Crédito: Jonathan Ernst/Reuters

TIAGO REIS*

A guerra comercial entre os Estados Unidos e a China já se estende há quase um ano e as tarifas de importação de diversos produtos foram elevadas gradativamente a ponto de impactar de forma significativa o comércio global. Como alternativa às elevadas taxas, a China e os Estados Unidos vêm buscando novos fornecedores para suprir a demanda interna da indústria.

A crescente demanda por produtos do lado chinês levou diversos países a aumentarem suas exportações. Chile, Malásia, Argentina, Hong Kong, Singapura e o Brasil estão entre os principais países que se beneficiaram do aumento das importações chinesas. Por outro lado, alguns países usufruíram do aumento da demanda americana, entre eles Vietnã, Taiwan, México e Coreia do Sul, segundo o relatório do banco de investimentos japonês Nomura.

Dentre os países mencionados, uma nação se destaca no relatório: o Vietnã. O documento aponta para um ganho de 7,9% do Produto Interno Bruto (PIB) como resultado do aumento das exportações para a China e para os Estados Unidos. Mas por que esse pequeno país do sudeste asiático com uma população de apenas 95 mil habitantes foi o que mais ganhou com a guerra comercial?

Com o tamanho aproximado do estado do Maranhão, o Vietnã apresenta uma história interessante. Em 1955, uma década após o término da segunda guerra mundial, no auge da Guerra Fria, se inicia a Guerra do Vietnã. A guerra, travada pelo Vietnã do Sul, com apoio dos Estados Unidos contra o Vietnã do Norte, apoiado pela China e União Soviética, durou cerca de duas décadas e matou mais de três milhões de pessoas, sendo uma das mais longas e sangrentas guerras da história. Após momentos difíceis de reconstrução, a partir da década de 1980, o país apresentou, por quase quatro décadas, crescimento expressivo, com avanço significativo do PIB, em relação ao crescimento mundial.

Hoje o país ainda apresenta crescimentos acima da média: segundo o Banco Mundial, enquanto o crescimento médio do PIB mundial foi de aproximadamente 3% ao ano, o Vietnã apresenta taxas superiores a 6%. Mas esse seria o único motivo para ele ser o país que mais se beneficiou da guerra comercial?

Em 2017, a China e os Estados Unidos eram os dois maiores importadores de produtos do Vietnã. Entre os principais produtos exportados pelo país, podemos citar, principalmente, máquinas e equipamentos para a indústria de eletroeletrônicos, produtos têxteis e calçados. Os três setores representaram mais de 70% das exportações de 2017.

Segundo o Observatory of Economic Complexity (OEC), os Estados Unidos absorveram 21% dos 220 bilhões de dólares exportados em 2017, enquanto a China foi responsável por 18%. Por mais que boa parte das exportações seja destinada à Ásia (48%), os Estados Unidos têm um papel importante para a economia do Vietnã, importando pouco menos do que toda a Europa (24%).

Entretanto, nem sempre foi assim. Na década de 1990, tanto a China quanto os Estados Unidos eram pouco relevantes para a economia vietnamita. Em 1996, por exemplo, a China era responsável por apenas 4,4% das exportações do Vietnã, enquanto os Estados Unidos representavam 4,8%.

Naquela época, o Japão e a Alemanha possuíam maior relevância nas exportações, sendo responsáveis por 30% e 9,5%, respectivamente. Somadas, a Ásia e a Europa respondiam por cerca de 86% das exportações vietnamitas naquele período.

Com o passar dos anos, o Vietnã se tornou um importante fornecedor da indústria têxtil, de calçados e de equipamentos eletroeletrônicos. Tais produtos, curiosamente, representaram mais de 60% das importações dos Estados Unidos provenientes da China em 2017.

Com o aumento dos custos de importação e a crescente ligação comercial entre os Estados Unidos e o Vietnã, o país americano buscou fornecedores alternativos aos produtos chineses e encontrou, no Vietnã, uma solução plausível para suprir sua cadeia industrial.

Assim, através de uma crescente relação comercial com os Estados Unidos e com a China, aliada a uma indústria que desenvolve os produtos comercializados entre os dois países, o Vietnã conseguiu se posicionar de forma a se beneficiar com os aumentos tarifários provenientes da guerra comercial.

Apesar dos benefícios, vale ressaltar que o banco japonês Nomura declarou, em um de seus relatórios, que o entendimento completo dos resultados da guerra comercial não é possível, no momento, e que muitos países sofreram com queda de demanda pela desaceleração do crescimento econômico mundial.

*Administrador de empresas, fundador e CEO da Suno Research, consultoria de análise financeira voltada para investidores individuais