Foto: Ricardo Laf

Esta é a última semana para o público conhecer um pouco mais sobre a história do Teatro Marília por meio da exposição “Teatro em Construção: o Marília nos seus primeiros 20 anos”. Com curadoria de Marília Salgado, filha do ex-governador Clóvis Salgado (1906-1978), e pessoa que inspirou o nome do teatro, a mostra apresenta textos curtos, imagens e lembranças de alguns daqueles que estiveram envolvidos no fazer teatral e que assim fazem parte da memória de Belo Horizonte.

Promovida pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), por meio da Secretaria Municipal de Cultura e da Fundação Municipal de Cultura, a exposição fica em cartaz somente até o próximo dia 24, de segunda a quinta-feira, das 10h às 18h; e de sexta a domingo, das 10h às 20h. A entrada é gratuita. O endereço é avenida Professor Alfredo Balena, 586, Santa Efigênia.

A narrativa da mostra é baseada em três aspectos fundamentais da construção do teatro: o aspecto físico, que destaca a construção do primeiro espaço destinado às artes cênicas; o aspecto artístico, que ressalta os grupos e artistas mineiros que se dedicaram a estudar, pesquisar e levar espetáculos de alta qualidade ao palco do Marília; e ainda, o aspecto político, que traz a importância do teatro para a construção de uma resistência ao regime militar.

O Teatro Marília tem uma história particular entre as casas de espetáculo da cidade. Foi construído no início da década de 1960 pela Cruz Vermelha de Minas Gerais, cujo presidente era Clóvis Salgado. A ideia foi construir na sede da entidade um teatro de palco italiano, dedicado especificamente às artes cênicas. Belo Horizonte na época só contava com o Francisco Nunes e o teatro do Instituto de Educação.

Ainda em construção, o teatro estreou sua primeira peça, “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, e a segunda, “Mulheres”, de Clare Booth Luce. A partir daí os espetáculos se sucederam com rapidez e o teatro chegou a oferecer quatro apresentações no mesmo dia, todas com casa lotada.

Com o Marília, formaram-se importantes grupos de teatro em Belo Horizonte, saídos principalmente do Teatro Universitário. Eram encenações que contemplavam espetáculos variados, que iam desde o teatro grego, tendo à frente o professor Ítalo Mudado, passando por autores norte-americanos, como Tennessee Williams, Arthur Miller, autores brasileiros consagrados e contemporâneos e também do teatro infantil.

A par dos espetáculos montados por diretores e atores de Minas, as companhias profissionais do Rio de Janeiro e de São Paulo vinham apresentar-se com frequência no Marília. Anualmente, o público mineiro assistia a espetáculos de grandes nomes da cena nacional como Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Cacilda Becker e Walmor Chagas, Sérgio Brito, Sérgio Cardoso, Ítalo Rossi, Eva Tudor, Beatriz Segall, Paulo Gracindo, entre outros.

Durante a ditadura militar iniciada em 1964, integrantes da classe teatral formaram grupos de resistência à censura, muitas vezes se reuniram em suas dependências, principalmente no Stage Door, para organizar atividades variadas de enfrentamento à restrição da liberdade. O Stage Door e a Galeria Guignard integravam o espaço do Marília, prolongando o tempo de duração das encenações, com movimento intenso de artistas, intelectuais, professores, estudantes e público em geral.

No porão do teatro, funcionou o Teatro Escola da Cruz Vermelha, fundado e dirigido por Priscila Freire, com cursos de interpretação, estética, movimentação cênica, improvisação e outros tantos mais. No teatrinho do espaço, com seus 80 lugares, havia intensa atividade, com ensaios, aulas e apresentações, sempre lotadas, com sessões matinais, vesperais, noturnas e uma especial, chamada Sessão Maldita, à meia-noite.