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Opinião

12/06/2018

Caixa de Pandora

Carlos Perktold*
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A humanidade vivia tranquila, abrigada de doenças, cansaço e outras desgraças quando a bela e jovem Pandora, cheia de artimanhas, imprudência, astúcia, ardis, fingimento e cinismo, foi enviada pelos deuses para o casamento de Emiteu. Ela era portadora de um jarro, presente de casamento deles para o noivo. A recomendação expressa era de que ela não poderia abrir a tampa do jarro. Mulher linda, cheia de malícia e expelindo curiosidade pelos poros, não resistiu e abriu o jarro antes de entregá-lo. Dele, saíram as calamidades que nos assolam até hoje. Mas Pandora foi rápida ao perceber o que fizera e fechou o jarro a tempo de prender “a esperança” com a qual vivemos até hoje.

O Brasil nunca foi um mar de tranquilidade e há muito os deuses da mitologia parecem ter se esquecido de nós. Exceto a representante deles, Pandora, que não perde a oportunidade de nos expor a esperança, aquilo que restou de sua infeliz curiosidade. Nos anos recentes, ela foi representada por Collor, o caçador de marajás e de poupanças. Depois veio FHC, alguém que minha geração sempre achou que salvaria o País por que ele era sociólogo e sua mulher antropóloga. O casal era perfeito para qualquer receita política. Ele ficou no poder oito anos e fez o que pôde, consertando a tragédia deixada pelo infeliz e hoje milionário e velho Sarney.

Depois dele veio o representante máximo do conteúdo salvo da Caixa de Pandora, aquele que “não rouba e não deixaria ninguém roubar”. Alguém que era de minha geração, que sempre acreditou na conversa fiada de que o Brasil, “era o país de futuro”, invenção de Stefan Zweig, texto e título de livro que foi uma troca entre ele e Getúlio Vargas para que o infeliz e brilhante austríaco permanecesse no Brasil. E que, com ele, o Messias do PT, o futuro chegaria. De onde estava, Pandora riu por treze anos.

Estamos agora enfrentando novo desafio de uma eleição cujos candidatos à Presidência são de uma tristeza política capaz de deixar a bela jovem chorando, achando que teria sido melhor deixar a esperança ter escapado neste país de Machado de Assis. É possível que o radical candidato da direita chegue ao segundo turno e até ganhe as eleições, se considerarmos a virada mundial para essa direção nas últimas eleições nos grandes países.

A esquerda, perdida e perplexa diante das denúncias de corrupção nunca antes realizada no Brasil com tanto vigor e disposição, se divide em torno de vários candidatos, todos com poucas chances de alta votação. Isso significa que o próximo presidente, de direita ou de esquerda, terá pouca representatividade popular e baixa audiência no Congresso Nacional. Significa ainda que ele terá que ceder a seus desejos e caprichos a favor de vários clãs e oligarquias que voltarão à Câmara e ao Senado. Ou alguém ainda duvida da eleição dos Alves, Renans e Liras no Nordeste, Dilma e Aécio em Minas, Sarneys no Maranhão, Barbalhos no Pará, Cunhas no Rio e outros destruidores pelo Brasil afora?

Emiteu, em grego, quer dizer aquele que vê depois, e Prometeu, aquele que vê antes. Não precisamos de candidatos Emiteu cheios de promessas, travestidos de Pandora e profetas do passado, mas de um único Prometeu.

* Psicanalista e escritor

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