Crédito: Washington Alves / Reuters

Fica claro, a cada dia que passa e a cada nova revelação de bastidores, que a cruzada contra a corrupção no Brasil, apelidada de Operação Lava Jato, não obedeceu àquilo que os juristas chamam de “devido processo legal”, entendimento já partilhado, em parte, inclusive, por integrantes do Supremo Tribunal Federal. Parece ser o quanto basta para conspurcar todo o trabalho e, infelizmente, fragilizar a ação que se esperava definitiva para conter a corrupção na esfera pública, que, na avaliação de um ministro do Supremo, se tornara endêmica no País.

Como foi dito e repetido neste espaço, parecia existir, tanto na movimentação dos procuradores de Curitiba quanto daqueles que lhe davam guarida, muito mais ambição que propriamente virtude. A  corrupção, que servia de pretexto mesmo que de sua existência não existam dúvidas razoáveis, claramente foi apurada de forma seletiva, em que os aparentemente diligentes procuradores viam o que lhes era conveniente e ignoravam, como continuam ignorando, o contrário, mesmo sabedores de que a contaminação era absolutamente generalizada.

Para entender o que realmente estava em jogo, e como também já foi dito aqui, nada mais eloquente do que as imagens do deputado baiano, vestido de verde e amarelo, participando de uma manifestação portando carta em que dizia “chega de corrupção”. O mesmo deputado, hoje preso, ocupante de um apartamento transformado em cofre-forte e onde foram encontrados R$ 50 milhões em dinheiro vivo. O suficiente para demonstrar que ainda muita coisa está por fazer, que a corrupção precisa ser de fato estancada, que a restauração dos tais valores republicanos ainda está por ser feita.

Dito de outra forma, e enfaticamente, não se pode dar por terminada a cruzada, tampouco aceitar que os erros cometidos bastariam para anular justamente os processos mais importantes, com a consequente anulação das condenações. Tudo isso para então ser dado como certo que, de fato, existia muita ambição e nenhuma virtude e que o verdadeiro objetivo era afastar o ex-presidente Lula da corrida eleitoral, em que sua vitória era dada como certa. Que tal conclusão não seja confundida com uma escolha ou preferência, mas tão somente a conclusão de que o “devido processo legal” foi posto de lado, que um poder paralelo foi criado, e a democracia agredida de forma inaceitável.

Muito triste. E mais triste ainda é a tentativa, já suficientemente clara, de passar uma borracha em tudo e retomar as mesmas práticas, como se nada tivesse acontecido. Só resta indagar onde andam os milhões de brasileiros que foram às ruas pedir o fim da corrupção.