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Negócios

14/09/2017

Agricultura digital: solução para alimentar um mundo que não para de crescer?

A inovação digital pode mudar a agricultura, mas apenas se a confiança for construída por meio de um senso comum de propósito. Você acredita que nós estamos prontos?
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Até 2050, estima-se que a população mundial aumente em quase 40%, chegando a um total de 9,6 bilhões de pessoas. Para conseguir alimentar essa população, que cresce rapidamente, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) prevê que a indústria agrícola vai precisar produzir uma quantidade de comida 70% maior — porém o solo adequado e disponível para o cultivo será apenas 5% maior que o atual. Isso significa ter, a mais por ano, aproximadamente, 1 bilhão de toneladas de trigo, arroz e outros cereais, e 200 milhões de toneladas de gado; tudo sendo produzido, praticamente, no mesmo tamanho de terra.

Isso, aliado às crescentes pressões normativas e ambientais, representa um tremendo desafio para a indústria agrícola global. Uma vez que a maioria da terra apropriada para o cultivo já é usada pelos produtores rurais, esse crescimento deve resultar de rendimentos agrícolas maiores que os níveis atuais.

A revolução digital na agricultura pode ser a solução para o problema de alimentar o mundo de forma sustentável.

Capítulo 01 – A próxima revolução agrícola


A agricultura passou por uma série de revoluções, que trouxeram produtividade, rendimento agrícola e lucratividade a níveis até então inatingíveis. Isso incluiu a introdução e a implantação de uma mecanização no campo entre 1900 e 1930; a revolução verde da década de 60 que presenciou o desenvolvimento de novas variedades de culturas mais resistentes, e o uso de produtos químicos agrícolas; além do aumento de manipulação genética entre 1990 a 2005.

No entanto, o aumento da agricultura digital poderia representar a mais transformadora e disruptiva de todas elas. A agricultura digital não vai apenas mudar a forma como os agricultores realizem seu trabalho, mas também vai fundamentalmente transformar cada parte da cadeia de valor do agronegócio.

Com os motores de combustão interna, vieram os primeiros tratores modernos no começo dos anos 1900; logo em seguida, o desenvolvimento de ceifeiras motorizadas e colheitadeiras.

A revolução verde da década de 60 aumentou o rendimento agrícola nos países em desenvolvimento, introduzindo variedades de cereais de maior rendimento, especialmente trigo e arroz, juntamente com novos fertilizantes e outros produtos químicos, além de novas técnicas de irrigação.

A engenharia genética significava que os cientistas poderiam desenvolver culturas resistentes a certas pragas, doenças ou condições ambientais. Nos Estados Unidos, até 2014, 94% da soja, 96% do algodão e 93% do milho sofreram algum tipo de modificação genética.

A revolução agrícola dos últimos tempos permitiu que os agricultores usassem dados para analisar cada parte do processo de produção rural, aumentando de forma ágil o rendimento agrícola e a produtividade, além de reduzir custos.
Os dados, as tecnologias e o campo

Um dos elementos fundamentais da agricultura digital é a agricultura de precisão (AP).

Por muito tempo, os agricultores cultivaram suas safras na base da “tentativa e erro”, fazendo com que adquirissem um conhecimento básico sobre as condições climáticas e de solo.

A introdução da agricultura de precisão permitiu aos agricultores um gerenciamento de informações, baseado na variabilidade do solo e do clima, levando a um aumento significativo de produtividade e também à redução de custos.

Uma série de novas tecnologias foram introduzidas para analisar melhor tanto a acidez do solo quanto o seu nível de nutrientes, assim como o rendimento das safras ao longo do tempo e as variações climáticas do campo. Desde tratores com GPS, drones com sensores multiespectrais até equipamentos conectados entre si pela Internet das Coisas (IoT) monitorando safras individuais; os produtores agora têm acesso a uma enorme quantidade de informações que ajudam na tomada de decisões com um maior embasamento.

A indústria agrícola tem começado também a aproveitar o poder que o Big Data pode trazer à operação de uma fazenda. A criação de softwares e algoritmos permite a geração de dados que podem ser usados pelo agricultor de forma estratégica na gestão de sua propriedade, ajudando-o a aumentar o rendimento agrícola, a lucratividade e a sustentabilidade no campo.

E os investidores estão de olho nisso. De acordo com a AgFunder, mais de US$ 4,6 bilhões foram investidos em tecnologia agrícola no ano de 2015. Grande parte desse investimento foi em softwares e tecnologias, maximizando a agricultura digital – uma combinação de dados e algoritmos sobre cada metro quadrado de uma propriedade rural.

Capítulo 02 – Transformando a cadeia de valor do agronegócio

Mas a agricultura digital não se resume à agricultura de precisão — a revolução digital está mudando toda a cadeia de valor do agronegócio, desde o trabalho na plantação, mensurando a demanda e a distribuição, até a experiência do cliente final.

“Existe uma grande oportunidade de reinventar vários outros processos, agora no mundo digital”, diz Rob Dongoski, Líder EY Global Agribusiness. “A nova era de agricultores é muito mais tecnológica, e alguns até são nativos digitais. Quando eles perguntam ao produtor de sementes em que lugar o seu pedido está, eles trazem um contexto de e-commerce por trás dessa questão e uma expectativa de que eles podem acompanhar as encomendas online”.

“Muitas das expectativas desta nova geração de agricultores vêm, na verdade, de experiências fora da agricultura”

Rob Dongoski, líder Global Agribusiness, EY


À medida que o mercado se torna cada vez mais digital, é inevitável que a disrupção continue — assim como acontece em quase todos os mercados em que as novas tecnologias trazem novas formas de pensamento e de trabalho.

A agricultura digital e o big data não só afetam o hábito de compra do agricultor, como também mudam a forma que os produtores de sementes e empresas de agroquímicos comercializam e estabelecem o preço de venda de produtos — são dados mais detalhados, permitindo um planejamento, uma entrega e um entendimento muito mais preciso das principais necessidades do cliente.

Uma visão mais detalhada sobre todos os processos operacionais dos produtores rurais vai também revolucionar como as empresas envolvidas com a agricultura e a produção alimentícia selecionam e investem o seu pipeline de P&D; fabricam e distribuem produtos; e fazem o gerenciamento de riscos de crédito e outros riscos financeiros.

E a revolução dos dados também pode ajudar a reduzir o desperdício de alimentos. De acordo com a FAO, cerca de um terço da comida produzida no mundo para o consumo humano anualmente — aproximadamente 1,3 bilhão de toneladas — é perdido ou desperdiçado. O aumento das prateleiras digitais e dos armazéns inteligentes significa que os distribuidores podem reagir melhor às mudanças quanto a demanda. Embora os novos sistemas de transporte inteligente, como os carros autônomos e os drones, ofereçam a chance de distribuir comida, saindo da fazenda até a mesa do cliente final, de uma forma muito mais dinâmica.

Em resumo, quanto mais dados gerados pela agricultura digital, mais os seguintes fatores mudam: as estratégias de negócios, o design de produto, as preferências de clientes e até mesmo as estruturas organizacionais.

Capítulo 03 – Problemas com as “modernidades”

Embora os benefícios da agricultura digital sejam atraentes, ela vai de encontro com desafios significativos. Por exemplo, dificuldades ao usar softwares; questões quanto ao uso de dados; formatos de dados de propriedade exclusiva e diferentes; e um retorno sobre o investimento não muito claro. Há também uma incerteza de quem vai ter acesso aos dados do agricultor e o que é possível fazer com isso. Os produtores rurais que são mais modernos têm a consciência de que os dados relativos à sua propriedade poderiam cair nas mãos erradas e serem usados contra eles mesmos.

Como resultado, o agronegócio tem lutado frequentemente para gerar resultados imediatos e tangíveis, vindos diretamente dos equipamentos e softwares de agricultura digital  – que, por sua vez, tem provocado um atraso para a aplicação de algumas dessas novas e promissoras tecnologias e técnicas.

Um dos maiores problemas tem sido a coleta e a padronização dos dados, o que dificultou a implantação por todos os stakeholders.

“O desafio é que os agricultores não confiam em ninguém que agora tenha acesso aos seus dados. Isso significa que pouquíssimos dados saem da fazenda e dos sensores e vão para aquelas pessoas que realmente seriam capazes de gerar um impacto significativo se os tivessem em mãos”

Rob Dongoski, líder Global Agribusiness, EY

Dongoski define as expectativas comerciais que podem limitar o fornecimento de dados:

“Contaram aos agricultores que os seus dados realmente têm valor. Então, eles estão buscando ser pagos por isso. No entanto, os dados apenas têm valor se eles são usados da forma correta. Primeiro, por si só, os dados apenas têm valor para um agricultor individual. Uma agregação de dados confiável poderia gerar um valor muito maior em toda a cadeia de valor. Segundo, os dados não têm nenhum valor se eles não se convertem em um fim comercial. Você precisa ser capaz de transformar os dados brutos em informação útil que ajuda você a atingir seus objetivos”.
O déficit da confiança

“É uma questão de confiança, bem como uma falta de harmonização e padronização dos dados em si“, explica Dongoski. “O desafio é que os agricultores não confiam em ninguém que agora tenha acesso aos seus dados. Eles querem saber quais as vantagens que eles levam. Isso significa que pouquíssimos dados saem da fazenda e dos sensores e vão para aquelas pessoas que realmente seriam capazes de gerar um impacto significativo se os tivessem em mãos.”

Dongoski acredita que isso só vai mudar quando outras partes da cadeia de valor do agronegócio — como os produtores de sementes — arriscarem a “própria pele” e compartilharem tanto o risco quanto o lucro de colocar novos equipamentos agrícolas e digitais nas fazendas. Caso contrário, os produtores rurais vão continuar focando nos possíveis riscos de compartilhar dados sobre suas fazendas em vez das oportunidades. (Por exemplo, um agricultor pode suspeitar que se um produtor de semente afirma que poderia usar os dados do agricultor para ajudá-lo na tarefa de aumentar o seu rendimento, o produtor de sementes usaria isso como um motivo para aumentar o preço da semente no ano que vem).

Para acabar com a desconfiança que atualmente impede a coleta de dados e a harmonização na escala exigida, uma opção que tem sido discutida no mercado é a criação de um agregador neutro de compartilhamento de dados: um possível terceiro que poderia juntar todos os dados vindos de cada fazenda individual, como forma de beneficiar todos os lados.

Independente de ter uma proteção contra terceiros ou não, Dongoski argumenta que ainda há uma necessidade de criar algum tipo de garantia para os agricultores de que seus dados estão sendo usados corretamente e de que não vão ser usados para melhorar relações comerciais a nível individual. Um agregador de compartilhamento de dados também ajudaria a abordar as questões de sustentabilidade e segurança alimentar que levam mais tempo para resolver.

“Se os dados forem aproveitados a nível individual, então é duvidoso dizer que haverá produção de comida suficiente para enfrentar esse desafio“, diz Dongoski. “Se unirmos forças como um mercado para resolver as preocupações quanto ao uso dos dados por terceiros, não só vamos produzir mais comida para alimentar mais pessoas, como também teremos mais agricultores lucrativos e mais práticas agrícolas sustentáveis”.
Capítulo 04 – Por um mundo melhor, com a agricultura digital

Essas são algumas barreiras que a indústria agrícola terá que vencer pelos próximos dois anos, mas os benefícios que a agricultura digital traz superam as desvantagens. As vantagens apresentam grandes oportunidades a todos os grupos de stakeholders agrícolas, gerando uma cadeia de valor agrícola mais dinâmica, mais produtiva e mais econômica.

E essas melhorias na performance do negócio agrícola também representam uma oportunidade nunca vista de alimentar o mundo de forma sustentável.

A lacuna que existe entre a agricultura moderna, mais avançada, e a agricultura de subsistência cresce a uma taxa alarmante. Embora o custo para implantar as tecnologias da agricultura de precisão no mundo desenvolvido tenha caído bastante, a fraca infraestrutura de rede e o limitado capital de economias emergentes significam que eles ainda têm um longo caminho pela frente para conseguir se beneficiar da revolução digital na agricultura. Mas isso também significa que eles têm muito a ganhar.

Com a demanda alimentícia aumentando — e os desafios que afetam os agricultores mais pobres do mundo também não param de crescer em vista da ameaça de mudanças climáticas –, disseminar os benefícios da agricultura digital não é apenas uma necessidade urgente, mas sim, bom senso.

“A agricultura de subsistência emprega um número enorme de produtores rurais no mundo. Em alguns países, cerca de 50% da população trabalha na agricultura. Então, se você pode aumentar a produtividade no campo, logo você começa a criar um agricultor que está sempre buscando o lucro. Isso permite a eles não apenas alimentar a sua família, mas que eles tenham um lucro também. Se pudermos ajudá-los a ter um melhor rendimento agrícola, fazendo com que as pessoas sejam mais produtivas no plantio, podemos dar a eles uma libertação econômica”, diz Dongoski.

Se cada agricultor de subsistência fosse mais produtivo, haveria mais comida, capaz de alimentar mais pessoas, assim como mais dinheiro entrando em circulação a nível local à medida que os produtores rurais vendem o excedente produzido. Uma produtividade maior também pode levar a um aumento do tempo de lazer (ou seja, o tempo fora do campo), que pode ser usado para a educação e qualificação profissional — assim possibilitando à próxima geração um maior acesso ao trabalho.

Métodos agrícolas mais produtivos também devem levar à uma diminuição de preços. Dongoski explica: “Nos Estados Unidos, menos de 10% da renda familiar é gasto com alimentação, restando 90% para outros produtos, serviços, etc. Em alguns países em desenvolvimento, 90% da renda familiar é gasta com comida, restando muito pouco para despesas relacionadas à moradia ou outros bens e serviços. Ter fornecedores de comida mais ‘ricos’ não está relacionado apenas à nutrição, tem um potencial para ser um enorme libertador econômico em mercados em desenvolvimento”.

Por fim, o aumento da produtividade agrícola nos mercados emergentes traz benefícios para toda a população empregada. Mais sustentáveis, fazendas produtivas levam a economias que também usam os recursos naturais de forma inteligente, além de ficarem mais produtivas e mais inclusivas.

Então, a agricultura digital é a solução para alimentar um mundo que não para de crescer?

Tem todo o potencial para isso. A revolução dos dados pode mudar não só a forma de cultivar, mas também todo a supply chain agrícola. Mas isso não vai trazer uma verdadeira revolução sem harmonização, uma padronização e – acima de tudo – confiança.

Isso só pode acontecer se pudermos encontrar uma maneira de criar confiança em cada parte da cadeia de valor do agronegócio e unir a indústria em prol de um propósito que vá além do lucro – uma transformação que seja capaz de alimentar o mundo.

A primeira revolução agrícola, aproximadamente 10000 a.C., permitiu a consolidação da humanidade, levando à formação das primeiras sociedades e civilizações. Essa última revolução digital na agricultura pode ajudar essas sociedades a sobreviver e a prosperar por muito tempo no futuro.

Estão abertas as inscrições para o Scale-Up Endeavor Agrotech, o programa de aceleração que apoia empreendedores que atuam no setor do agronegócio, com aplicações para o campo ou soluções para a cadeia logística. Você tem um negócio assim? Conheça o programa!

Texto originalmente publicado no site da Endeavor Brasil*

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