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FAEMG

14/12/2017

Conhecimento e integração são caminhos para a superação dos desafios

ENTREVISTA | Robertos Simões, presidente do Sistema Faemg
Michelle Valverde
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Mesmo com todos os gargalos, a agropecuária de Minas Gerais continua em evolução. Os aportes em tecnologias e projetos inovadores, como o Novo Agro 4.0, que estimulará startups e os jovens a buscarem soluções para os problemas enfrentados na agricultura e pecuária vão marcar a nova era do setor, a Agropecuária 4.0, que ganhará força em 2018. Os constantes investimentos em capacitações e formação de novos líderes também serão fundamentais para a evolução sustentável do setor.

Porém, os desafios são inúmeros. O setor, que até então conseguiu manter o ritmo de crescimento mesmo em um cenário de crise, em 2017 foi afetado pelo baixo desempenho da economia nacional e, após anos, o agronegócio de Minas Gerais apresentará queda no Valor Bruto da Agropecuária e no Produto Interno Bruto (PIB), resultado da retração dos preços e da demanda pelos alimentos.

Para 2018, o presidente do Sistema Faemg, Roberto Simões, avalia que, apesar dos desafios, a entidade segue com “intenções fortes de continuar trabalhando e acreditando que a economia vai se recuperar”.

Entre os desafios, destaca-se a nova lei trabalhista, que tornou voluntária a contribuição sindical, antes obrigatória. Com o receio de queda na arrecadação e comprometimento dos sindicatos, o que poderá enfraquecer a representatividade do setor junto aos governos, o Sistema Faemg deverá passar por reformulações que tornarão o sistema ainda mais prestador de serviços e diversificado.


Como foi 2017 para a agropecuária de Minas Gerais? A crise econômica realmente chegou ao setor?

Do ponto de vista do setor, em 2017 ainda conseguimos ter um ano com alguns resultados importantes, como o recorde na produção de grãos, fator extremamente interessante. Agora, o que nós sentimos é que chegou, finalmente, no nosso segmento, a crise econômica. Ao longo do ano, registramos preços baixos na maioria dos produtos, tanto pelo aumento da oferta como pela retração no consumo da população, extremamente afetado por esta situação toda. Isso resultou na queda do Produto Interno Bruto (PIB) e do Valor Bruto da Produção (VBP). Chegou o efeito negativo da crise.
 
Quais outros fatores afetaram de forma negativa os resultados da agropecuária?

Em 2017 também tivemos problemas específicos, como no setor das carnes, com a Operação Carne Fraca e Operação Carne Fria e as delações envolvendo o Grupo JBS, o maior frigorífico do País. Tudo isso impactou o nosso setor, retraindo os preços. Mas as previsões para o ano que vem são de crescimento importante nas exportações das carnes, com a abertura de novos mercados, principalmente para o Oriente Médio.

 No café tivemos uma safra menor, em decorrência da bienalidade negativa e do clima, mas continuamos contrariando as regras econômicas. Em 2016, tivemos uma safra alta e preços altos. Em 2017 tivemos uma safra baixa e preços baixos. Parece que nossos políticos são tão eficientes que revogaram a lei da oferta e da procura. Surpreendente esta situação.
 
Mesmo com todos os gargalos, a demanda pelo crédito rural está maior, principalmente na linha de investimentos, que apresentou elevação de 50% frente a safra passada. Os recursos disponibilizados pelo governo federal têm atendido à demanda do setor?


O produtor rural é sempre otimista, acredita muito nas coisas. É uma profissão que ele não quer deixar. Quanto à questão do crédito, já temos uma leitura de que o Estado não consegue acompanhar as demandas. Então, é preciso ter evolução de estudos de fontes alternativas e razoáveis para financiar uma agricultura deste tamanho. Ainda enfrentamos o problema de seguro que, até então, nada de animador aconteceu. A gente precisa seriamente pensar em um programa mais robusto de seguro.
 
Com a mudança nas leis trabalhistas, a contribuição sindical deixou de ser obrigatória. Quais são os planos para superar uma possível queda na arrecadação?

Encaramos 2018 como um ano de profundas mudanças na nossa estrutura, principalmente se considerarmos a suspensão da obrigatoriedade da contribuição sindical. Vamos continuar cobrando, mas estamos pensando em outros modelos, em desenvolver uma nova maneira de ver nossa estrutura, que ela seja mais prestadora de serviço, que estude novas formas de rendimentos financeiros para poder se manter. Vai ser um período de grandes turbulências. Romper algo que durou 66 anos, de um dia para o outro, mudar a forma de ser, logicamente, será um período de transição com turbulências. Mas vamos criar um sistema novo, mais ativo, com mais participação.
 
Quais ações podem ser implantadas para gerar receita?

Já começamos a desenvolver alguns motes de trabalho e a grande ideia é usar o patrimônio enorme que temos, em termos de associados, e outros tantos passíveis a se tornarem associados. Vamos tentar mobilizar mais, atrair mais, para com eles gerar produtos novos, satisfazendo a necessidade dos associados, e também vamos nos permitir aferir algum tipo de renda para nossa manutenção. Também vamos trabalhar questões de seguro, de toda natureza, planos de saúde, cartão corporativo, entre outros.
 
Uma possível queda na receita, em função da contribuição sindical voluntária, pode provocar o comprometimento das estruturas sindicais e enfraquecer a representatividade do setor?


Já aprendemos com o tempo que apesar de existir críticas momentâneas de atuação, não existe nenhum outro mecanismo, no Brasil, que tenha o poder de representação que tem essa cadeia oficial que é composta pelos sindicatos, pela federação e pela confederação atuando junto aos governos. Eu acho que o segmento sem representação oficial desta ordem, deste tamanho e deste alcance, certamente ficará à deriva com um número imenso de entidades tentando representar, parceladamente, cada setor e, isso, não chegará sozinho a algum termo.
 
As convenções coletivas e a intervenção junto aos governos em casos de crises no setor produtivo poderão ser prejudicadas?

O trabalhador está procurando formas de se sustentar, estão lidando muito com questões das convenções coletivas que precisam ser feitas. Com quem irão fazer as convenções? Se não houver as contrapartes, que somos nós, não terá como fazer. Eles vão precisar disso e, logicamente, nós seremos úteis dentro desse projeto de gerar convenções razoáveis para todas as partes. Outro ponto é a participação das entidades em momentos de crises, como de seca, de problemas climáticos, de decretação de calamidade e no desenvolvimento de projetos, como fizemos com a agricultura do semiárido. Se não houver um sistema desse tamanho e dessa representatividade e que se relaciona bem com o Congresso Nacional, através da Frente Parlamentar da Agricultura, acho que muito pouco sucesso o setor teria nas suas postulações e necessidades. Acredito que todos vão sentir a necessidade do sistema e que ele seja, cada vez mais, eficiente e moderno. Agora, cabe aí ver como será a reação no primeiro momento. Provavelmente poucos voluntários existirão, mas acho que acabará tendo adesão porque todos vão entender que sem o sistema não é possível funcionar.
 
Alguma mudança na legislação trabalhista foi positiva para a agropecuária?

Muitas questões antigas foram resolvidas com a reforma da legislação trabalhista. Agora, a gente precisa estar sempre vigilante porque sempre há tentativa de estabelecer outros normativos que, praticamente, inviabilizam aquilo que foi conseguido. Acreditamos que a sociedade já está mais madura em relação às mudanças, que são muito importantes para o desenvolvimento do setor e crescimento do emprego. Dentre as mudanças, a terceirização é um fato importante para o setor. Não há como cada pessoa comprar seu maquinário. Você monta uma empresa, terceiriza e presta serviços para todo mundo com mais eficiência e baixo custo. Outras mudanças positivas foram o trabalho intermitente e a responsabilização, um pouco mais séria, do denunciante, o que confere seriedade ao processo, que era muito livre e fácil. Esperamos que, complementarmente, outras reformas sejam feitas, principalmente da Previdência Social. Estas mudanças podem garantir um cenário econômico mais estável para que possamos retomar o crescimento.
 
O Sistema Faemg lançou, em novembro, o Programa NovoAgro 4.0. Será uma nova revolução na produção agropecuária?


Estamos entrando em uma nova era e nesse ambiente queremos atrair mais a juventude. Já estamos com um programa de sucesso no Senar, que é o da sucessão nas famílias, e agora, com a oportunidade de trabalharmos com as startups agritec, que são da nossa área. Nosso objetivo é expor para estes jovens os nossos problemas, que eles conheçam melhor nosso setor e, com inteligência e criatividade, possam imaginar e desenvolver algumas soluções para resolver parte destes problemas.
 
Como será desenvolvido o trabalho com as startups?


Nós estamos com vários parceiros, inclusive a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que já tem um programa que atua junto a estas empresas e vem com metodologia desenvolvida e testada para criar alguns projetos na nossa área. É o período da agricultura 4.0, que é a informatização e a entrada do setor nos processos mais modernos de tráfego de dados, gestão e outros.
 
A violência no campo tem aumentado substancialmente nos últimos anos. Como a Faemg tem contribuído para resolver a questão?

Estamos com um projeto que vem evoluindo bem. Foi feito um diagnóstico estadual e chegamos a algumas conclusões, como, por exemplo, a necessidade de orientar os nossos produtores para pensarem, permanentemente, na segurança e dificultar a ação. Criamos, junto com uma consultoria, uma cartilha exatamente de conscientização e práticas desejáveis para evitar os fatos. Também executamos projetos-piloto em algumas áreas do Estado e estamos acompanhando. A ideia é difundir para outras regiões programas como fazendas protegidas e intercomunicação entre as pessoas.  Na verdade é uma colaboração com as forças que oficialmente têm a obrigação de fazer a segurança. Agora, depende do Estado, das políticas, das forças oficiais nos ajudarem no que precisa ser feito.

Frente a tantos desafios, como ficam os planos do Sistema Faemg para 2018 em relação aos eventos e capacitações?

Pretendemos continuar com aquilo que já é de prática e desenvolvido com sucesso. Claro que tudo depende da situação e de como vamos superar a falta de recursos. Mas já estamos pensando na Semana Internacional do Café (SIC) e em eventos de promoção para os queijos, azeites, vinhos e cachaça. Devemos ter a medalha de honra ao mérito e as exposições. Inclusive estamos em momento de definição junto ao governo do Estado sobre quais serão e como serão realizadas. Teremos ainda os formidáveis treinamentos, via Senar, com mais de 250 mil pessoas atingidas ao ano. Estamos programando novos cursos de acordo com as mudanças que a agricultura sofre. Vamos continuar investindo nos treinamentos dos novos presidentes de sindicatos, dos presidentes já em mandato, dos executivos sindicais e com cursos de formação de novas lideranças. Todos estes cursos serão mantidos e com tendência de expansão. No próximo ano, pretendemos, através do Senar, ingressar no ensino a distância e um acoplamento com a Faculdade CNA.
 
Como será 2018?

Será um ano de muitas realizações e projetos. Não estamos cortando atividades, pelo contrário, estamos tentando crescer. Vai ser um ano desafiador, mas com intenções fortes de continuar trabalhando e acreditando que a economia vai se recuperar e vamos seguir a rota que o País precisa seguir.

ESPECIAL FAEMG


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