Paiva afirma que principal desafio é o do aumento da produtividade, já que crescimento populacional não irá mais contribuir para o PIB - Crédito: Waldemir Barreto/Agência Senado

O retrato que o economista Paulo Paiva traça para o Brasil nos próximos anos não é muito animador. Para ele, o Brasil só irá deslanchar se o Estado brasileiro abrir espaço para a uma maior participação da iniciativa privada na economia. Caso contrário, continuará de fora do grupo de países que mantêm, há 50 anos, uma taxa de crescimento anual igual ou superior a 3,5% ao ano. Paulo Paiva é o convidado do próximo dia 21, do projeto “Debates SME”. Para ele, os engenheiros podem dar uma contribuição importante ao desenvolverem projetos destinados a aumentar a produtividade da economia brasileira. Paulo Paiva foi secretário de Planejamento do governo de Minas e ministro do Trabalho no governo FHC. No Banco Mundial, foi vice-presidente de Planejamento e Administração. Paulo Paiva faz uma avaliação cética do governo Bolsonaro, que, para ele, acertou no diagnóstico, mas não está conseguindo implementar sua proposta ao valorizar, em excesso as questões ideológicas.

Quais são os principais desafios para a retomada do desenvolvimento pelo Brasil?

O crescimento econômico, como nós conhecemos, é um processo muito recente na história da humanidade. Se tomarmos como referência o início do cristianismo, foi somente na segunda metade do século 18, ou seja, apenas nos últimos 250 anos, que o mundo passou a crescer regularmente. Nessa época, tivemos duas rupturas importantes. Uma foi a demográfica, que ocorreu quando a população passou a crescer constantemente. A segunda foi a tecnológica, que veio com a Revolução Industrial.

Isso se deu também no Brasil?

Por aqui, a renda per capita e a participação do Brasil na economia mundial cresceram até a década de 80 do século passado. A partir daí, vem diminuindo. Por outro lado, há países emergentes com desempenho econômico excelente. Esses países estão divididos em dois grupos. Um é o dos que têm 50 anos de crescimento da renda per capita igual ou superior a 3,5%. Esse grupo é formado pela China, Indonésia, Cingapura, Coreia do Sul, Hong Kong, Malásia e Tailândia. Além desse grupo, há outro, de 11 países que, nas últimas décadas, tem crescimento de renda per capita de pelo menos 5% ao ano: Azerbaijão, Camboja, Etiópia, Índia, Cazaquistão, Miamar, Turquemenistão, Vietnã e Usbequistão. Nenhum país latino-americano, incluindo o Brasil, faz parte desses grupos. No Brasil, a renda per capita cresceu 2,2% nos últimos 50 anos. Quando se faz um corte, a situação do Brasil está dividida em dois períodos. Um é o que vai de depois da Segunda Guerra até fins da década de 70, quando a economia cresceu 7% e a renda, 3,5%. O que os países asiáticos mantiveram por cinco décadas, nós mantivemos por apenas duas.

E, a partir dos anos de 1980, o que ocorreu?

Nós nos transformamos em um avião em queda livre. O crescimento econômico foi para apenas 2,2% e a renda per capita para 1,3%. Se examinarmos a economia brasileira nesse período, o que tivemos foi uma enorme volatilidade. A economia brasileira comportou-se como o voo de uma galinha, que sobe e desce igual avião em turbulência – absolutamente volátil, com viés de queda.

O crescimento econômico ocorrido no governo Lula não foi suficiente para melhorar essa média?

Eu gosto de ser sempre muito assertivo. De fato, tivemos na passagem do século uma conjugação de fatores – como quando os astros se alinham e, supostamente, nos trazem uma série de benefícios. Entre 2004 e 2010, crescemos 4,5% ao ano, muito em função do ajuste macroeconômico feito no governo FHC, que acabou com a hiperinflação e gerou racionalidade na economia, criando um ambiente de estabilidade econômica. Aliado a isso, tivemos um boom das exportações de commodities, não só minerais, mas também agrícolas. O minério de ferro, por exemplo, passou de US$ 32 para US$ 160 a tonelada. Isso permitiu o aumento do emprego formal e também do consumo. Nesse ambiente, o governo Lula teve o mérito de não atrapalhar o tripé macroeconômico que veio de FHC e foi o principal fator de aumento do emprego e dos salários, com impacto na distribuição de renda. Isso durou até 2011, quando os preços das commodities começaram a cair e nossa economia começou a perder fôlego. Isso mostra a volatilidade da economia brasileira. Nos últimos 40 anos, o que incluiu FHC e Lula, a economia brasileira cresceu acima de 5% em sete anos e abaixo de zero em oito anos. Nos outros 25 anos, flutuou entre zero e 5%. É um crescimento espasmódico, não sustentável. Nesse sentido, diria que o governo Lula foi um espasmo de crescimento.

Quais são as perspectivas para os próximos anos para o Brasil?

Se você pegar a taxa de crescimento do PIB e a decompuser em seus dois componentes, que são população e produtividade total, verá que as perspectivas não são muito animadoras. No primeiro período, o do crescimento de 7% ao ano, 4,2% foram decorrentes da produtividade e 2,8% do crescimento demográfico. No segundo período, aqueles 7% baixaram para 2,2% e os 2,8% caíram para 0,7%. Então, olhando para frente, como ficará a situação? O primeiro complicador é demográfico. Isto porque a partir de 2049, a população tenderá a parar de crescer. Mas já no final da década de 30, isso já estará acontecendo com a população que entrar no mercado de trabalho. A contribuição da demografia para o crescimento econômico será de zero. Sobra a produtividade, que, estudos atuais, indicam que irá contribuir com apenas 0,5%. Nesse cenário, se absolutamente nada for feito, o potencial de crescimento do Brasil é de somente 0,5%, porque é impensável que a população volte a crescer. Assim, o destino do Brasil depende de nossa capacidade de aumentar a produtividade. Esse é o tema que quero colocar em pauta para os engenheiros.

Mas o aumento da produtividade esbarra em limites, pois não é possível um crescimento ilimitado da produtividade.

Sim. Por isso, temos que mudar o Estado, abrir espaço para a participação do capital privado, discutir privatizações, concessões. Temos que mudar o Estado e preparar as empresas para conviver com esse novo cenário. Investir em educação ajuda a aumentar a produtividade, mas não é só colocar os meninos na escola. É condição necessária, mas não é suficiente, ainda mais em um ambiente no qual a revolução digital ganha mais espaço a cada dia e cujo impacto sobre a economia não conhecemos ainda. Não quero deixar uma mensagem catastrófica de fim do mundo, mas não podemos cruzar os braços e deixaro destino resolver. Quem sabe não precisamos ter uma ruptura e ter um Estado diferente. A gente sempre procura responsabilizar o outro. Mas o que nós precisamos é assumir coletivamente a responsabilidade pelos destinos desse País. Temos 28 milhões de desempregados e subempregados. Se pegarmos esse conjunto de pessoas, teremos o segundo estado do Brasil. O primeiro será São Paulo.

Por que o crescimento ocorreu em outros países e não ocorreu aqui?

Tem um livro – “Por que as nações fracassam” – de dois professores da Universidade de Bostom – DaronAcemoglu e James Robinson – que discute justamente isso. A explicação deles é porque em alguns países as instituições são inclusivas e em outros, como no Brasil, são exclusivas. Por aqui, tivemos mais instituições que desapropriam o setor privado do que criam ambiente para o setor privado trabalhar. Nesses países de alta performance, o que mais chama a atenção nessa relação entre estado e setor privado é que nesses países o fortalecimento das médias empresas foi fundamental para produzir desenvolvimento. Aqui, o crescimento não está no DNA nem dos políticos, nem da classe média. O que as pessoas querem é se apropriar do Estado. Isso dá na crise fiscal que estamos vivendo.

O discurso do então candidato Jair Bolsonaro era no sentido de se reduzir o peso do Estado. O que está sendo feito reforça, em termos práticos, o que foi prometido durante a campanha?

Acho que o atual governo fez um diagnóstico correto da economia. A dificuldade está na implementação do diagnóstico, é no como fazer. Até agora, vejo que o governo não conseguiu transferir para a sociedade a visão clara do que ele pretende fazer. O governo Temer deixou prontos vários projetos que iam nesse sentido. E o governo Bolsonaro perdeu tempo ao não querer usar um projeto de reforma da Previdência que já estava sendo votado. Gastou tempo, energia e capital político desnecessariamente. O governo está preso na armadilha das reformas constitucionais, mas ninguém consegue governar um país só com uma agenda de reformas constitucionais. O resto, se está andando, não é comunicado para a sociedade. Crescimento econômico não tem nada de ideológico. É apenas decidir entre uma visão mais liberal ou menos liberal. A discussão é se vai concentrar mais o Estado ou se vai dar mais participação para a iniciativa privada. Infelizmente, a ideologia está contaminando o governo Bolsonaro. Uma questão é o ajuste fiscal. É preciso cortes no orçamento das universidades. E aí vem o ministro da Educação e diz que tem muita ideologia nas universidades. O governo deveria ser mais técnico e menos ideológico. Deveria usar sua energia para convencer as pessoas de que o Brasil deveria crescer. E parar com essa discussão se o homem deve usar azul e a mulher, rosa; se a escola deve ter partido ou não deve ter partido. Precisamos é agregar pessoas a um projeto de desenvolvimento do Brasil. (Conteúdo produzido pela SME)