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A Poli Júnior, empresa júnior da melhor escola de engenharia do País – a USP, recebeu um grande desafio de um de seus clientes, o de encontrar uma finalidade para um óleo misterioso, gerado em pirólises realizadas em processos internos de uma companhia atuante da área ambiental, que oferece serviços de gestão de resíduos. Os sócios da organização eram assolados pela curiosidade que causava o produto e, por isso, já haviam feito testes com especialistas em pirólise do mercado sênior, mas nenhuma solução havia sido encontrada.

Quando a solicitação chegou até a Poli Júnior, as únicas informações que a equipe tinha era que as pirólises – uma de raspas de pneu e outra de plástico ABS – aconteciam internamente para gerar energia para o funcionamento da própria fábrica, já que a queima do lixo em condições anaeróbicas produzia três compostos, e dois deles já tinham destino comercial na empresa. O carvão gerado era vendido para caldeiras, o gás de síntese, era utilizado para produção de energia e redução dos custos de operação, e um líquido viscoso rico em hidrocarbonetos, sem utilização conhecida até então.

A equipe realizou mais de 27 testes laboratoriais, em menos de 20 semanas, e descobriu que os dois óleos gerados funcionam extremamente bem como solvente de polímeros e resinas, e para o ramo comercial do cliente, essa era uma solução lucrativa. Considerando ainda que foram produzidos a base de lixo, em um País que gerou cerca de 255 mil toneladas de resíduos por dia, em 2018, sendo o quarto maior índice em todo mundo, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, feito pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

Os testes também mostraram que esses óleos eram altamente poluentes, com o descarte no meio ambiente proibido pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), por conta de graves desdobramentos possíveis na natureza. Mas a solução encontrada pela Poli Júnior transformou a destinação dos produtos. Com alto valor agregado para a empresa, os óleos se tornaram sustentável, à medida que é fabricado a partir de borracha, material não biodegradável e matéria prima dos 17 milhões de pneus descartados por ano no Brasil, segundo a Recicloteca, Centro de Informações sobre Reciclagem e Meio Ambiente. Isso, além do uso de plástico ABS que a cada quilo produzido pelas indústrias são emitidos cerca 1,5 a 27 toneladas de compostos orgânicos voláteis (COVs), nome dado pela United States Environmental Programme a poluentes altamente tóxicos.

O mistério não terminou por aí, já que o cliente propôs um novo desafio para a empresa júnior, o de encontrar um meio de comercializar aqueles óleos viscosos e mal cheirosos. O objetivo era transformá-los em produtos mais agradáveis aos compradores sem perder o alto poder de solvência identificado previamente. Frente a esse novo desafio, os membros da Poli Júnior foram novamente para o laboratório e realizaram mais 115 testes, em menos de 18 semanas, instaurando um novo recorde para a equipe.

Mais uma vez, a solução foi alcançada, o odor do óleo foi melhorado e sua aparência tratada sem perder o seu efeito solvente. A descoberta apresentou uma alternativa à produção de solventes orgânicos, que geralmente são provenientes da extração e refino de petróleo, atividade com sério impacto ambiental por todo o mundo. Além disso, ficou evidente o potencial de criar uma destinação rentável para cerca de 20 mil toneladas diárias de lixo produzidos na cidade de São Paulo, que hoje são simplesmente depositadas em aterros, gerando prejuízos anuais de R$ 420 milhões com tratamentos de saúde e recuperação do meio ambiente, segundo a Abrelpe. (Da Redação)