Bolsonaro quer evitar desgaste de imagem com suspeitas de corrupção de assessores - Crédito: REUTERS/Adriano Machado

São Paulo – Integrantes da cúpula do PSL foram informados ontem de que o presidente Jair Bolsonaro estava decidido a sair do partido. Pessoas próximas a Bolsonaro que tentavam remediar a questão disseram a integrantes do PSL que a decisão, que já estava tomada, ficou mais difícil de ser contornada depois da declaração do próprio comandante da sigla, Luciano Bivar (PE) de que Bolsonaro “já está afastado” da legenda.

A afirmação foi uma reação à declaração do presidente na última terça-feira) de que Bivar está “queimado para caramba” em Pernambuco. “Não vai alterar nada se Bolsonaro sair, seguiremos apoiando medidas fundamentais. A declaração de ontem (terça-feira) foi terminal, ele disse que está afastado. Não estamos em grêmio estudantil. Ele pode levar tudo do partido, só não pode levar a dignidade, o sentimento liberal que temos e o compromisso com o combate à corrupção”, reagiu o dirigente do PSL.

Integrantes do PSL avaliam que, mesmo após estocar Bivar na terça-feira, Bolsonaro ainda não estava decidido a deixar a legenda. Eles acreditam que a gota d’água teria ocorrido depois que parlamentares do partido decidiram revidar e passaram a criticá-lo publicamente.

O presidente ficou ainda mais contrariado depois de o jornal “Folha de S.Paulo” revelar, nesta semana, novos desdobramentos do caso do laranjal em Minas Gerais, que envolve o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio.

Bolsonaro voltou a radicalizar seu discurso público, em uma tentativa de blindar o governo e evitar desgaste de imagem com suspeitas de corrupção envolvendo assessores.

O maior receio, segundo auxiliares de Bolsonaro ouvidos pela reportagem, é a perda de apoio na base de eleitores do presidente, que foi eleito com discurso de tolerância zero com irregularidades. Casos de suspeitas de corrupção tiveram repercussão nas redes sociais, impactando até mesmo o engajamento da base do presidente.

Mudança de tom – Três episódios recentes marcam o abandono do estilo conciliador que Bolsonaro tentava adotar desde o fim de setembro. O primeiro foi a operação da Polícia Federal contra o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), por suspeita de desvios em obras públicas. A ação foi no dia 19 de setembro.

Na semana seguinte, Bolsonaro disse que não falaria mais com a imprensa após seu discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.

O tom se acirrou ainda mais nesta semana, quando o jornal “Folha de S.Paulo” revelou, no último domingo, que um depoimento e uma planilha obtidos pela PF sugerem que recursos do esquema de candidaturas de laranjas do PSL em Minas Gerais foram desviados para abastecer, por meio de caixa dois, até a campanha de Bolsonaro. Para o presidente, a Folha de S.Paulo foi “às profundezas do esgoto”.

Para evitar aumento da rejeição, ele adotou estratégia que tem se tornado praxe na gestão. Em momentos de críticas, o Planalto eleva o tom na tentativa de enfraquecer o impacto de notícias negativas. O governo, nessa reação, busca também dar munição para que sua base eleitoral continue a defender a administração de Bolsonaro.

O foco das críticas agora são os veículos de comunicação. Na última terça-feira, no Palácio da Alvorada, Bolsonaro chamou a imprensa de “fétida”.

O presidente encerrou uma entrevista quando foi questionado sobre um apontamento feito pelo Ministério Público no Pará de que houve tortura na intervenção de presídios: “Parem de perguntar besteira”. O caso foi revelado pelo jornal “O Globo”.

Antes, Bolsonaro pedira a um pastor que o aguardava na frente do palácio uma oração para a imprensa. “Fala para a imprensa de (livro da Bíblia) João 8:32 aí», disse ao religioso, que orou. O trecho bíblico diz: «E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará».

Na última segunda-feira, Bolsonaro adotou linha semelhante. Ele afirmou que a cobertura jornalística não pode continuar com “covardia” e “patifaria”. “Eu lamento a imprensa brasileira agir dessa maneira. O tempo todo mentindo, distorcendo, difamando. Vocês querem me derrubar? Eu tenho couro duro, vai ser difícil. Continuem mentindo”, disse.

Além da “Folha de S.Paulo”, o presidente fez críticas públicas a outros dois veículos – “O Globo” e “Correio Braziliense’ -, acusando-os de mentir em reportagens sobre medidas administrativas estudadas pelo governo.

A última pesquisa Datafolha, divulgada em setembro, mostrou que a reprovação ao governo aumentou nos últimos meses até em grupos que eram simpáticos à gestão, como eleitores mais ricos e moradores da região Sul do país.

A estratégia de radicalização já havia sido adotada em julho, quando o presidente acirrou o tom após ser criticado pela indicação de um de seus filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), para a função de embaixador nos Estados Unidos. (Folhapress)