Para a feira de modas do Estado deste ano, a principal novidade em termos de diversificação foi a parceria com a indústria de fármacos e cosméticos - Crédito: Sistema Fiemg

Para enfrentar um cenário nacional adverso e ainda desgastado por recessão econômica e intenso debate político, muita criatividade e diversificação para aquecer os negócios da moda. Essas são algumas das apostas da 24ª edição do Minas Trend, que tem como tema “Em Dias de Sol” e acontece até sexta-feira (12) no Expominas, região Oeste da Capital.

Presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe destacou ontem, em entrevista à imprensa, que o evento segue na busca de ser autossustentável, o que deve ocorrer já na próxima edição. Segundo ele, no geral, houve redução de 40% do custo e aumento de 40% da receita do Minas Trend. Com isso, o déficit da Fiemg – realizadora da feira de modas – foi reduzido em 10 vezes.

Os aportes feitos pela federação nesta edição tiveram queda aproximada de 25% – o montante chegou a R$ 5,3 milhões, enquanto no evento realizado em outubro foi de aproximadamente R$ 6,9 milhões. Entre as frentes desta edição está a busca de novas parcerias, como a da indústria de cosméticos.

“Estamos tornando o evento mais aberto, mais participativo, integrado com outros segmentos e setores e área cultural”, disse Roscoe. Este ano, serão realizados desfiles coletivos abertos aos públicos, além de haver incremento na programação cultural e gastronômica. Outros fatores citados como geradores de otimismo ao setor é a definição do quadro político, a perspectiva de aprovação das reformas estruturantes e a estabilidade dos juros.

O número de expositores teve aumento de 15% a 20% em relação ao evento anterior. Nesse mesmo comparativo, o preço do estande teve retração também de 20% a 30%. As projeções para volume de negócios não foram informadas. “Temos boas perspectivas, pois há um número maior de expositores e compradores”, destacou Roscoe.

No total, o evento conta com 187 expositores, sendo 81 de vestuário, 69 de joias e 37 de bolsas. Desses, 47 são estreantes. O número de estandes chega a 253. O salão de negócios deve ser visitado por 15 mil pessoas nos quatro dias de evento, estando incluídos aproximadamente 3 mil compradores.

Diversificação – De acordo com Roscoe, a estratégia de ampliar o escopo do evento – reforçando seu caráter cultural e gastronômico – traz uma expectativa positiva. “Novas marcas podem dar frescor para o evento e diversificar mix de produtos”, afirmou. Durante o Minas Trend, serão realizadas oficinas e shows no Expominas e peça no Teatro Sesiminas, com patrocínio da Cemig, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Durante todo o evento, será realizada a Feirinha Aproxima, típica feira que oferece produtos gastronômicos.

Quanto aos negócios, a principal diversificação desta edição veio da parceria com a indústria de fármacos e cosméticos, que conta com estande adicional no espaço. Para os próximos eventos, a tendência é de ampliação desse tipo de negociação.

Diretor criativo do evento, o estilista Ronaldo Fraga disse ontem, em entrevista à imprensa, que a euforia que envolveu a moda nos últimos vinte anos deu lugar – após sucessivas crises – a um cenário mais real. “Diante do mundo real, temos que entender o que da moda continuará existindo, o que tem que mudar”, avaliou.

Para ele, um dos movimentos importantes é estabelecer diálogos. “Apesar de tudo isso que vivemos no Brasil, a ordem mundial é democratizar. Para sobreviver, a moda terá que abrir as portas e estabelecer diálogos com consumidores que ela nunca enxergou. Roupa, os chineses estão fazendo muito bem. Temos que fazer outras coisas”, disse.

O desfile de abertura aconteceu na noite de segunda-feira, com 17 marcas que se destacam pelo trabalho autoral. A trilha do desfile teve Zélia Duncan e Jaques Morelembaum homenageando Milton Nascimento.

Brumadinho – A tragédia da Vale em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, impacta todos os segmentos econômicos, inclusive o mundo da moda. E, para Flávio Roscoe, a mineração pode ser o tema do próximo Minas Trend. Mas ele pondera que não é o caso de demonizar a mineração. “É necessário refletir, não acabar”, disse.

Indústria têxtil revisa projeção de alta para 2019

Alisson J. Silva/ARQUIVO DC

A indústria têxtil e de confecção nacional fechou o primeiro trimestre revisando para baixo a projeção de crescimento. Presente ontem na abertura do Minas Trend, em Belo Horizonte, o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, informou que, no início de 2019, a expectativa era de crescimento de 3% no setor.

Entretanto, esse índice agora já foi alterado para 1,5% a 2%, com Pimentel apostando principalmente no número menor. “O consumo não avançou como tínhamos expectativa e o ambiente ficou pior”, disse.

Em 2017, a indústria têxtil nacional faturou R$ 165 bilhões, sendo que, em 2019, esse valor deve chegar a R$ 195 bilhões. Os dados de 2018 ainda não foram fechados. “Em um momento em que o Brasil passa por grandes transformações e ebulições, infelizmente, o ano não começou como gostaríamos. Mas já temos sinais de percepção melhor se avançarmos nas reformas estruturantes”, completou Pimentel.

Para Pimentel, é necessário resgatar os níveis de confiança com ações concretas e ele considera como primordiais a aprovação das reformas da Previdência e Tributária.

Entretanto, ele pondera que o setor não pode esperar apenas por essas aprovações. “Junto com as grandes reformas há as microrreformas, como reduzir custo de capital; trabalhar para que o crédito flua melhor; dilatação paulatina do prazo de pagamento de impostos”, disse.

Uma das medidas citadas por Pimentel é também o chamado “Revogaço”, que vem sendo citado pelo presidente Jair Bolsonaro. A iniciativa visa a reduzir decretos e instruções normativas no sentido de desburocratizar e melhorar a segurança jurídica.

Fernando Pimentel reforçou a importância da indústria mineira, citando que a produção têxtil de confecção do Estado é a terceira do País, sendo “relevante formadora de opinião e geradora de conteúdo”.

Presidente da Fiemg, Flávio Roscoe informou que um dos desafios para a indústria têxtil em Minas é a expansão das exportações. Um dos focos é a profissionalização das empresas nesse sentido.

“Em um primeiro momento, estamos preparando as empresas para depois atrairmos compradores internacionais”, explicou. Segundo ele, em Minas, a exportação de roupas é 12 vezes menor do que a da indústria têxtil. E, da indústria têxtil, é duas vezes menor do que a do algodão.

De acordo com dados da Fiemg, há em Minas Gerais 9.750 empresas na cadeia produtiva da indústria da moda, que empregam mais de 125 mil pessoas. O número de empresas mineiras representa, hoje, 13,5% do segmento em todo o País.

Congresso – A 25ª edição do Minas Trend, a ser realizada em outubro, contará com o Congresso Internacional da Abit, que terá como tema Fim das Fronteiras – da criação ao consumo e do consumo à criação.

“Há indústrias indo para o varejo, varejistas produzindo alguma coisa, os criadores sendo influenciados pela indústria”, explica Pimentel.

Entre discussões importantes para o setor, ele cita tecnologia, sustentabilidade e novas formas de consumo, que saem da noção de propriedade e vão para o contexto de compartilhamento. (AAH)