Exportações de café estão comprometidas

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31/05/2018 - Por Michelle Valverde

O setor cafeeiro de Minas Gerais está apreensivo com as consequências provocadas pela paralisação dos caminhoneiros. Em pleno período de colheita, a falta de combustível tem impactado nas principais regiões produtoras do grão. Nas áreas montanhosas a dificuldade é o transporte da mão de obra até os pontos de colheita, enquanto nas regiões mecanizadas a falta de abastecimento também compromete o funcionamento das máquinas.

O receio é de atraso na colheita, o que poderia causar perda na qualidade do café. Outro ponto é a dificuldade de escoar a produção, principalmente para atender aos contratos internacionais. A morosidade pode provocar atrasos nas entregas e perda da confiança dos compradores.

De acordo com a analista de agronegócio da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Ana Carolina Gomes, a situação da cafeicultura é muito delicada, principalmente por Minas Gerais ser o maior produtor e exportar a maior parte da produção. As consequências negativas com a paralisação dos caminhoneiros podem causar grandes prejuízos.

“Minas Gerais exporta mais de 80% do café produzido. Com o início da colheita, e por mais que o café possa ser armazenado, o atraso nos embarques compromete a fidelização com o comprador e o consumidor. Se a entrega não acontece de forma ágil e conforme os contratos, a situação gera consequências negativas. Podemos ter prejuízos potenciais como a perda da fidelização, do consumidor e a redução do market share, por exemplo. Por mais que existam cláusulas que justifiquem o atraso, isso impacta no mercado como um todo porque o consumo é crescente, os contratos existem e o café nacional responde por mais de 30% no mercado mundial”.

Gargalos - Ana Carolina destaca ainda que a falta de combustíveis também está impactando no andamento da colheita do café. Grande parte da cafeicultura mineira é de montanha, onde a mão de obra é manual. Em plena colheita, a dificuldade é transportar os trabalhadores.

“Os cafeeiros estão carregados no campo. O risco é atrasar e passar do ponto de colheita e haver perda significativa. Uma vez que não colhe o café na hora certa, há uma perda qualitativa do produto, gerando maior custo. Consideramos que os impactos da greve dos caminhoneiros para o setor do café é bem grande. Se nos próximos dias não houver liberação das estradas, temos grandes chances de os impactos se agravarem”, explicou.

A cafeicultura nas áreas mecanizadas, como na região do Cerrado, também vem sendo afetada pelo desabastecimento, o que impede o funcionamento das máquinas. “O impacto é geral. A colheita mecanizada precisa de combustível e a falta impacta em todo o processo”, disse Ana Carolina.

Embarques - O presidente do Conselho Nacional do Café (CNC), Silas Brasileiro, também manifestou preocupação com os impactos provocados pela paralisação dos caminhoneiros. Segundo Brasileiro, o setor tem sido fortemente impactado com bloqueios nas rotas de deslocamento para o Porto de Santos, onde o café é embarcado, e pelos atrasos em entregas em nível internacional.

“Nossa grande preocupação com a indústria mundial é em relação à fidelização, que o setor Brasil conquistou ao longo do tempo. Conseguimos garantir ao mercado que tínhamos condições de fazer as entregas em tempo e conforme o contratado. Agora, com a greve dos caminhoneiros, consequentemente, não teremos condições de cumprir efetivamente os contratos. É verdade que existem cláusulas em que força maior justifica o atraso. Mas o consumidor não quer saber disso, ele quer saber da organização e do compromisso do País”.

Brasileiro explica que todos os esforços para melhorar a qualidade do café e para abrir mais mercados podem ser comprometidos caso a fidelização dos compradores internacionais seja perdida. Uma delas seria a queda dos preços. Por isso, é preciso resolver a situação com agilidade.

“O café já está com preço aviltado. Os caminhoneiros já foram atendidos, e muito bem. Estão extrapolando. Já não é mais uma greve buscando melhorias de renda. Hoje a greve é abusiva”.