Crescimento do comércio eletrônico no Brasil tem alavancado as operações de transporte de cargas das empresas aéreas

Mesmo com a facilidade que o setor aéreo representa para o transporte em um país com tamanha dimensão territorial, a logística de cargas para bens e serviços por avião ainda é pouco aproveitada no Brasil. O potencial para alavancar o setor está em diferenciais competitivos como agilidade, segurança e alcance. É o que explica alguns especialistas em logística consultados pelo DIÁRIO DO COMÉRCIO.

Para se ter uma ideia, dados da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) mostram que, em 2013, menos de 20% da capacidade para transporte de cargas nas aeronaves foi utilizada e que até o ano que vem, este número saltará para apenas 31,6%, enquanto que o transporte de passageiros vem dobrando de quantidade desde então.

De acordo com o especialista em cargas e mestre em economia, professor do Ibmec, Frederico Martini, embora o transporte aéreo de cargas ainda seja algo pouco utilizado no Brasil, alguns fatores contribuem para a maior disseminação deste tipo de serviço, como a distância entre os locais de origem e destino, por exemplo.

Por outro lado, conforme ele, algumas questões ainda impedem que este tipo de transporte não se popularize e conquiste mais expressividade nas operações logísticas do País. O principal diz respeito aos elevados preços. Assim, faz-se necessário avaliar a relação de custo, benefício e urgência na entrega ou recebimento da carga, antes de escolher o modal.

“É claro que contam vantagens como segurança, rastreamento e agilidade, mas os custos ainda são bastante elevados principalmente quando comparados com o transporte rodoviário. Em contrapartida, acaba sendo menos burocrático do que o marítimo e mais ágil que todos, incluindo o ferroviário”, afirmou.

A favor do segmento, conforme o especialista, contam os robustos investimentos que têm sido feitos pela iniciativa privada nos últimos anos, com as concessões dos aeroportos do País.

“O Aeroporto Internacional de Belo Horizonte era bastante precário e hoje conta com infraestrutura de cargas completa, incluindo câmaras frigoríficas, pátio informatizado, pessoal qualificado, etc”, exemplificou.

A coordenadora do Centro de Excelência em Logística e Supply Chain (FGVcelog), da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP), Priscila Miguel, destacou os esforços do terminal mineiro quanto ao transporte de cargas de alto valor agregado e de setores como eletrônico, farmacêutico, aeroespacial, automotivo, mineração e ferroviário.

Segundo ela, o foco nestes segmentos eleva ainda mais o potencial do terminal, uma vez que o custo do transporte acaba sendo proporcionalmente reduzido em função da menor vulnerabilidade e da rapidez na entrega.

“É uma questão de estratégia. As empresas precisam estar atentas à maneira como o modal pode contribuir e facilitar o negócio. No rodoviário, eu consigo fazer o ‘porta a porta’. No aéreo eu preciso de complementação, mas algumas companhias já oferecem o transporte completo”, lembrou.

Além disso, Priscila Miguel falou que o crescimento do e-commerce no Brasil tem alavancado as operações aéreas e pode contribuir ainda mais para o desempenho do setor.

Isso porque, ao considerar as longas distâncias do País e as condições de entregas ofertadas pelas empresas que comercializam seus produtos na internet, o modal aéreo se torna a melhor opção em termos de logística.

“As características de menor volume, maior quantidade, prazo menor e longas distâncias torna a opção viável e competitivo para o setor”, comentou.

LEIA MAIS:

Transporte aéreo de cargas tem forte expansão em Minas Gerais

Companhias obtêm melhora no faturamento

Não são somente componentes eletroeletrônicos, medicamentos, peças automotivas e aeroespaciais que compõem as cargas transportadas pelo transporte aéreo do Aeroporto Internacional de Belo Horizonte. Produtos diversos também são transportados diretamente pelas companhias aéreas, por meio de seus serviços próprios de transporte de cargas.

A Azul Linhas Aéreas, por exemplo, além de ser a companhia com maior número de voos a partir do aeroporto, com 80 rotas diárias, também já tem percebido o incremento nas operações do seu braço de cargas – a Azul Cargo – no terminal. Prova disso, segundo a diretora da Azul Cargo Express, Izabel Reis, é o movimento de clientes mineiros que antes transportavam suas mercadorias por outros aeroportos e hoje fazem por Confins.

“Os investimentos da BH Airport transformaram o terminal. No transporte de cargas domésticas a gente percebe melhoria principalmente na infraestrutura e segurança. Já no internacional, o aumento da capacidade foi fundamental para nossas operações”, disse.

A diretora disse ainda que acredita no potencial do modal aéreo, principalmente pelas dimensões territoriais do País. Sobre os entreves ainda encontrados, ela mencionou principalmente a infraestrutura.

“A falta de áreas para manusear cargas ainda é um problema. A falta de tecnologia também atrapalha em algumas movimentações intermodais”, revelou.

Um facilitador da companhia, no caso, está nos operadores logísticos exclusivos. É que como a Azul trabalha com o modelo de franquias já consegue atender 3.500 municípios em todo o Brasil. Ao todo são 250 lojas espalhadas pelo País.

A Latam Cargo Brasil, da Latam Linhas Aéreas, também avalia Minas Gerais com relevante potencial de crescimento para suas operações, que em 2018 responderam por 11% da receita total da empresa. Tanto que, recentemente, inaugurou seu terminal de cargas no maior aeroporto mineiro, elevando sua capacidade de operação. Agora a empresa passou a operar em três terminais de cargas no Estado, movimentando mais de 800 toneladas por mês.

A companhia dispõe de 48 terminais de carga em todo o País, dos quais 42 em aeroportos das principais capitais brasileiras e oferece o serviço de coleta em mais de 300 cidades e entrega mais de 3 mil localidades em todo o Brasil. Para isso, a Latam Cargo Brasil opera no mercado doméstico com 11 aeronaves, além de utilizar também os porões da frota de aviões passageiros.

Nas aeronaves de maior porte, como os Boeing, a capacidade de carga pode chegar a 57 toneladas. Na família do A320, a capacidade chega a quatro toneladas. No ano passado, 65% do transporte de carga foram realizados em aviões de passageiros e 35% em cargueiros dedicados que compõem a frota de cargas.

Participação das principais empresas na quantidade de carga paga e correio transportados – mercado internacional, 2017