16/07/2018
Login
Entrar

DC Mais

22/09/2017

"A Costa dos Murmúrios", da portuguesa Lídia Jorge

Rogério Faria Tavares*
Email
A-   A+
Volto a escrever sobre Lídia Jorge, uma das mais premiadas autoras portuguesas da atualidade. Se antes comentei a respeito de um de seus mais impressionantes livros, “O Vale da Paixão”, publicado no Brasil, pela Record, em 2003, sob o título de “A manta do soldado”, agora abordo outra obra igualmente marcante da romancista nascida no Algarve, em 1946: “A Costa dos Murmúrios”, que saiu no Brasil pela mesma editora, em 2004, mais de uma década após a primeira edição portuguesa, de 1988. O livro também foi adaptado para o cinema. O longa-metragem, dirigido pela portuguesa Margarida Cardoso, foi lançado em 2004 com o mesmo título. É uma boa recriação, com elenco convincente e roteiro fiel às intenções de Lídia.

 Já na ‘orelha’, o baiano Antônio Torres, da Academia Brasileira de Letras, trata Lídia como responsável por uma das produções literárias mais originais, abrangentes e significativas do nosso tempo. E o enredo que ela apresenta ao leitor confirma tal opinião. Tendo como pano de fundo os últimos anos dos portugueses no continente africano, especialmente em Moçambique, a autora constrói uma trama sofisticada, em que as personagens falam de amor e de morte e em que a posição das mulheres se assemelha à dos colonizados, pela situação de opressão a que ambos se sujeitam.

Admito: não foi leitura fácil. “A Costa dos Murmúrios” contém dois relatos, o primeiro dos quais se intitula “Os gafanhotos”. Com a estrutura e a extensão de um conto, ele narra história bem semelhante à que se lê na segunda parte, esta sim, constituída no padrão do romance. A voz da narradora se manifesta de modo complexo. Ora se apresenta como a de Evita, ora se apresenta como a de Eva Lopo, a mesma personagem, vinte anos depois. O tema da memória é, pois, inevitável, sendo o que oferece uma das chaves mais valiosas para a compreensão do texto de Lídia: o que recordar? o que esquecer?

 Pertencente à geração de escritores que despontou logo após a Revolução dos Cravos, de 1974, Lídia Jorge tem contribuído, com sua literatura, para a reescrita do que foi o salazarismo e a relação de seu país com as chamadas ‘províncias ultramarinas’. Contrária ao discurso oficial, ela reconfigura o passado de modo crítico, descartando seu caráter heroico ou benfazejo. “A Costa dos Murmúrios” denuncia a violência e as barbaridades cometidas durante o tempo em que Portugal esteve na África. Um comentário final: mesmo que a autora tenha realizado rigorosa pesquisa sobre os fatos no Museu Militar de Lisboa, o que impressiona mesmo é a sua capacidade de imaginar como teria sido a vida de tantas mulheres e homens anônimos, todos esmagados pela experiência da guerra colonial.

* Jornalista. Da Academia Mineira de Letras

Publicidade

Aproveite! Assine o DC e tenha notícias exclusivas

Leia também

14/07/2018
Faemg concede Medalha do Mérito Rural aos que contribuem com a agropecuária
Pessoas e instituições que prestam contribuições relevantes ao desenvolvimento da agricultura, pecuária e silvicultura de Minas Gerais foram agraciadas, no dia 6...
14/07/2018
AGENDA CULTURAL 13/07
Dois na Quinta Chilena e mineiro - A chilena Claudia Manzo está em BH há algum tempo. Sua alma carnavalesca se comprova no bloco “Bruta Flor”, que desfila pela...
14/07/2018
Fitas de gentileza
De 10 a 12 de agosto, pelo terceiro ano consecutivo, BH abrigará o Festival Verbogentileza , que tem como uma de suas marcas registradas uma instalação de fitas coloridas: o...
14/07/2018
12ª CineBH
Professores e educadores da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) podem inscrever seus alunos para participar do programa Cine-Expressão – A Escola vai ao cinema, no...
13/07/2018
Inovação ambiental
A próxima reunião Quinzenal d a Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas) – Futuro, já! Para viver à frente do seu tempo –...
› últimas notícias
JPMorgan encerra trimestre com receita 6,5% maior e lucro acima das expectativas
Setor de serviços encolhe 6,7% em maio em Minas Gerais
Cemig pretende alongar prazo de dívida
Faemg concede Medalha do Mérito Rural aos que contribuem com a agropecuária
Mercado de eventos dribla a crise em Belo Horizonte
Leia mais notícias ›
› Newsletter
O melhor conteúdo exclusivo e gratuito no seu e-mail:




Cadastrar
› Mais Lidas
Leia todas as notícias ›
Publicidade
› Assine o DC

Acesso completo

aos conteúdos online e versão impressa.
Único jornal especializado em Economia, Negócios e Gestão de Minas Gerais.
Ferramenta indispensável para fazer bons negócios.
› Edição Impressa


14 de julho de 2018
Conteúdo exclusivo para assinantes
› DC no Facebook
 
© Diário do Comércio. Todos os direitos reservados. Política de Privacidade. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.