Jair Bolsonaro reagiu com agressividade a reportagens - Crédito: REUTERS/Adriano Machado

Brasília – Em uma nova radicalização de seu discurso, o presidente Jair Bolsonaro acusou ontem a imprensa de mentir e difamar e questionou se o objetivo dos veículos de comunicação é derrubá-lo do cargo. Ao deixar o Palácio da Alvorada, onde cumprimentou um grupo de simpatizantes, ele afirmou que a cobertura da mídia ao seu governo não pode continuar com “covardia” e “patifaria”.

“Eu lamento a imprensa brasileira agir dessa maneira. O tempo todo mentindo, distorcendo, difamando. Vocês querem me derrubar? Eu tenho couro duro, vai ser difícil. Continuem mentindo”, disse. As críticas do presidente foram direcionadas inicialmente à “Folha de S.Paulo” e ao jornal “Correio Braziliense”. Mais tarde, ele também criticou o jornal “O Globo”.
No último domingo, a Folha revelou que um depoimento e uma planilha obtidos pela Polícia Federal (PF) sugerem que recursos do esquema de candidaturas-laranja do PSL em Minas Gerais foram desviados para abastecer, por meio de caixa dois, a campanha de Bolsonaro.

A partir das informações, a Polícia Federal sugeriu ao Ministério Público a abertura de uma segunda investigação em decorrência do escândalo em Minas Gerais, desta vez especificamente para as contas de campanha do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio.

Segundo reportagem publicada pela Folha, um depoimento dado à Polícia Federal e uma planilha apreendida em uma gráfica sugerem que dinheiro do esquema de candidatas-laranja do PSL em Minas Gerais foi desviado para abastecer, por meio de caixa dois, as duas campanhas.

O depoimento foi dado por Haissander Souza de Paula, assessor parlamentar de Álvaro Antônio à época e coordenador de sua campanha a deputado federal no Vale do Rio Doce. Ele disse à PF que “acha que parte dos valores depositados para as campanhas femininas, na verdade, foi usada para pagar material de campanha de Marcelo Álvaro Antônio e de Jair Bolsonaro”.

Em uma planilha, nomeada como “MarceloAlvaro.xlsx”, há referência ao fornecimento de material eleitoral para a campanha de Bolsonaro com a expressão “out”, o que significa, na compreensão de investigadores, pagamento “por fora”.

Já o Correio Braziliense, em reportagem publicada ontem, afirmou que o presidente encaminhará ao Poder Legislativo projeto de reforma administrativa que deve prever o fim da estabilidade para servidores públicos.

“De novo hoje, capa do Correio Braziliense, que eu vou acabar com a estabilidade do servidor. Não dá para continuar com tanta patifaria por parte de vocês. Isso é covardia e patifaria. Nunca falei nesse assunto. Querem jogar o servidor contra mim. Como a Folha de S.Paulo querendo me ligar ao problema de Minas Gerais. Um esgoto a Folha de S.Paulo”, criticou Bolsonaro.

Mais tarde, em mensagem nas redes sociais, o presidente voltou a criticar veículos de imprensa, desta vez por texto produzido pelo jornal O Globo. Ele afirmou que uma reportagem da publicação era “mentirosa”.

Bolsonaro se referiu à informação de que o governo pretende liberar a operação de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) por outras instituições financeiras, não apenas pela Caixa Econômica Federal (CEF).

“Lamento a imprensa divulgar notícia falsa com o interesse de nos colocar contra o Norte e Nordeste, impactando diretamente programas de habitação e saneamento como Minha casa, minha vida”, escreveu.

Sem entrevistas – Por uma recomendação da área de comunicação, o presidente não tem mais respondido a perguntas dos veículos de imprensa na entrada do Palácio da Alvorada, onde ele costumava promover entrevistas diárias.

A mudança ocorreu no fim do mês passado, após ele ter se irritado com a cobertura da imprensa brasileira sobre seu discurso na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

A orientação foi para que o presidente converse apenas com os eleitores presentes, destacando pautas positivas e evitando assuntos incômodos de sua administração, como o fato de ele não ter se pronunciado sobre a morte da menina Ágatha Félix, do Rio de Janeiro.

Para desviar de pautas negativas, o presidente também suspendeu os cafés da manhã que promovia com veículos de imprensa. No último deles, em julho, Bolsonaro se referiu a nordestinos como “paraíbas” e disse que não havia fome no Brasil.

Boicote – No último domingo, o chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República, Fabio Wajngarten, sugeriu um boicote publicitário a veículos de imprensa que produzem, no seu entender, “manchetes escandalosas”.

O presidente também fez referência às empresas que são anunciantes na Folha. “O que mais me surpreende são os patrocinadores que anunciam nesse jornaleco chamado de Folha de S.Paulo”, disse no domingo.

Em uma nota conjunta, a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) disseram condenar a manifestação e repudiar a conclamação feita pelo secretário aos anunciantes. (Folhapress)

PF propõe novo inquérito sobre Álvaro Antônio

Brasília – A Polícia Federal (PF) sugeriu a abertura de uma segunda investigação em decorrência do caso de candidatas-laranja do PSL, desta vez especificamente para as contas de campanha do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio.

A nova investigação, caso aberta, terá o ministro de Bolsonaro como foco principal, sob suspeita de ter movimentado recursos sem o conhecimento da Justiça Eleitoral.
Além do depoimento e da planilha, a PF reuniu ainda outros indícios de recursos não contabilizados na campanha de Álvaro Antônio. Os casos estão nos autos e foram enviados para o Ministério Público, que é quem vai decidir se abre a nova apuração.

O promotor Fernando Ferreira Abreu já confirmou que haverá novas investigações, mas não deu detalhes.

Nas apurações do “laranjal’, Álvaro Antônio foi indiciado e denunciado na semana passada, ao lado de outras dez pessoas, sob acusação dos crimes de falsidade ideológica eleitoral, apropriação indébita de recurso eleitoral e associação criminosa -com penas de até cinco, seis e três anos de cadeia, respectivamente.

O hoje ministro foi o candidato a deputado federal mais votado de Minas, tendo sido reeleito ao cargo. Não há nenhuma ação por parte da PF no que diz respeito às menções de dinheiro desviado para material de campanha para Bolsonaro.

O ministro da Justiça, Sergio Moro, a quem a Polícia Federal está subordinada, publicou em suas redes sociais no último domingo uma enfática defesa do presidente, apesar de as investigações estarem sob sigilo.

A Folha de S.Paulo revelou a existência de um esquema de desvio de verbas públicas de campanha do PSL em 2018, que destinou para fins diversos recursos que, por lei, deveriam ser aplicados em candidaturas femininas do partido.

Não há registro, na prestação de contas entregue por Jair Bolsonaro à Justiça Eleitoral, de gastos com a empresa Viu Mídia.

Além desse novo inquérito destinado à campanha do ministro, a polícia solicitou a abertura de pelo menos mais dois para investigar, de forma individual, outros envolvidos no esquema.

Em nota, o advogado de Álvaro Antônio, Willer Tomaz, afirmou no domingo que o depoimento de Haissander ocorreu “sem a observância dos critérios legais”. Ele disse que a Folha de S.Paulo distorce informações com o objetivo de atingir integrantes do governo eleitos de forma democrática.

Segundo o advogado, o termo “out” das planilhas apreendidas não significa indicativo de caixa dois, mas sim material de campanha com produção ainda pendente.

“A reportagem ignora o fato grave ocorrido nas dependências da Polícia Federal de Minas Gerais, de coação por parte do delegado Marinho (Rezende, responsável pelo inquérito) contra o ex-assessor Haissander Souza de Paula, o qual foi preso temporariamente sem observância dos critérios legais, inclusive quanto à acomodação, e recebeu tratamento degradante no pátio da carceragem, sistematicamente desprovido de alimentação, água e dos seus remédios de uso contínuo”, afirma a nota.

De acordo com Willer, “Haissander foi por horas pressionado pelo delegado Marinho a assinar, sem a presença do seu advogado, um termo de declarações de cuja elaboração não participou, com declarações prontas e falsas, tendo a autoridade policial verbalizado que o ministro do Turismo seria demitido naquele instante e que, assim, deveria ‘falar tudo’, prometendo a Haissander a sua soltura imediata se assinasse o referido documento”. (Folhapress)