Stefan Salej*

A nítida impressão é que o feriado de que os políticos latino-americanos mais gostam é o carnaval. Nos feriados religiosos, têm que ajoelhar e rezar.

Nos feriados republicanos, têm que cantar hino nacional, mostrar seriedade e dedicação à pátria. No carnaval, mesmo às vezes sendo chacota, eles se misturam ao povo, que perdoa tudo, esquece tudo e dança até quarta-feira de Cinzas, quando nada mudou, mas ficou ainda a alegria retida do carnaval.

E mais: nesta semana de carnaval, tudo pode acontecer, como nada pode acontecer. Comparando, em Minas ainda não enterraram as vítimas de Brumadinho, somados os mortos e desaparecidos o número ultrapassa 300 pessoas, e o carnaval em Belo Horizonte vai de vento em popa, como se a 40 quilômetros de distância tivesse acontecido o evento mais alegre do mundo, e o que temos do outro lado da Amazônia, a Venezuela. Lá, segundo o presidente com chave da cadeia e do cofre Maduro, o carnaval começa na quinta-feira e vamos ver o que acontece.

Aliás, as duas situações tão diferentes têm uma característica comum: ninguém sabe como vão terminar. Em Minas, as barragens estão pipocando, investidores são  cautelosos e a Vale vai se salvando em nome de ser a joia da coroa da economia brasileira. Imagina se não fosse, como não estaríamos. Provavelmente, ao  invés de 300 mortos e desaparecidos, com número muito diferente. Então, obrigado à joia da coroa.

Na Venezuela está se criado um impasse de governabilidade e com começo de primeiros conflitos à bala, que não está indicando nenhuma solução. A complexidade da confusão é de tal tamanho que o governo Maduro, que não tem dólares para comprar papel higiênico, autorizou a exploração de minas a céu aberto de ouro no melhor estilo de Serra Pelada. Mais de 300 mil garimpeiros procuram ouro, vendem pepitas aos atravessadores do governo, que os manda para a Turquia, onde o ouro é refinado e vendido.

Então, além da Rússia, China, Estados Unidos e países vizinhos, ainda tem como enxeridos a Turquia e o grupo terrorista Hezbollah, dominado pelos iranianos.

O Brasil, que foi fiador nos governos Lula e Dilma da Revolução Bolivariana e forneceu créditos de mais de 50 bilhões de dólares a Chávez e Maduro, sabe atualmente o perigo que representa uma solução sangrenta de mudança do governo em Caracas. E também que, se houver uma eleição, por mais bem supervisionada que seja, Maduro pode ganhar, porque os eleitores que votariam contra saíram do país e não podem votar. E tem mais: armaram o povo, milícias populares ou “colectivos”, que fogem ao controle das forças regulares, mas não dos consultores cubanos que dominam as forças de segurança venezuelanas. O Vaticano, que poderia mediar, está cuidando de pedofilia. A ONU está sem voz. E Guaidó, presidente apoiado por europeus e Trump, sem chave de cadeia nem comando do território.

E aí, todos torcendo para que o carnaval, seja cá ou lá, traga, através da alegria, a luz que mudará Minas e Venezuela.

*Ex-presidente do Sebrae Minas e da Fiemg, vice-presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp e Coordenador adjunto do Gacint da USP