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Marita Arêas de Souza Tavares*

Enumerar as crises financeiras que atingiram o Brasil desde a proclamação da independência , em 1822, seria como embarcarmos em uma montanha russa, onde cada descida em acelerada velocidade nos traz medo e insegurança, até que surja uma subida, com a lentidão imposta por sua resistência, mas que, aos poucos, vai nos acalmando e trazendo maior confiança.

Nesses quase duzentos anos de história, ficou comprovado que é na crise que surgem as grandes ideias e energia para encontrar soluções que geram a volta do crescimento.
Acredito que a crise dos anos 90 talvez tenha sido a que mais atingiu diretamente as empresas de engenharia e consultoria, a indústria e os profissionais da engenharia de maneira geral, até que a crise atual a superasse.

No início dos anos 90, após uma década de estagnação econômica, com inflação cada vez mais alta, os brasileiros elegeram Fernando Collor, apostando em um político com novas ideias, apesar de menos conhecido fora de sua região eleitoral. Foi uma reviravolta na política econômica do país, marcada por privatizações, redução do papel do estado e abertura ao mercado mundial. As empresas, que até então se acomodaram com a falta de competitividade, tiveram que se reinventar para competir com produtos importados, de menor preço. Muitas reduziram seus contingentes humanos, outras fecharam suas portas.

A empresa onde trabalhei durante toda a década de 80, e da qual me desliguei em 1989, foi seriamente atingida pela recessão. Reduziu seus mais de mil empregados pela metade, desmobilizou equipes em contratos descontinuados e devolveu espaços alugados em recente expansão. Os setores de projetos de linhas de transmissão e subestações tiveram que abrir mão até de seus maiores especialistas, porque o governo paralisou as obras de expansão do sistema elétrico brasileiro.

Apesar do Plano Real, de 1994, ter sido bem-sucedido no combate à inflação, o País apresentava problemas, como os juros elevados e câmbio sobrevalorizado. A situação piorou com as crises conhecidas como dos tigres asiáticos e na Rússia. Com isso, o fluxo de recursos internacionais para os países emergentes foi interrompido. Em decorrência, o Brasil foi obrigado a desvalorizar o real em 1999 e a economia brasileira se estagnou.

Foi a fase conhecida como a do “engenheiro que virou suco”. Hoje, é a do “engenheiro que virou Uber”. Infelizmente!

A diferença entre a atual crise e as outras é que esta não foi gerada por qualquer crise ou influência externa, mas por má gestão, malversação do dinheiro público e disseminação da corrupção instalada em nosso próprio governo. Um governo que ignorou a oportunidade de tirar proveito da primeira década dos anos 2000, período dos mais prósperos da economia mundial. Oportunidade que poderia ter levado o País a patamares sonhados pelos brasileiros.

Em consequência, estamos revivendo o pesadelo da falta de recursos para investimentos em setores da maior importância, como pesquisa, educação, saúde e segurança. E sem recursos, o governo fica de mãos atadas, até mesmo para quitar salários dos servidores, quando deveria estar investindo também em melhores salários para categorias de reconhecido mérito.

Devo salientar a lamentável situação no segmento de pesquisas, maior gerador de inovações e desenvolvimento de um país. Como resultado, temos pesquisadores sem recursos e desmotivados, ou avaliando a opção de deixar o país por falta de condição de dar continuidade aos trabalhos. Pesquisas prejudicadas ou perdidas quando não podem ser interrompidas. Paralisação de centros de pesquisas, como está ocorrendo com o complexo laboratorial de Itajubá, o único da América Latina na sua abrangência: o setor elétrico. Lembrando que não se trata de um centro de pesquisas para Itajubá ou região, mas para o Brasil, localizado nessa cidade em razão de sua situação estratégica e do suporte técnico especializado lá existente.

Porém, não perdemos a esperança de que, impulsionada pelas dificuldades, a criatividade das brilhantes cabeças pensantes do País encontrem, no mais curto prazo possível, as soluções que nos levem à rápida recuperação do crescimento econômico e à volta da confiança no futuro.

*Engenheira e vice-presidente do Conselho Deliberativo da Sociedade Mineira de Engenheiros (SME)