Mattar é fundador da Localiza - CRÉDITO: DIVULGAÇÃO

Salim Mattar, empresário conhecido e reconhecido, grande maestro da construção da Localiza, hoje uma das maiores locadoras de veículos no planeta, é hoje o titular da Secretaria que, abrigada pelo Ministério da Economia, tem entre outras tarefas a responsabilidade de conduzir as privatizações que o governo Bolsonaro coloca entre suas metas mais importantes.

Salim, defensor declarado e entusiasmado do Estado mínimo, esteve na semana passada na Associação Comercial de Minas para falar sobre seu trabalho e as metas que se propõe a atingir.

Imaginando um Estado integral e exclusivamente voltado para a defesa, segurança e educação e deixando de fazer tudo aquilo que a iniciativa privada possa fazer, ele adianta que Petrobrás e Banco do Brasil, por questões políticas, não entram nas suas contas e diz acreditar que, cumpridas as metas, terá levantado, até o final do atual mandato, algo em torno de um trilhão de reais.

Recursos, segundo ele, que ajudarão a administração pública a acertar suas contas e ao mesmo tempo livrar-se de um peso que não deveria carregar. Mais transparência e menos corrupção serão também consequências da empreitada.

Em tese, um raciocínio lógico e, bem ao estilo do palestrante, absolutamente pragmático para qualquer um que se recorde de que a regra do sistema são os gastos desnecessários e a ineficiência própria de empresas que não têm dono. Ou até sentido, como o caso sempre lembrado – que o palestrante nem se deu ao trabalho de apontar – da estatal criada e mantida para operar um trem-bala que nunca saiu do papel.

A questão, ou a grande dúvida, está em primeiro lugar saber se haverá capital privado disposto a ocupar todos os espaços que serão abertos; segundo, se haverá atenção diferenciada a questões tão sensíveis, como por exemplo o abastecimento de água ou o esgotamento sanitário, atividades que não podem ter como fundamento o lucro de possíveis investidores.

Esta indagação leva a outra, igualmente muito relevante. Será papel do Estado, nesse ambiente imaginado e apontado como ideal, garantir a segurança jurídica dos empreendedores, assim como os interesses, em alguns casos, como os apontados, muito sensíveis, dos consumidores. Para sociedades mais bem organizadas, tarefa simples, até natural, cumprida por agências reguladoras e seus equivalentes.

No caso brasileiro, e diante do reconhecido fracasso das agências reguladoras existentes, que foram ocupadas politicamente e como regra são cabides políticos ou braços dos setores que deveriam monitorar, é legítimo que a estratégia imaginada seja também motivo de preocupação. São pontos a acompanhar e monitorar, como, aliás, admitiu, com a energia que lhe é característica, o secretário Salim Mattar. Que tenha sucesso também diante dos interesses que serão contrariados.