Gabriela Pedroso
Da Valônia (Bélgica)*

Uma mistura de tradição com inovação. Vista de cima, a área rural se confunde com as construções urbanas, promovendo uma harmonia que, aparentemente, seria inviável para alguns dentro de um conceito de expansão econômica. Assim é a Valônia, uma das três regiões administrativas da Bélgica, situada ao sul de Bruxelas, e que, muito em breve, deve se tornar a mais nova parceira da Prefeitura de Belo Horizonte.

Buscando benefícios mútuos em áreas como exportação, investimentos, entre outros tipos de relações bilaterais, a região belga e o município mineiro devem assinar, no próximo dia 16 de setembro, um memorando de entendimentos (MOU, na sigla em inglês).

Uma delegação com autoridades municipais da Capital deve embarcar, nesta semana, para a Bélgica para conhecer melhor o local e suas potencialidades de negócios e firmar o compromisso com a representante governamental da região, a Agência de Exportação e Investimentos Estrangeiros da Valônia (Awex). Os principais setores a serem contemplados no memorando são saúde, agricultura, agrifood e smart cities (cidades inteligentes), segundo a CEO da Awex, Pascale Delcomminette.

A Awex já vem mantendo, há alguns anos, relações diretas com o Brasil, com escritórios em São Paulo e Rio de Janeiro. Agora, a agência planeja ampliar presença no mercado nacional e estreitar parcerias com outras cidades brasileiras economicamente estratégicas do ponto de vista dos investimentos. Esse é o caso não só de Belo Horizonte, como de Curitiba (PR) e Porto Alegre (RS).

“Obviamente, essas regiões são muito interessantes para nós, para desenvolvermos negócios juntos, pois possuímos prioridades em comum. É fácil para nós, na Valônia, uma região pequena, focar nessas áreas do Brasil”, explica a CEO da Awex.

A Awex prepara, para o próximo dia 14 de outubro, um seminário em Belo Horizonte para divulgar os trabalhos da agência a empresários mineiros.

Diversificação e exemplo – A região da Valônia, cuja capital é Namur, possui uma população de 3,6 milhões de habitantes, distribuída em uma área de 16.844 km², enquanto a população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) só para Belo Horizonte, em 2019, é em torno de 2,5 milhões de pessoas.

A pequena dimensão, porém, não é empecilho para o desenvolvimento econômico da região belga, que pode servir de exemplo em diversas áreas não apenas para a capital mineira, mas também para Minas Gerais.

Situada no coração da Europa, a Valônia, no século passado, tinha a mineração de carvão entre suas principais atividades econômicas. Com o passar do tempo e a maior preocupação com o meio ambiente e desenvolvimento de indústrias sustentáveis, a atividade acabou perdendo espaço na região, obrigando as autoridades locais a apostarem na diversificação da economia.

A localização estratégica valã acabou se tornando um dos principais ativos da região. Com a necessidade de buscar o crescimento econômico, promover o ambiente científico e tecnológico locais, assim como se mostrar competitiva em termos de inovação e empreendedorismo, a Valônia enxergou nos investimentos em logística e distribuição na Europa um meio de impulsionar os negócios e a economia da região.

Know-how e expertise esses que poderiam ser estrategicamente aproveitados por Minas Gerais, detentor da maior malha rodoviária do Brasil, correspondente a cerca de 16% do total de rodovias municipais, estaduais e federais de todo o País.

Além do Transporte e Logística, a economia da Valônia tem como pilares outros cinco polos de competitividade: Aeronáutica e Espacial, Agroindústria, Biotecnologia, Engenharia Mecânica e Tecnologia Ambiental.

Atração de investimentos – Em missão de imprensa do Brasil à Valônia, promovida pela Awex, e que contou com a participação do DIÁRIO DO COMÉRCIO, o governo local deixou claro o seu interesse em promover negócios com Belo Horizonte e também em captar investidores da Capital para oportunidades na região da Bélgica. Entre os principais atrativos para a realização de empreendimentos na Valônia, a CEO da agência cita três: localização, incentivos governamentais e inovação.

“Temos uma logística multimodal realmente moderna e, mais do que isso, que permite às companhias brasileiras realmente terem disponíveis mais de 400 milhões de consumidores com alta renda. O segundo ponto é que, como no caso da Alpargatas (que possui um centro de distribuição em Liège, cidade valã, desde 2016), a relação com a Awex possibilitou parcerias políticas e estratégicas na Valônia, tornando seu trabalho mais fácil.
Por fim, o terceiro ponto seria nossa política no sistema de inovação. Há mais de dez anos, a Valônia desenvolve políticas para a competitividade, o que significa uma forte relação entre a academia, centros de pesquisa e companhias”, explica Pascale Delcomminette.

O adido econômico e comercial da Embaixada do Reino da Bélgica e representante da Awex no Brasil, André Villers, acrescenta à lista de atrativos a abertura da Valônia para os estrangeiros, a qual ele classifica como um fator humano para investimentos.

“Como vocês notaram, as pessoas aqui são amigáveis, abertas. A Valônia é uma região extremamente aberta aos estrangeiros no sentido de viverem e se desenvolverem juntas. Temos uma importante comunidade de brasileiros aqui e muitas das companhias locais que visitamos já têm negócios com o Brasil. Eles têm experiência com o Brasil, investimentos no País também, e sempre que uma empresa brasileira tem interesse na Valônia, elas sabem que têm possibilidade de troca, apoio. Então esses aspectos não são só sobre dinheiro, só econômico, são fatores humanos”, conclui.

Pascale Delcomminette: subsídios do governo são grande atrativos | Crédito: Gabriela Pedroso

Smart cities e setor agroalimentar no foco das regiões

Um dos principais objetivos da Prefeitura de Belo Horizonte e que vem sendo desenvolvido ao longo dos últimos anos é tornar o município a capital mais inteligente (smart city) do País. O conceito envolve a criação de um sistema em que há interação entre pessoas e máquinas com o intuito de possibilitar o crescimento econômico e melhor qualidade de vida da população. A Capital possui, inclusive, o programa Cidade Inteligente, confirmando as prioridades em comum entre Belo Horizonte e Valônia.

O município mineiro possui números favoráveis quanto ao ambiente necessário para o desenvolvimento de uma smart city. Ao todo, mais de 250 startups estão presentes na San Pedro Valley, uma das melhores comunidades do segmento do País, localizada na cidade, que também possui o parque tecnológico BHTec.

A capital mineira tem ainda em andamento uma parceria público-privada (PPP) de iluminação pública, que, em dois anos de duração, já modernizou 55% da estrutura e promoveu uma economia de 56% no custo da eletricidade para a cidade. Esses exemplos de negócios mostram o amplo potencial de mercado de serviços e produtos que pode ser explorado em um intercâmbio entre mineiros e belgas.

Para atrair investimentos estrangeiros diversos para a região localizada na Europa, o governo da Valônia, aliás, não perde tempo. São oferecidos diferentes tipos de subsídios, que vão desde incentivos à pesquisa e desenvolvimento a infraestrutura, entre outros.

“E a partir do momento em que (empresas de fora) se instalam na Valônia, oferecemos todos os serviços que temos disponíveis para empresas valãs, o que significa que, para exportação, por exemplo, elas podem contar com nosso apoio humano, assim como nossos incentivos financeiros para crescer internacionalmente”, afirma a CEO da Agência de Exportação e Investimentos Estrangeiros da Valônia (Awex), Pascale Delcomminette.

Alimentos – Outra área em que a região belga se destaca é no segmento agroalimentar. O polo de competitividade Wagralim agrupa indústrias, universidades, centros de investigação e de treinamento e visa a acelerar a criação de valor dentro das empresas do setor por meio da inovação, associação e internacionalização. Ao todo, o cluster é composto por 180 indústrias e também possui contato com empresas no Brasil, que tem no ramo de alimentos uma das suas principais atividades.

*Editora viajou a convite da Awex