Gabriela Pedroso
Da Valônia (Bélgica)*

O investimento em ciência e tecnologia, com um trabalho cada vez mais integrado entre academia e as empresas, é um dos segredos da região da Valônia, na Bélgica, para o desenvolvimento, cada vez maior, de negócios de alto valor agregado. Uma das empresas talvez mais conhecidas da região pelos brasileiros e exemplo da tecnologia de ponta da indústria valã é o Grupo Sonaca, com sede em Charleroi.

A Sonaca é uma empresa que atua na indústria da construção aeronáutica e aeroespacial e possui subsidiárias espalhadas por todo o mundo, incluindo o Brasil. No País, a empresa está situada em São José dos Campos (SP) e o seu principal cliente é a fabricante de aeronaves brasileira Embraer, referência mundial na indústria aeroespacial. Além da Embraer, integram a lista de clientes do grupo Airbus, Boeing e Bombardier.

A empresa belga trabalha desde o design à produção de partes e peças para aviões comerciais, sendo uma das principais fornecedoras da Embraer. A companhia utiliza a subsidiária no Brasil como plataforma de exportação e aproveita a relação custo-benefício do País, que, segundo a empresa, possui profissionais do setor altamente qualificados.
“Temos acesso a bons trabalhadores, bons engenheiros. E o turnover é baixo, ou seja, as pessoas permanecem na empresa. É um bom lugar para se estar”, avalia o CEO do Grupo Sonaca, Bernard Delvaux.

Na Bélgica, a Sonaca participa de um grande cluster e trabalha em conjunto com diversas universidades, de Bruxelas, Liège, Mons, entre outras. A Valônia possui um know-how tecnológico de destaque, com 9 centros universitários, 300 centros de pesquisa, 11.000 pesquisadores e 20 centros de competência, todos colocados à disposição das empresas instaladas na região.

Centro Espacial – Outro destaque integrante do polo da Aeronáutica e Espacial na Valônia é o Centro Espacial de Liège, criado há 55 anos pela Universidade de Liège. O local abriga um centro de pesquisa especializado na instrumentação espacial, com área de ensaios ambientais a serviço da Agência Espacial Europeia, da indústria espacial e das empresas da região.

Entre os equipamentos espaciais produzidos e testados no local estão os satélites. O custo médio para construir um equipamento desses gira em torno de 1 bilhão de euros. Porém, de acordo com o astrofísico do Centro Espacial de Liège, Nicolas Grevesse, a grandeza do investimento não deve ser medida pelo seu valor financeiro. “O preço do satélite é o poder do homem”, frisa o pesquisador.

Em 2017, o Centro firmou um acordo com a Agência Espacial Brasileira. A ideia era levar estudantes brasileiros para Liège para estudar e treinar. O projeto, porém, acabou não seguindo adiante.

Conectividade – Localizada na cidade valã de Walcourt, a Skylane Optics produz transceptores ópticos, utilizados em redes de fibra óptica para a transmissão de dados. Há sete anos, a empresa também está no mercado brasileiro, com uma unidade de produção em Campinas (SP), mas com clientes espalhados por vários estados do País, entre eles, Minas Gerais.

“O Brasil é um mercado complexo, mas é enorme e importante para nós, principalmente devido a digitalização crescente na região”, avalia o diretor de operações, Quentin Bolle.
Em Minas Gerais, os clientes da Skylane Optics são a Cemig e a Mconn, em Belo Horizonte, e a Algar, em Uberlândia. A empresa no País também é conhecida por projetos realizados na área óptica durante a Copa do Mundo do Brasil, em 2014, nos estádios de Salvador (BA), Recife (PE) e Natal (RN).

Outro empreendimento que mostra o espírito de inovação na Valônia é a Tessares. Criada em março de 2015, a empresa, 70ª spin-off da Universidade Católica de Lovaina, atua na pesquisa, desenvolvimento e implantação de soluções de programa para melhorar a força e qualidade da conexão da internet. “Fazemos internet mais rápida. Providenciamos a melhor experiência de internet para as pessoas”, destaca o CEO e co-fundador da Tessares, Denis Périquet.

O software criado pela empresa promove uma espécie de internet híbrida, potencializando a capacidade da internet fixa com a móvel disponível nos smartphones. Assim, para acelerar a conectividade, quando a internet fixa está lenta, por exemplo, o software permite o uso complementar da internet móvel para propiciar uma melhor experiência de navegação.

“A ideia é combinar a rede de acordo com a internet disponível em determinada localidade”, explica Périquet. Atualmente, os principais alvos da Tessares no Brasil são as empresas de telecomunicações Claro, Vivo e Oi.

Tratamento do câncer ganha novos rumos

Outro polo foco de investimentos na Valônia é a Biotecnologia, que vem se destacando, principalmente, em inovação em soluções para a área da saúde. Fundada em 2012, a OncoDNA é uma empresa belga que se dedica à medicina de precisão para os tratamentos de câncer e cujo trabalho já alcança vários países, inclusive o Brasil.

O trabalho da OncoDNA, com sede em Charleroi, consiste em uma plataforma de dados que, com base na perfilação molecular do câncer, indica o melhor tratamento disponível para os pacientes com a doença de modo individualizado. “O tratamento do câncer requer uma medicina personalizada. E nós provemos uma análise específica”, explica o gerente de Marketing da instituição, Marc Buchet.

A plataforma da empresa pode ser utilizada por outras companhias, que enviam os dados para análise pelo software da OncoDNA. A instituição belga possui um parceiro no Brasil, o Laboratório Precision, mas o alto volume de impostos do País, segundo Buchet, tem dificultado a penetração da solução no mercado brasileiro.

“A maior dificuldade para nós investirmos no Brasil são as taxas de impostos para a importação de nossa solução para o País. Isso significa que obter as biópsias do câncer e enviá-las para a Europa e, depois, retornar os resultados para o Brasil é muito caro em termos de impostos”, afirma o gerente de Marketing, ao destacar que o ideal seria a redução das taxas para propiciar o acesso da população à solução que agrega tecnologia avançada.

Outro grupo da Valônia que trabalha no ramo dedicado ao tratamento do câncer é o IBA. A empresa, situada na Nova Louvaina, produz e comercializa equipamentos de última geração de diagnóstico e tratamento de pacientes com a doença. No Brasil, alguns hospitais chegaram a fazer contato com o IBA para negociar a compra de equipamentos, como o Sírio-Libanês e Albert Einstein em São Paulo. Em 2018, a receita da empresa com a venda de soluções atingiu a marca de 259 milhões de euros.

*Editora viajou a convite da Awex.