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Opinião

09/06/2018

A mulher na sociedade (2)

Cesar Vanucci*
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“Não é fácil. São lutas para muito tempo ainda.”
(Professora Maria Inês de Moraes Marreco)

Na crônica anterior, reportamo-nos à primorosa palestra sobre “A atuação da mulher na sociedade” proferida pela professora Maria Inês de Moraes Marreco na Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais. Detivemo-nos, nas considerações então alinhadas, no trecho em que a expositora reproduz bizarros e preconceituosos artigos estampados em jornais de 1881 contendo alusões ao comportamento feminino “recomendado” pelos costumes vigentes naqueles recuados anos. O último texto focalizado aponta os “dez mandamentos da mulher”, uma peça machista de hilário (conquanto impertinente) teor, a ser “lida pelas mulheres 12 vezes por dia”, segundo estipulado pelos autores.

A professora Maria Inês anota, na exposição, não saber como um texto desse conteúdo era recebido pelos leitores, nem “como eram vividas e experimentadas as imagens de mulheres que os jornais reproduziam”. Aduz: “Mas, com o crescimento das cidades e as necessidades da mão de obra feminina nas classes mais abastadas, os novos modelos de mulher precisavam ser divulgados, talvez com tanta ou maior veemência que nas cidades maiores.” Explica, adiante: “(...) não queremos crucificar os homens. O domínio que eles têm sobre as mulheres é diferente dos outros domínios, porque na maioria das vezes não é imposto pela força, é aceito voluntariamente e as mulheres não só não se queixam como são corresponsáveis por consentirem.”

Noutro instante da exposição sustenta que poderiam ser facilmente rebatidos os argumentos, suscitados por alguns, de que as mulheres talvez não possuíssem capacidade para se destacar na filosofia, nas ciências ou nas artes. Diz, a propósito: “Não poderia ser de outra forma após séculos de influência patriarcal. Nada mais razoável que as mulheres tivessem mais tempo para se libertar.”

Depois de consignar avanços na conquista de direitos pelas mulheres a contar da década 70 do século XIX e de assinalar que o século XX acusa a continuidade desse processo evolutivo, a Professora reconhece ser ainda longo o caminho a percorrer em termos de tolerância, de respeito, de convivência. Acrescenta: “Um verniz civilizado pode ser forte, mas tem ainda que endurecer muito mais de forma que o prezar a liberdade dos outros se nos torne uma segunda natureza. Não é fácil. São lutas para muito tempo ainda. A contemporaneidade integra em si muitos elementos de irracionalidade. Porém, não pensemos apenas no caso da mulher, mas também do  desgraçado, do marginalizado, do pobre e do desempregado sem horizontes, como uma oportunidade para uma solidariedade ativa.”

Para embasar suas reflexões em torno do tema ela recorre às palavras de um filósofo inglês, do século XIX, John Stuart Mill: “Em última análise, o que está em questão, e se reveste de maior importância, é dar liberdade às mulheres em cada um dos extremos, quer na vida privada, quer na vida pública. Se procuram alcançar um equilíbrio entre as duas esferas, isso apenas a elas diz respeito, desde que o possam fazer livremente. [...] Não se deverá esperar que justifiquem as suas conquistas, em termos de igualdade dos sexos, com obras extraordinárias para além daquilo que se espera que os homens façam.

Cada um de nós conhece os seus limites e saberá, com certeza, estabelecê-los conforme melhor lhe aprouver. [...] Já não se trata, pois, de questionar se a igualdade da mulher na vida pública a levou até onde deveria. Trata-se, sim, de reiterar que a sua igualdade a levará tão longe quanto ela quiser ir (MILL, 2006, p.30-31).”

No final da aplaudida palestra, Maria Inês faz uma exortação: “Apoiemos (...) a luta da mulher pelo reconhecimento de seus direitos, pela igualdade do ser humano e pelo fim da discriminação.”

PS: Falha nossa. Os percussionistas que atuaram no belo espetáculo “JK: o reencontro com o Brasil” (DC, edição de 5.6.18, terça-feira), foram Leandrinho Vieira e Chrys Galante.

*  Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

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