Energia renovável e gás devem disputar protagonismo em leilão que o governo brasileiro promove hoje - Crédito: REUTERS/Leonardo Benassatto

São Paulo – Um leilão do governo brasileiro hoje para contratar novos projetos de geração de energia com entrada em operação em 2025 deverá ter disputa por protagonismo principalmente entre usinas eólicas e solares e projetos de termelétricas a gás, disseram especialistas à Reuters.

A concorrência pelos contratos de longo prazo oferecidos aos vencedores da licitação deverá ser acirrada, uma vez que o ritmo lento de recuperação da economia do País sinaliza baixa demanda de contratação pelas distribuidoras, ao mesmo tempo em que diversas grandes empresas buscam expandir seus negócios locais no setor de energia.

Além de elétricas multinacionais, como a italiana Enel, a espanhola Neoenergia e a chinesa State Grid, entre outras, já tradicionais nos leilões, há expectativa de que grandes petroleiras como BP e Total também tentem viabilizar projetos de geração, seja a gás ou mesmo com fontes renováveis.

A consultoria Thymos Energia estimou que o chamado leilão A-6 deve movimentar entre 500 e 600 megawatts médios em energia, um pouco abaixo até do certame dessa modalidade de 2018, que envolveu 835 megawatts médios, por incertezas econômicas.

“Vamos ter uma competição intensa, e isso já é praticamente de praxe nos últimos anos. É um leilão relativamente módico”, disse o consultor sênior de negócios da Safira Energia, Josué Ferreira.

Em 2014 e 2015, por exemplo, as licitações A-6 movimentaram 2,7 gigawatts e 1,15 gigawatts médios, respectivamente.

Ferreira projetou que a demanda neste ano poderia chegar a até 800 megawatts médios, dos quais entre 300 megawatts e 400 megawatts poderiam ser preenchidos por térmicas a gás.

“O gás natural é uma realidade. Tanto do ponto de vista da competitividade quanto por ser um elemento para o qual o próprio planejamento do governo tem dado uma atenção especial”, afirmou, em referência a Novo Mercado de Gás, iniciativa do governo Bolsonaro para reduzir custos do insumo.

A estatal Empresa de Pesquisa Energética (EPE) habilitou 71,4 gigawatts em projetos para a concorrência, dos quais 21,6 gigawatts em térmicas a gás. Já as eólicas somaram 22,5 gigawatts, enquanto usinas solares dominaram o cadastramento, com 24,75 gigawatts.

O consultor André Felber, da EPowerBay, também vê uma contratação dividida principalmente entre as chamadas novas renováveis e o gás natural, com projetos esparsos de outras tecnologias presentes na disputa, como hidrelétricas e biomassa.

Entre as solares e eólicas, ele vê favoritismo de investidores que já possuem grandes projetos em implementação, fruto de leilões anteriores ou de negociações no mercado livre de eletricidade, em que grandes consumidores podem negociar contratos diretamente com geradores e comercializadoras.

Como a disputa por preços deve ser acirrada, essas empresas ganham vantagem porque o estágio avançado dos projetos reduz custos de construção e permite antecipações agressivas da conclusão das usinas, o que gera faturamento extra com a venda da produção adicional no mercado livre.

“Tem projetos (eólicos e solares) que podem antecipar em quatro anos, é viável”, afirmou.

Estratégias – A forte concorrência tem derrubado os preços finais da energia nos leilões promovidos pelo governo no Brasil, o que leva cada vez mais empresas a buscar negociar ao menos parte da produção de seus projetos no mercado livre de energia, uma tendência que irá continuar nessa licitação, segundo os especialistas.

Mas uma mudança nas regras para eólicas e solares no A-6 em relação às licitações anteriores deverá segurar os deságios e pode impedir novos recordes, como os registrados pelas solares no leilão A-4 em junho, quando a fonte alcançou seus menores preços já registrados no País.

Agora, essas usinas deverão entregar energia às distribuidoras, compradoras na licitação, seguindo o padrão de consumo sazonal dos clientes das elétricas, e não de acordo com o perfil de geração das fontes.

“A nova realocação de risco deve influenciar no deságio, que não será tão grande”, disse em nota a Thymos Energia, destacando que ainda assim os preços deverão ser bastante competitivos.

“Acredito que os preços vão ser maiores que no A-4, mas também não vai ser nada absurdo”, disse Felber, da EPowerBay, que vê um impacto maior da nova regra sobre empreendimentos eólicos.

Participantes – Entre as empresas que já admitiram publicamente interesse em disputar o leilão A-6 com térmicas a gás estão a brasileira Eneva e a francesa Engie, além da GNA, uma associação entre a petroleira britânica BP, a alemã Siemens e a brasileira Prumo Logística.

Nas renováveis, a norueguesa Statkraft e a francesa Voltalia comentaram recentemente ter apetite pelo certame, enquanto analistas veem possível participação também das europeias Enel e Neoenergia, da canadense Canadian Solar, que tem sido bastante ativa no País, e da State Grid, por meio da CPFL Renováveis, entre outras.

Já a estatal paranaense Copel aprovou participação no leilão com o chamado Complexo Eólico Jandaíra, segundo ata de reunião de conselho divulgada na véspera. (Reuters)

Justiça aceita recuperação da Renova

São Paulo – A elétrica Renova Energia teve deferido pela 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca do Estado de São Paulo seu pedido de recuperação judicial, que listou R$ 3,1 bilhões em dívidas, das quais quase R$ 1 bilhão junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

A Renova disse em fato relevante na noite de quarta-feira (16) que a Justiça ainda nomeou a KPMG Corporate Finance, representada por Osana Mendonça, para atuar como administradora judicial, e determinou a suspensão de execuções contra empresas do grupo por 180 dias.

A companhia deverá prestar contas até o dia 30 de cada mês enquanto perdurar o processo de recuperação, sob pena de afastamento dos controladores e substituição dos administradores das empresas do grupo.

Ainda foi determinada a expedição de edital com prazo de 15 dias para apresentação de habilitações ou divergências de créditos no âmbito da recuperação judicial.

A Renova Energia opera pequenas hidrelétricas e tem um complexo eólico com obras paralisadas na Bahia, o parque Alto Sertão III, mas as subsidiárias que operam as usinas hídricas não entraram no pedido de recuperação. A empresa tem como controladores a estatal mineira Cemig e o fundo CGI, dos fundadores da Renova, Ricardo Lopes Delneri e Renato do Amaral. (Reuters)

State Grid não descarta novos aportes

Rio – A elétrica chinesa State Grid continuará a avaliar oportunidades de expansão no Brasil, onde o grupo já investiu US$ 12,4 bilhões desde 2010, o que representa cerca de 60% dos aportes da companhia fora da China no período, disse ontem o presidente da State Grid Brazil Holding, Chang Zhongjiao.

O executivo afirmou que a empresa buscará negócios tanto em leilões do governo como um certame de concessões para linhas de transmissão em dezembro, do qual a companhia pretende participar, quanto por meio de eventuais aquisições.

Executivos da State Grid também não descartaram interesse em participar de alguma maneira da privatização da Eletrobras, que o governo brasileiro pretende efetivar por meio de uma capitalização que deve reduzir a União a uma posição minoritária da companhia.

“Sobre Eletrobras não existem informações (detalhadas), mas se estiver em conformidade com nosso plano de expansão, por que não?», disse Zhongjiao.

“Continuo dizendo que não existe um modelo ideal e único que aceitaríamos. Precisamos de mais detalhes para começar a pensar”, acrescentou. (Reuters)