos cortes de juros em meio aos riscos econômicos globais e disse que o momento de permitir que a carteira de ativos do Fed comece a se expandir novamente “está chegando”.

Na visão do BTG Pactual, os ativos brasileiros continuam acompanhando de perto o movimento do exterior, além da ansiedade com o andamento das reformas, acrescentando ser difícil definir uma tendência com a volatilidade em níveis considerados preocupantes.

“Vemos os investidores com muito mais cautela…porém são estes momentos que também geram oportunidade de bons negócios”, observou a equipe do BTG em nota distribuída pela área de gestão do banco.

Na cena doméstica, a equipe da XP Investimentos também observa alguma preocupação quanto à evolução das reformas no Brasil, citando entre os fatores as discussões sobre a divisão entre Estados e municípios de parte dos recursos de megaleilão de áreas de petróleo previsto para novembro.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o vice-presidente do Senado, Antonio Anastasia (PSDB-MG), afirmaram que as negociações avançaram na Câmara. Se fechado um acordo sobre o tema, a reforma da Previdência poderia ser votada na penúltima semana do mês.

Destaques – Bradesco PN fechou com oscilação negativa de 0,09%, enquanto Itaú Unibanco PN desvalorizou-se 0,43%, em sessão sem viés único no setor no Ibovespa, com Banco do Brasil ON recuando 1,8%, mas Banco BTG Pactual Unit avançando 2%. Santander Brasil Unit terminou em baixa de 0,16% em sessão com evento do banco com investidores e analistas, no qual o presidente estimou crescimento anual de 10% na carteira de crédito do banco até 2022. Após o fechamento do mercado, no entanto, o Santander Brasil divulgou projeção de atingir crescimento médio de mais de 10% na carteira até 2022.

Eletrobras ON ganhou 0,56% e Eletrobras PNB caiu 1,3%. A elétrica de controle estatal informou na véspera que discute com sua controladora a possibilidade de capitalização de Adiantamentos para Futuros Aumentos de Capital (AFACs) no valor de cerca de R$ 3,9 bilhões, feitos à empresa pela própria União nos últimos anos.

Vale ON caiu 1,6%, apesar da alta dos contratos futuros de minério de ferro na China, pressionando o Ibovespa, em movimento alinhado ao comportamento de ações de mineradoras na Europa. Também o setor siderúrgico acompanhou pares no exterior, com CSN ON cedendo 4,3%, Usiminas PNA perdendo 0,8% e Gerdau PN recuando 1,8%.

Petrobras PN caiu 0,6%, em sessão também marcada pela fraqueza dos preços do petróleo no exterior. Petrobras ON cedeu 0,6%.

Dólar – O dólar encerrou em queda contra o real, depois de subir mais de 1% na véspera, com agentes do mercado monitorando questões envolvendo as negociações comerciais entre Estados Unidos e China, em meio a expectativas sobre tratativas de divisão de recursos da cessão onerosa. O dólar à vista caiu 0,31% ontem, a R$ 4,0917 na venda. Na B3, o dólar futuro tinha queda de 0,41%, a R$ 4,0965. (Reuters)