Para especialistas, aprovação de reformas estruturantes podem contribuir diretamente para alta no consumo - CREDITO:ALISSON J. SILVA

A retomada do comércio em Minas Gerais pode não ser uma realidade muito distante. No Dia do Comerciante, celebrado ontem, especialistas avaliam que este ano tem sido de uma melhora gradual do setor, que ainda depende principalmente da recuperação da confiança e do emprego para apresentar um crescimento relevante.

O economista-chefe da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Minas Gerais (Fecomércio-MG), Guilherme Almeida, contextualiza que o setor é dependente do movimento do consumo familiar e, por atuar na ponta, o bom desempenho do comércio está diretamente associado aos indicadores macroeconômicos relacionados à demanda das famílias.

A lenta recuperação do emprego tem afetado os resultados do setor e, para Almeida, a única maneira de acelerar essa recuperação tanto no Brasil quanto em Minas Gerais é por meio da retomada dos investimentos produtivos. Já os indicadores de preço e juros estão em movimentos favoráveis, com inflação abaixo da meta do Banco Central, resultando no ganho orçamentário para as famílias, e a taxa de juros Selic na mínima histórica.

“O compasso entre a recuperação dos indicadores de emprego, de preço e de juros é o que dita a retomada do setor do comércio. Os indicadores de preços e juros já estão em movimento de estímulo ao consumo, mas o emprego depende da retomada dos investimentos e ainda está aquém do esperado para gerar uma recuperação mais intensa, principalmente no varejo”, afirma.

Apesar do estímulo ao crédito familiar, que, segundo dados do BC, teve expansão de 9% até maio deste ano, ainda existem pontos de incertezas. A aprovação das reformas da Previdência e tributária, a necessidade de uma abertura econômica do País e a melhoria do ambiente de negócios com redução da burocracia e investimentos em infraestrutura são aspectos estruturais que podem sinalizar a aceleração do crescimento do setor.

“A reforma da Previdência é um fator que o empresário leva em consideração ao formar expectativas de investimentos e sinaliza positivamente ao mercado ao mostrar um comprometimento do governo com as contas públicas. Dessa forma, a confiança desses agentes é afetada de forma positiva a partir da retomada de investimentos”, explica o economista.

Confiança – A Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que o volume de vendas do comércio varejista cresceu 3,3% de janeiro a maio de 2019.

Na análise do economista da Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), Leonardo Faria, o resultado é sinal de um crescimento gradual do comércio, que ainda depende do aumento da confiança e das reformas estruturantes.

Para ele, a aprovação da reforma da Previdência é fundamental, uma vez que vai estimular os empresários a investirem mais, além de gerar fluxo de investimentos estrangeiros no País tanto no mercado financeiro quanto na economia real.

“A confiança vai vir do aspecto macroeconômico, como a aprovação da reforma da Previdência. Isso ajuda na geração de emprego e, consequentemente, alavanca o consumo, beneficiando o comércio. Já tivemos indicadores melhores, mas o atual não é o pior como aconteceu no ápice da crise”, destaca.

Outro sinal que pode beneficiar o setor é a queda da projeção para a Selic de 5,75% para 5,50% segundo Relatório Focus divulgado no início da semana.

“Esse estímulo monetário pode ampliar o mercado de crédito com taxas de juros menores e estimular tanto os investimentos quanto o consumo, que são extremamente importantes para o comércio”, comenta.

Necessidade de mudanças – Com uma avaliação um pouco menos otimista em relação ao desempenho do comércio neste ano, o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), Marcelo de Souza e Silva, acredita que ainda é necessária uma mudança expressiva no ambiente de negócios.

Ele destaca que, até o meio do ano, a perspectiva era de aprovação das reformas da Previdência e tributária, além do início da desburocratização e da simplificação de processos, o que atrairia investimentos tanto internos quanto externos.

“Começamos o ano esperançosos na melhoria do cenário com as possibilidades dos governos nacional e estadual. Hoje, estamos com expectativas bem menores, porque ainda estamos no caminho para aprovar as reformas”, afirma.

Outra previsão que passou por revisão foi o crescimento do comércio na Capital. No início de 2019, a expectativa era de um crescimento anual de 2% a 3% e, segundo Silva, deve chegar somente a 1,5%.

“Precisamos que o Executivo volte a ser um grande incentivador das atividades e da economia do nosso Estado. Belo Horizonte é uma cidade que vive especialmente de comércio e serviços e, se não tivermos movimentação nessas atividades, fica difícil a cidade retomar o crescimento”, conclui.

Comércio aposta fichas em datas comemorativas

As datas comemorativas do segundo semestre fazem com que esse seja um período fundamental para o desempenho do comércio varejista. A tendência de que o aumento de oportunidades de negócios seja convertido em mais faturamento faz com que os comerciantes mineiros estejam otimistas para o semestre, conforme aponta pesquisa da Fecomércio-MG.

Os dados mostram que 74% das empresas do comércio varejista mineiro esperam vendas melhores no segundo semestre em comparação com os seis primeiros meses deste ano.

Além disso, na opinião de quase 70% dos empresários, as vendas na segunda metade de 2019 tendem a ser superiores em relação ao mesmo período do ano passado.

Os segmentos mais confiantes para o período, segundo o levantamento, são de tecidos, equipamentos e materiais para escritório, informática e de comunicação (90%) e móveis e eletrodomésticos (77,3%).

O economista-chefe da Fecomércio-MG, Guilherme Almeida, ressalta que, além do fator sazonal, a injeção de recursos do 13º salário e as oportunidades temporárias de emprego que acontecem no final do ano também injetam mais renda na economia e parte desse recurso é direcionado ao consumo.

“O segundo semestre historicamente é mais propício para as vendas do varejo, que tende a apresentar desempenho mais favorável em decorrência das datas comemorativas que exercem uma sazonalidade para o setor”, destaca.

Para o segundo semestre, considerando a aprovação das reformas da Previdência e tributária, o presidente da CDL-BH, Marcelo de Souza e Silva, acredita na possibilidade de um cenário melhor.

“Além das datas comemorativas do segundo semestre, precisamos provocar essa movimentação do comércio de forma diferenciada, com liquidações e atrativos para o consumidor, e aguardar a Black Friday e o Natal”, diz.