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Opinião

17/05/2018

Uma questão crucial

Cesar Vanucci*
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“Pois a mulher é a grande educadora do homem.” (Anatole France)

Os registros estatísticos dão conta de que mesmo em países tidos como desenvolvidos, caso, por exemplo, do Japão, os salários mostram-se desiguais entre homem e mulher. A média da remuneração da mulher situa-se abaixo da metade da média da remuneração do homem. As possibilidades de ingresso em empregos, nesse mesmo tipo de confronto, eram até recentemente de 61% no Japão, 58% na Holanda e 16% nos países árabes. Estudo recente revela que, no Brasil, as mulheres negras recebem, em média, a metade dos salários atribuídos aos homens negros. Os quais, por sua vez, recebem a metade dos salários conferidos aos homens brancos. Quer dizer, o mercado de trabalho garante-lhes a metade da metade...

Sabe-se mais: de 1,2 bilhão de pessoas que, no decênio passado, viviam em estado de pobreza absoluta (renda anual inferior a 370 dólares), 70% eram mulheres.

Outro levantamento esclarecedor diz respeito às chances de participação feminina no poder das decisões. As mulheres ocupavam, no final do século passado, apenas 20% dos cargos administrativos, 6% dos cargos de direção, algo equivalente aos chamados postos ministeriais. Tem mais: meio milhão de mulheres (99% do chamado Terceiro Mundo) morriam, anualmente, de acordo ainda com as estatísticas, vitimadas por patologias vinculadas à maternidade.

Não há como ignorar, por outro lado, o tratamento diferenciado, de modo geral desrespeitoso, com que a mídia, de modo geral, acionada por preconceitos milenares dominantes no inconsciente coletivo, se ocupa das coisas da mulher, em geral. O fato trivial de uma mulher que, no exercício de função pública, resolva assumir ostensivamente um caso afetivo é de molde a suscitar um turbilhão noticioso, que vou te contar...

Está na cara que os dados focalizados nesta sequência de comentários não esgotam o temário difícil e, sob incontáveis aspectos, doloroso da problemática enfrentada pela mulher. Mas eles se incumbem de projetar as perturbadoras circunstâncias que envolvem a questão, prioritária no processo da promoção humana. O Banco Mundial anota algo muito importante e que permanece no olvido da maior parte dos viventes, homens ou mulheres: “A desigualdade entre os sexos paralisa a produtividade e dificulta o crescimento econômico”.

É de toda oportunidade salientar, de outra parte, que, antes de serem problemas da mulher, as questões que impedem ou dificultam, em tantas partes do globo e em tantas esferas de atividade, a ascensão feminina na sociedade, são problemas cruciais do ser humano. De todos os seres humanos, em todos os continentes, independentemente de sua nacionalidade, etnia, credo religioso, ideologia política ou formação cultural. Quanto mais convicções individuais de sentido renovador puderem se reunir à volta de constatações óbvias como essas, maiores se tornarão as possibilidades de podermos, algum dia, todos juntos, construir um mundo melhor. Um mundo melhor para mulheres, homens, crianças, adultos, negros, brancos, amarelos, árabes, judeus, sãos, enfermos, cristãos, budistas, maometanos, pobres, ricos, remediados e excluídos. Tudo está relacionado com tudo.

Fique, aqui, por derradeiro, uma confissão pessoal. Carrego comigo, não é de hoje, uma instigante sensação. Ponho-me, às vezes, diante das vicissitudes impostas à mulher no longo curso da história humana, a imaginar que poderá ter sido armada, lá em cima, na hora do juízo final, para os viventes que sintam dificuldades em reconhecer a igualdade em direitos do homem e da mulher, uma desnorteante surpresa. Na hora da inevitável prestação de contas pelos atos aqui praticados, Deus revelar-se mulher. Negra.

*  Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

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