Cesar Vanucci *

“O hinduísmo viverá enquanto houver hindus que protejam a vaca.” (Mahatma Gandhi)

O desfile pachorrento das “vacas sagradas” nas vias públicas, debaixo do reverente zelo dos transeuntes e motoristas, é das primeiras imagens de impacto que o turista recolhe ao pisar o enigmático e fascinante território indiano. A observação vale também para o Nepal. Ninguém ousa molestá-las. As vacas são vistas a remexer os recipientes de lixo largados na rua, à cata de papel. O guia explica que o papel, por causa da celulose, é dos alimentos mais ingeridos por esses bovinos ambulantes que esquadrinham, às vezes em bandos, as ruas e praças das cidades. Pergunto ao guia o que poderá acontecer com um nativo que atropele e mate um desses símbolos sagrados. “– Pega oito anos de cadeia.” Volto com outra pergunta: – E se o atropelador for estrangeiro? Resposta curta e grossa: – Não sai mais daqui…

A informação me transporta, imediatamente, aos tempos de foca de “O Triângulo”, em Uberaba. Fui cobrir um massacre de rezes, na avenida Fernando Costa, a do Parque das famosas exposições, provocado por uma possante caminhonete em desabalada velocidade. Revendo, nas ladeiras da memória, a cara assustada do rapazinho responsável pelo acidente, dano a conjecturar: – E se o atropelamento tivesse ocorrido na Índia?

Coisa difícil de explicar. Embora a carne de vaca esteja ausente, como é óbvio supor, da dieta dos indianos hinduístas, os turistas não vegetarianos não encontram dificuldade nenhuma em consumi-la. Nos principais hotéis e restaurantes da Índia, o produto é sempre servido, ao gosto do freguês. Agora, o que não saberei dizer é como se arranjam os comerciantes para garantir o fornecimento da carne, ou como se dá o abate dos animais em frigoríficos, sem que ocorram incidentes provocados em nome das rígidas tradições culturais e religiosas vigentes. Mais do que isso, em nome da veneração que a população hinduísta, maciçamente majoritária, nutre pelo animal.
Cabe anotar, também, que, nas tradições culturais e religiosas hinduístas, a vaca não é o único animal sagrado. O elefante também é. A tartaruga idem. O macaco, idem, idem, com a mesma data. Num dos logradouros mais movimentados de Nova Delhi ergue-se monumental estátua. Foi ali plantada com recursos arrecadados junto à população. É dedicada ao deus-macaco.

Conduzindo o barco destas singelas anotações como turista para outras águas. Um prodígio da Natureza, o Ganges, mais do que qualquer outra coisa, do que qualquer outro símbolo sagrado cultuado na veneração das ruas, representa – sem intenção de trocadilho – a verdadeira marca d’água da Índia autêntica. O rio sagrado abriga insondáveis mistérios.

Em suas águas, brotadas de fontes do Himalaia, as pessoas se banham, fazem necessidades fisiológicas, lavam roupas e utensílios, retiram o precioso líquido para beber e cozinhar. Não satisfeitos com esse tratamento, considerado por qualquer ecologista extremamente predatório, as mesmas pessoas lançam no rio tudo quanto é objeto considerado sem serventia. É no rio também que são largadas as carcaças de animais mortos e jogados os restos das piras utilizadas na cremação de cadáveres. Vem agora – não sei precisar se verdade ou mito – uma revelação inesperada, fervorosamente propagada: a água recolhida no rio, quando submetida a exames laboratoriais, conserva sempre padrões de pureza. Hinduístas apontados como personagens idôneos atestam isso com convicção. Nada, nada mesmo tão indiano quanto o Ganges!

Vez do leitor. Reportando-se ao artigo “Faces do Brasil Brasileiro” (DC dia 29.08), a escritora Zaíra Melillo Martins encaminhou-me a seguinte mensagem. “Prezado Dr. Vanucci, Sempre gosto de tecer meus comentários a respeito dos seus artigos. É como se estivesse conversando e trocando ideias. Além disso, me divirto muito com as suas opiniões bem-humoradas. Entendo perfeitamente o que sentiu no Tibete, ao ouvir Aquarela no Brasil. Vivenciei essas experiências algumas vezes, ao acompanhar meu marido em suas viagens profissionais. Em Nancy, no interior da França, quase tive um troço num restaurante. De repente, o pianista começou a tocar “Garota de Ipanema”. Me deu vontade de ir lá na frente e cantar… imagine! Na Colômbia, onde íamos em vários locais, sempre ouvíamos “Aquarela do Brasil”, “Tico-tico no fubá” e outras músicas nossas. Dava um contentamento sem tamanho! Os colombianos apreciam muito as músicas brasileiras e a nossa língua. Acham o timbre do português muito bonito. E nos falavam isso. Por isso é que entendo o que sentiu. Continue passando, vez ou outra, as suas experiências. São muito legais. Meu abraço de amizade”.

* Jornalista ([email protected])