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Opinião

16/03/2017

Editorial

Sem espaços para inocentes
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A promiscuidade entre o público e o privado no Brasil – e não apenas no Brasil, é claro – não é coisa nova, assim como não são originais movimentos que fazem da moralidade e da ética na esfera pública apenas uma escada. Não faltam relatos a respeito, ainda que no presente, patrocinados pelas delações premiadas, chamem mais atenção, colocando a prêmio cabeças que nunca se imaginaram nessa situação. É nesse contexto e por razões que não escapam ao observador mediano que ganham intensidade as discussões sobre a natureza de doações em campanhas políticas que, no entendimento de um magistrado, poderiam ser classificadas em pelo menos quatro categorias.

Haveriam as doações plenamente legais, as que ele classifica como “legais entre aspas” porque oriundas de propinas, as irregulares ou informais, e as definitivamente ilegais, porque combinadas com a corrupção. Uma ginástica para forçar a ideia de que existiriam gradações que, se de fato consideradas nas circunstâncias que se apresentam, salvaria a pele de dezenas, mais provavelmente centenas, de políticos.

Nada disso evidentemente considera a promiscuidade apontada no início desse comentário. Dia desses, em depoimento, ex-diretor de um dos maiores grupos empresariais do País disse que sua organização financiava campanhas políticas de maneira “democrática”, alcançando os principais partidos políticos, independentemente de ideologias e, quase singelamente, admitindo que o objetivo era ficar bem com todo mundo. Por “ficar bem”, entenda-se, ter acesso e simpatias em qualquer governo, assegurando portas abertas sobretudo na hora de discutir contratos e verbas. É assim que funciona, este é o princípio a partir do qual as portas da corrupção são escancaradas. A rigor, sem nenhum ingrediente que seja verdadeiramente novo ou original.

Eis porque não faz o menor sentido que se pretenda, a sério, discutir anistia, estabelecendo distinção entre políticos que receberam doações “informais” e aqueles financiados pela corrupção. É evidente que, em qualquer situação, tanto o doador quanto o destinatário estavam envolvidos numa transação, num jogo de interesses bastante explícito, com os políticos assinando promissórias que inexoravelmente seriam cobradas – e pagas – no futuro. De um lado o lucro farto e fácil, de outro a certeza da impunidade. Tudo isso sem que também tenham vindo à luz, a qualquer tempo, casos de doações pautadas por razões de natureza ideológica.

As relações, de um lado e de outro, sempre foram absolutamente pragmáticas e ao que se pode deduzir continuam produzindo bons resultados para os envolvidos, independentemente dos danos colaterais causados ao País e sua população. Esta é, sem ilusões ou deturpações, a verdadeira natureza do problema que ainda não foi superado.

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