A bomba petrolífera

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05/06/2018 - Por José Eloy dos Santos Cardoso*

A bomba petrolífera que explodiu no Brasil e seu estopim que foi aceso não está na chamada “greve dos caminhoneiros”, que são incansáveis e elogiáveis trabalhadores, mas nas administrações desastrosas da Petrobras nos governos populistas que Lula e Dilma implantaram, através de um sistema político arquitetado com o objetivo de dar dinheiro para os petistas e para os partidos da base que queriam se perpetuar no poder. O objetivo principal não era administrar o Brasil, mas atingir o objetivo de poder quase permanente através da estatal Petrobras, que, por sua vez, deveria permitir superfaturamentos de obras dando sempre um “plus” para o partido principal, seus políticos apoiadores e alguns outros partidos participantes da chamada base.

Jogar a culpa da crise que produzirá, com certeza, bilhões de prejuízos aos brasileiros em geral é um total contrassenso. Os caminhoneiros têm razão, porque o custo com o combustível diesel, que é o componente dos custos mais importante, é grave, mas não é o principal, por seu efeito dominó em cima de toda a população. Em nove meses, as ações da Petrobras valorizaram 143% (até 16 de maio), o aumento de preços dos combustíveis em 12 meses bateu em 59,6% e as importações de diesel dos Estados Unidos triplicaram. Os caminhoneiros foram o primeiro vagão do trem chamado Brasil a sofrer o impacto e serão também prejudicados no meio de toda a sociedade. O setor de transportes por caminhões é pulverizado e os fretes são disputadíssimos. No Brasil, o quadro de transportes terrestres é o pior do planeta e o setor não tem regalias e sofre a carga de mais de 50% de suas receitas. Por exemplo, micro e pequenos transportadores sofrem na carne todo o aumento dos custos dos combustíveis, que pode fazer falta na mesa dos transportadores mais pobres como os motoboys.

Olhando-se unicamente pelo aspecto de negócios e pelo aspecto empresarial, a Petrobras tem razão, porque as administrações populistas, por exemplo, compraram uma refinaria dos Estados Unidos por um preço três vezes maior do que valia, permitiram que o presidente boliviano Evo Morales “desapropriasse” uma refinaria da Petrobras naquele país e as administrações passadas da empresa brasileira permitiram as desastrosas falcatruas descobertas na Operação Lava Jato. O problema é que o ex-presidente da empresa, Pedro Parente, resolveu fazer uma administração profissional que não é exclusiva dessa empresa e que é até adotada em outros países, adotando preços de venda de combustíveis balizando-se nos preços do petróleo no mercado internacional e repassando para os consumidores finais as majorações quase diárias dos preços. O barril de petróleo que pouco tempo atrás chegou a valer só US$ 35 o barril, valorizou novamente chegando até a ser cotado a US$ 90/barril. A Petrobras atual quis recuperar em pouquíssimo tempo todo o prejuízo que as administrações populistas causaram.

Acontece que os combustíveis líquidos como o diesel e a gasolina movem todo o sistema econômico como um todo. Não sendo possível aos caminhoneiros repassar diariamente para os fretes os aumentos nos custos de aquisição do óleo diesel, resolveram então colocar um “pare” nesses absurdos aumentos de preços. O Brasil não suporta mais quase 50% de aumento nos preços de combustíveis cobrados dos usuários em todos os níveis. Como no preço final dos combustíveis, quase 50% são impostos, estados como Minas Gerais e outros que têm nesses impostos uma grande parcela de arrecadação porque não estão tendo dinheiro nem para pagar as folhas de pagamento de seus funcionários. Esses estados não concordam em abrir mão desse imposto porque não conseguem outras alternativas arrecadatórias para equilibrar suas contas ou, pelo menos, diminuir a defasagem entre suas despesas e receitas.

Em curtíssimo prazo, uma solução não será nada fácil. Nesse ponto ficamos com o conhecido provérbio: “Se correr o bicho pega e se ficar o bicho come”. Resolver esse complicado “imbróglio” é difícil como podem pensar todos aqueles que não conseguem compreender como é a realidade de funcionamento da máquina pública. Nesse aspecto, ninguém consegue tirar da cartola o “coelho” que salvará de imediato a economia brasileira.

* José Eloy dos Santos Cardoso é economista, professor de macroeconomia da PUC-Minas e jornalista.