Marcelo Álvaro Antônio descarta a possibilidade de afastamento do cargo de ministro - Crédito: Antonio Cruz / Agência Brasil

Brasília – O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, foi convocado a prestar esclarecimentos em uma comissão do Senado sobre o caso das candidaturas-laranja do PSL. O requerimento de convocação foi apresentado pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) na Comissão de Transparência, Governança, Fiscalização e Controle e Defesa do Consumidor do Senado e aprovado ontem.

“Os acontecimentos se avolumam e tornam cada vez mais grave a situação do atual ministro do Turismo. Os acontecimentos chegam no nível do indiciamento dele por parte da Polícia Federal», argumentou Randolfe ao defender a aprovação do requerimento na comissão.

O senador disse ainda que a Comissão de Transparência já havia convidado Álvaro Antônio para responder às acusações antes, mas o ministro não compareceu. Por isso, acrescentou o senador, “não restou outra alternativa” que não fosse a convocação.

Os senadores marcaram a audiência com Álvaro Antônio para o próximo dia 22. As regras da Casa estabelecem que a reunião com a autoridade convocada precisa ocorrer dentro de 30 dias após a aprovação do requerimento.

Diferentemente do convite, o comparecimento por convocação é obrigatório. Caso ela não seja atendida, o presidente do Senado pode instaurar o “procedimento legal cabível” contra a autoridade.

“É importante que o Ministro coloque às claras o obscurantismo que ronda as eleições do PSL, esclarecendo à República sobre o que tomou parte neste processo eleitoral, dando a sua versão dos fatos”, escreveu Randolfe no seu requerimento.

Na semana passada, o ministro do Turismo foi indicado pela PF sob acusação de envolvimento no esquema de laranjas e posteriormente denunciado pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG).

A investigação, iniciada com base em reportagens do jornal “Folha de S.Paulo”, concluiu que o ministro comandou um esquema de desvio de recursos públicos por meio de candidaturas femininas de fachada nas últimas eleições.

Citado pela Promotoria como cabeça de um grupo que fraudava a utilização dessa verba, Álvaro Antônio foi formalmente acusado de falsidade ideológica eleitoral, apropriação indébita de recurso eleitoral e associação criminosa – com penas máximas de cinco, seis e três anos de cadeia, respectivamente. Ele diz que vai provar sua inocência.

Planilha – No último fim de semana, o jornal “Folha de S.Paulo” mostrou que um depoimento dado à Polícia Federal e uma planilha apreendida em uma gráfica sugerem que dinheiro do esquema de candidatas-laranja do PSL em Minas foi desviado para abastecer, por meio de caixa dois, as campanhas do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e de Álvaro Antônio.

A notícia gerou reação do presidente Bolsonaro, que afirmou no último domingo que a Folha de S.Paulo “avançou todos os limites” e desceu “às profundezas do esgoto” ao publicar a reportagem sobre possível uso de caixa dois na campanha dele à Presidência e na do ministro do Turismo a deputado federal.

O ministro do Turismo, por sua vez, negou na última segunda-feira a possibilidade de se afastar do cargo, mesmo indiciado pela PF e denunciado pela Procuradoria de Minas Gerais. Em entrevista à rádio Itatiaia, ele repetiu por três vezes, durante quase dez minutos, que irá se defender diante da Justiça e não deixará a pasta do governo Bolsonaro.

“Quem não deve não teme. Por que eu me afastaria, sendo que eu tenho minha consciência tranquila? Eu respeito muito o trabalho da Polícia Federal, do Ministério Público estadual, do Ministério Público Federal, da Justiça brasileira e eu vou ter minha oportunidade de, na Justiça, provar que, realmente, a minha conduta foi absolutamente idônea a frente do partido”, disse. (Folhapress)

Bolsonaro demonstra irritação com o PSL

Brasília – O presidente Jair Bolsonaro disse a um apoiador para esquecer o PSL, seu partido, e criticou o presidente da legenda, Luciano Bivar, de quem disse estar “queimado para caramba”.  Na manhã de ontem, ao ser abordado na saída do Alvorada pelo rapaz, que se apresentou como pré-candidato a vereador em Recife, Bolsonaro primeiro disse em seu ouvido “esquece o PSL”.

Ainda assim, o apoiador insiste em fazer um vídeo e grita “Eu, Bolsonaro e Bivar juntos por um novo Recife”, enquanto registra a cena. O presidente, então, pede que o vídeo não seja divulgado. “Cara, não divulga isso não. O cara está queimado para caramba lá. Vai queimar o meu filme também. Esquece esse cara, esquece o partido», disse Bolsonaro.

A cena foi registrada por um apoiador do presidente, youtuber do canal “Cafezinho com Pimenta”, e que tem transmitido todas as manhãs a interação de Bolsonaro com as pessoas que o esperam no Alvorada.

Por insistência de outros apoiadores, o rapaz então refaz o vídeo dizendo apenas “Viva o Recife, eu e Bolsonaro!”

Bolsonaro, que era deputado pelo PSC, se filiou ao PSL em março do ano passado para ser candidato à Presidência, depois de negociar com o Patriota e com o PR para garantir sua candidatura. O partido, dirigido por Luciano Bivar, entregou sua estrutura a Bolsonaro e seus apoiadores, colocando o ex-ministro e gerente de campanha do presidente, Gustavo Bebianno, temporariamente na presidência do partido.

O PSL agora é investigado por ter usado candidatas-laranjas nas eleições – mulheres que teriam sido colocadas como candidatas para cumprir a cota eleitoral obrigatória e usadas para recolher recursos do fundo eleitoral.

Na semana passada, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, foi indiciado pela Polícia Federal (PF) e denunciado pelo Ministério Público como autor do esquema em Minas Gerais, mas foi mantido no cargo pelo presidente. Luciano Bivar é investigado em Pernambuco em esquema semelhante.

Bolsonaro tenta se distanciar das denúncias mas no último domingo o jornal “Folha de S. Paulo” noticiou que depoimento dado à PF e planilha sugerem que dinheiro do esquema de Minas Gerais foi desviado por caixa 2 às campanhas de Álvaro Antônio e do presidente. Bolsonaro nega.

O partido também tem passado por disputas internas e, nos últimos meses crescem os rumores de que Bolsonaro poderia deixar o partido. No fim da tarde da última segunda-feira, questionado sobre o tema, o porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros, afirmou que “não há, da parte do presidente, agora, nenhuma formulação com relação a uma suposta transição do partido”.

À Reuters, Luciano Bivar disse, também na segunda-feira, que se trata de uma decisão unilateral de Bolsonaro ficar ou não no PSL, mas espera que o presidente continuasse.

O líder do PSL no Senado, Major Olímpio (PSL), afirmou estar perplexo com a declaração do presidente de ontem. “Nos pegou a todos de calças curtas”, afirmou o senador a jornalistas, no Congresso.

Ele disse que ainda não tentou entrar em contato com o presidente depois do ocorrido e que é preciso entender o que motivou a declaração. Também defendeu Luciano Bivar. “Talvez o presidente esteja vislumbrando uma situação que nós não vemos. O que eu vejo é o Bivar e todo o PSL tratando o presidente com toda a consideração do mundo. Por isso que não dá para entender”, afirmou o senador.

Olímpio disse não haver discussão sobre a substituição de Bivar e tampouco sobre a saída de Bolsonaro do partido. “É o único partido 100% fechado com o presidente”, afirmou. Ele disse que a ideia de Bolsonaro sair do PSL é “como morar sozinho e fugir de casa”, já que ele se tornou a figura central do partido. (Reuters/Folhapress)