Crédito: REUTERS/Paulo Whitaker

São Paulo – O leilão de energia A-6 realizado pelo governo na sexta-feira (18) contratou usinas que somarão 2,9 gigawatts em capacidade, volume que superou expectativas de analistas e deverá representar investimentos de cerca de R$ 11,16 bilhões na implementação dos projetos, que devem iniciar operações em 2025.

Projeções de consultorias apontavam para a compra de 500 megawatts a 800 megawatts, bem abaixo do resultado efetivo após quase quatro horas e meia de disputa na licitação.

“Estamos hoje festejando, os analistas de mercado de energia até ontem estimavam um volume muito abaixo. Conseguimos uma compra quase duas, três vezes dos valores previstos”, disse a jornalistas o secretário de Planejamento do Ministério de Minas e Energia, Reive Barros.

O certame registrou preço médio de R$ 176,09 por megawatt, o que representou deságio de 33,73% frente aos preços teto definidos pela licitação, segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

Em coletiva de imprensa, autoridades definiram como favoráveis os preços obtidos e destacaram que a contratação garantirá energia suficiente para atender o crescimento do país, mostrando ainda otimismo quanto às próximas licitações.

O secretário Barros projetou que o nível de contratação do leilão de sexta-feira poderá se repetir ou até aumentar nos próximos anos.

“Nossa expectativa para 2020 é que se mantenha nesse patamar, até porque estamos hoje com Reforma da Previdência ainda incompleta, reforma tributária por vir, reforma administrativa… em 2020 vamos estar com outro nível de situação no país. E aí não se trata de nenhum ufanismo, nenhuma visão mais otimista, é em cima dos dados de que dispomos”, destacou.

Questionado sobre o volume contratado na sexta-feira, o secretário não entrou em detalhes sobre o que teria levado à superação das expectativas.

“O que posso dizer é que tanto ministério como Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) tiveram um esforço conjunto e uma conscientização dos principais compradores, as distribuidoras”, afirmou.

Entre as empresas vencedoras, que venderam energia no leilão, aparecem a brasileira Eneva, com a térmica Nova Venécia, de 92,2 megawatts, a francesa Voltalia, com dois parque solares em total de 80 megawatts e uma pequena hidrelétrica de 16 megawatts, além da norueguesa Statkraft, com projeto eólico de 75,6 megawatts, entre diversas outras, segundo relatório da CCEE.

Usinas eólicas foram a fonte com maior volume negociado, com 1,04 gigawatt em capacidade, seguidas pelas termelétricas a gás, com 734 megawatts, e pelos parques solares, com 530 megawatts – confirmando previsões de especialistas de que renováveis e gás dividiriam o protagonismo, em meio a planos do governo para incentivar o combustível fóssil.

Mas a licitação também contratou 445 megawatts em usinas hídricas e cerca de 230 megawatts em térmicas a biomassa.

A negociação diversificada, com presença relevante de diversas fontes de energia, foi destacada pelas autoridades presentes, que também apontaram características vistas como importantes em alguns empreendimentos específicos.

O secretário Barros ressaltou que entre as usinas que venderam energia no certame esteve a hidrelétrica São Roque, um projeto da construtora Engevix em Santa Catarina com 141,9 megawatts que está hoje com a construção paralisada, o que gera esperanças de retomada e conclusão da obra.

O presidente da CCEE, Rui Altieri, comentou ainda que as termelétricas contratadas têm custos baixos de operação, o que reduzirá custos gerados para os consumidores quando elas precisarem ser acionadas.

O resultado também levanta boas perspectivas para dois certames já previstos pelo governo para contratar termelétricas em março de 2020, disse o diretor de Estudos de Energia da estatal Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Erik Rego.

“São bons sinais para o próximo ano, mais sinais de que poderemos ter uma concorrência interessante para o próximo leilão”, afirmou ele.

Livre x regulado – Parques eólicos e solares mantiveram uma estratégia vista nas últimas licitações, de vender apenas parte da energia e “guardar” o restante para negociação no mercado livre, onde grandes empresas negociam a produção diretamente com geradores e comercializadoras.

Mas o movimento não foi seguido por empreendedores de projetos hidrelétricos e termelétricos, que comercializaram a maior parte de sua energia no certame, para atendimento ao mercado regulado.

“Nesse certame em específico, em torno de 65% da energia das hídricas e 93% da energia negociada de térmicas foi para o ambiente regulado. Nas eólicas e solares, aproximadamente 35%, e o restante elas poderão negociar a seu livre dispor”, disse a diretora da Aneel, Elisa Bastos. (Reuters)

MME quer apoio para térmicas a carvão

São Paulo – O Ministério de Minas e Energia quer apoiar a implementação de térmicas a carvão na região Sul, o que envolverá negociações para que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financie os empreendimentos, disse na sexta-feira (18) o secretário de Planejamento da pasta, Reive Barros.

O movimento do ministério vem em momento em que o carvão tem atraído menor interesse de investidores mundo afora, à medida que governos e empresas miram redução de emissões de carbono e maiores aportes em energia limpa, como usinas eólicas e solares.

O secretário defendeu que as térmicas da fonte fóssil seriam importantes para o Sul porque podem ser construídas perto de áreas que concentram consumo de energia na região, além de terem reservas próximas.

“Nós deveremos no final de 2019, através do ministro Bento (Albuquerque), apresentar um programa específico de viabilização de termelétricas a carvão no Rio Grande do Sul e Santa Catarina”, disse ele a jornalistas, após participar do leilão de energia A-6 em São Paulo.

O secretário disse que para serem viáveis esses projetos precisam buscar maior eficiência e modernização, de forma a se tornarem mais competitivos e reduzir emissões de carbono, o que não tem sido possível até devido à dificuldade de investidores para financiar os projetos.

“Elas não estão encontrando alternativas de financiamento nem a nível nacional e nem a nível internacional”, afirmou Barros.

“A ideia é que haja uma discussão entre o Ministério de Energia e o Ministério da Economia para encontrar alternativas, de tal sorte que o BNDES venha a voltar a financiar essas usinas”, acrescentou ele.

Os leilões de energia do governo brasileiro para novas usinas não contratam novos empreendimentos a carvão desde 2014, quando a francesa Engie venceu com sua térmica Pampa Sul, que iniciou operação neste ano.

Mais recentemente, a Engie colocou o ativo e outro complexo térmico a carvão em Santa Catarina à venda, em meio a uma estratégia global do grupo francês de investir apenas em renováveis e gás natural, visto como um combustível “de transição” rumo a uma matriz global mais limpa. (Reuters)