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RONALDO VASCONCELLOS*

Todo mundo sabe que, nesta época do ano, sempre ocorreram incêndios, na Amazônia e no resto do País; todo mundo sabe que até hoje ninguém conseguiu chegar a uma fórmula mágica que produzisse o tão sonhado desmatamento zero; todo mundo sabe também que o Brasil tem um dos melhores e mais eficientes sistemas de detecção de desmatamentos e incêndios florestais do mundo.

Esse sistema é operado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que recentemente foi vítima de uma acusação covarde por ter divulgado uma informação da qual ninguém, hoje, tem mais dúvida: a de que o desmatamento na Amazônia está em curva ascendente. Depois da temporada de incêndios, isso ficou ainda mais claro. O que o governo tentou foi culpar o carteiro pela entrega da notícia ruim.

Todo mundo sabe que existem na Amazônia várias ONGs que trabalham em defesa da floresta. São organizações, muitas delas, menores que a Ponto Terra, que eu presido. Mas que fazem, cada qual a seu modo, um belo trabalho de proteção da floresta.

Todo mundo sabe que ONGs normalmente não têm condições de gerar os recursos para manter suas operações. Então, elas dependem de fontes externas de financiamento. Em alguns casos, os recursos vêm até do exterior. E não há mal algum nisso. Mal haveria se elas estivessem prestando um desserviço ao Brasil e à proteção do meio ambiente. Mas não é isso que ocorre.

Todo mundo sabe que durante a campanha, o agora eleito presidente havia prometido afrouxar a fiscalização sobre a Amazônia, fiscalização que era feita pelo Ibama e pelo ICMBio. Era a senha de que madeireiros e pecuaristas precisavam, como está ficando agora comprovado, para a vandalização da floresta. A combinação dos incêndios habituais que ocorrem nesta época do ano, com o salvo conduto oficial dado para madeireiros e pecuaristas, deu no que deu.

Nos últimos dias, assisti meio estarrecido o presidente da República culpando as ONGs pelos incêndios na Amazônia. Foram declarações inúteis pois não levaram a nada; não ajudaram a construir. Apenas a destruir. E não é disso que o Brasil precisa. Assisti as manifestações que passaram a surgir em todo o mundo em protesto contra a destruição da floresta, para a qual o governo deu as costas, deixando-a arder em chamas.

Nesse episódio lamentável, perdemos todos. Perdeu a floresta e os que nela vivem, os animais, não importa se uma onça ou uma minúscula bactéria; perderam também os que dela vivem – índios, seringueiros e ribeirinhos, pessoas simples que mantêm uma relação secular de respeito à floresta.

Como Nação, perdeu o Brasil aquilo que o país tinha de mais importante junto aos seus pares: o respeito. Ganhou o agronegócio a incerteza quanto à manutenção de seus mercados no exterior, fruto de décadas de uma árdua batalha dos produtores rurais de nosso país.

Para a floresta e para o agronegócio, somente o tempo irá dizer o tamanho da tragédia. Mas que ela é real, não há como dizer o contrário.

*Engenheiro eletricista, turma de 1973 da UFMG, e presidente da Organização Ponto Terra