Cesar Vanucci*

“Símbolo budista significando amor, paz e harmonia.” (Delegado de polícia gaúcho explicando a suástica gravada a canivete na barriga da jovem)

Nestes tempos amalucados, de informações falsas apelidadas de fake news pelo modismo babaca solto na praça, andam pintando também no pedaço, exageradamente, sabe-se lá porque cargas d’água, situações de características bastante singulares e bizarras. Tão singulares e bizarras que chegam a confundir a mufa de muito vivente. Num primeiro instante, parecem até essas mentiras encomendadas distribuídas por “criativos técnicos” na propaganda política. “Especialistas” em “estratégias” de persuasão do povão. Um tipo de gente que dita, impavidamente, as regras das campanhas eleitorais modernosas.

Campanhas desfalcadas, como sabido, de ideias e de projetos. Campanhas de conteúdo panfletário, conduzidas mais na linha do “contra alguém”, do que “a favor de alguém”. Abaixo, sugestivas amostras, recolhidas em datas recentes, de fatos reais que, à primeira vista, soam como histórias inventadas.

Comecemos com uma ida ao Rio de Janeiro, pedaço de chão de lindeza especial deste conturbadíssimo planeta azul. Nessa cidade e adjacências sempre pontilhadas de lances desnorteantes gerados pelo desatino político, o candidato a governador vitorioso no primeiro turno fez uma declaração que vem dando o que falar. O ilustre cidadão, até indoutrodia desconhecido da imensa maioria das pessoas, magistrado conceituado, conseguiu contrariar todas as projeções das polêmicas pesquisas pré-eleitorais com bom trabalho de proselitismo. Assumiu com folgada vantagem a liderança na disputa, sobrepujando um ex-prefeito carioca, apontado o tempo todo na dianteira das tais pesquisas. Alijou praticamente do poder todos os grupos hegemônicos da política guanabarina. A declaração surpreendente que emitiu pode ser assim sintetizada: se seu adversário, num debate televisivo, se atrever a alvejá-lo injuriosamente, não vacilará em dar-lhe, ali mesmo, voz de prisão. Vasculhando a memória, constato que em campanha eleitoral alguma ouvi nada ligeiramente parecido com tão insólita e original manifestação.

Seguindo em frente. Detenho-me, por ligeiros instantes em um programa de auditório na televisão intitulado “Amor e Sexo”. A simpática apresentadora concita o entrevistado, ator de renome, em meio a frenéticas manifestações da indefectível bancada de juradas e da plateia, composta predominantemente de mulheres, a compor com bonecos de pano uma simulação de relação sexual ardente. Ele ajeita os bonecos diante das câmeras, de modo a oferecer uma representação da tarefa que lhe está sendo proposto. Embalde. Não consegue, na abalizada opinião da apresentadora e juradas, deixar “bem explicitada” a cena. Na sequência, na tela de fundo do cenário, bastante nítida, em movimentos de bonecos eletrônicos, é projetada a “imagem adequada” da tal “relação sexual ardente”. Aplausos ensurdecedores antes de deslizarem os letreiros do fecho do programa.

Em Porto Alegre, descendo de um ônibus, uma jovem de 19 anos, envergando camiseta com o slogan “Elenão”, é agredida e imobilizada por desconhecidos. Os agressores fazem-lhe talhos na barriga configurando a sinistra suástica. O delegado encarregado da investigação larga uma declaração insólita sobre o atentado. Possuído “da mais absoluta convicção”, diz que a marca a canivete, face ao detalhe de a perna do “S” estar invertida, não representa, ao contrário do que se supõe, o símbolo hitlerista. Mas, sim, um símbolo budista milenar com o significado de “amor, paz e harmonia”. Quis referir-se, talvez, ao fato histórico de que, no Tibete budista do Dalai Lama, o sinal da cruz gamada invertida é propagado com sentido positivo, desde tempos imemoriais. Os nazistas dele se apoderaram, adulterando-lhe o conceito. Passaram a apontá-lo como representação da “pureza racial ariana”. É obvio que a manifestação da autoridade gaúcha impacta as pessoas de bom-senso. Fica evidente também que os autores da agressão não estavam imbuídos, coisíssima alguma, do “edificante propósito” de espalhar, com seu gesto, mensagem de amor, paz e harmonia…

Rio de Janeiro, outra vez. Os encarregados das investigações não sabem, jeito maneira, como “descascar o abacaxi” da cobrança sistemática, por parte de uma opinião pública vigilante, a respeito da elucidação da tramoia criminosa que vitimou a vereadora Marielle Franco e seu assessor. Continuam, à vista disso, a se valer de trapaças para justificar a ausência de revelações. Dão força aos indícios de que conveniências poderosas se opõem ao esclarecimento de tudo, conforme denúncia recente de um delegado que abandonou o trabalho de apuração. A última informação estapafúrdia liberada pelas autoridades competentes é esta aqui: os peritos já teriam conseguido compor o biotipo físico do atirador. Já quanto aos nomes do atirador e prováveis mandantes, neca de pitibiriba.

* Jornalista ([email protected])