Publicidade

Opinião

17/03/2017

Editorial

Desrespeito em silêncio
Email
A-   A+
A corrupção parece ser, na atualidade, a marca mais forte associada à política e à administração pública no País. Os casos que estão em pauta e ocupam grandes espaços no noticiário, bem como os movimentos observados na cena política sugerem mais que desprezo à ética e às boas práticas. Algo como uma espécie de alheamento, como se os políticos estivessem em uma outra órbita, acima do bem e do mal, num mundo à parte que os cidadãos comuns evidentemente não alcançam.

Uma indiferença que se manifesta de outras formas, com abusos constantes e igualmente revoltantes. Nesta esfera deve ser colocado o anúncio recente de que os consumidores de energia elétrica no País pagaram indevidamente ao longo de 2016 pelo menos R$ 1,8 bilhão, valor que representaria o custo de geração da usina de Angra 3, que não entrou em operação. Um erro que até agora ninguém, entre os responsáveis pelo setor, evidentemente, havia percebido e diante do qual, como se não se dessem conta do vexame e de incompetência, não houve sequer um pedido de desculpas. Apenas o anúncio, como se não houvessem contas a prestar, de que será feita compensação nas contas futuras, a partir do reajuste de cada distribuidora.

Este é apenas um caso entre outros que poderiam ser lembrados, como vários recolhimentos compulsórios que jamais foram devolvidos. Ou, de forma ainda mais gritante, a tabela de correção do Imposto de Renda Pessoa Física que, no período contado a partir de 1986, apresenta defasagem de 83,12%. Na prática isso significa que a faixa de isenção deveria estar em R$ 3.460,50 e não nos R$ 1.903,98. Mais uma vez ninguém em Brasília se acha na obrigação de explicar ou pedir desculpas. Mesmo sabendo que um contribuinte com renda mensal de R$ 4 mil está pagando 54% a mais do que deveria e quem contribui sobre R$ 10 mil pagará 62% a maior. E tudo isso porque, conforme esclarece o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal, no período contado a partir de 1986 a inflação acumulada foi de 283,87%, mais que o dobro da correção determinada pelo governo federal, que ficou nos 109,63%.

Tudo parece normal, tudo parece aceitável como se os políticos e burocratas que habitam Brasília estivessem acima do bem e do mal, representando um Estado que tudo pode enquanto à população não restasse mais que aceitar e se conformar. Esta situação de extrema apatia e passividade, de falta de reação que sob nenhum aspecto faz sentido, talvez ajude a explicar a sucessão de abusos que se dão em outros planos, sendo a corrupção um deles e o sentimento de impunidade a aparente garantia de que não é preciso mudar simplesmente porque não há reação.

Publicidade

Aproveite! Assine o DC e tenha notícias exclusivas

Leia também

25/03/2017
Editorial
Roubo de cargas virou epidemia
25/03/2017
Corrupção e omissão
O ranço de repetirmos nossos pais, para o bem ou para o mal, é atávico e inexorável. No macrocosmo do País, inconscientemente, colocamos o seu comandante no lugar...
25/03/2017
Um relato atordoante
"Eu tenho pena de deixar-te nua, na presença de todos." (Um dos torturadores de Madre Maurina) A espantosa tragédia vivida por Madre Maurina Borges da Silveira...
25/03/2017
Operação Carne Fraca
“Quanto menos as pessoas souberem como são feitas as leis e as salsichas melhor elas dormirão” (Otto Von Bismarck -1815-1898). Esta frase famosa de Bismarck...
24/03/2017
Editorial
Velhos problemas e velhas soluções
 
© Diário do Comércio. Todos os direitos reservados. Política de Privacidade. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.