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Opinião

21/03/2017

Editorial

Conversão de última hora
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Os vícios do sistema político são de longa data conhecidos e, diante da realidade que se apresenta, são igualmente antigas as manifestações em defesa da reforma política, envolvendo partidos e sua organização, financiamento de campanhas e de votação. São discussões que, para não recuar ainda mais no tempo, remetem à redemocratização do País, com o fim do regime militar em1985. Desde então decisões cruciais vêm sendo postergadas, adubando o terreno em que os conceitos mais essenciais da política e da vida pública foram sendo subvertidos. Uma realidade da qual a expressão mais atual são as listas que o procurador-geral da República encaminhou ao Supremo Tribunal Federal pedindo abertura de inquéritos contra 83 políticos detentores de mandatos, além de outros 211 sem prerrogativa de foro.

O Brasil, e especialmente Brasília, viveu nas últimas semanas, diante da expectativa da divulgação dos nomes contidos nas listas, sob clima de grave apreensão. Nos gabinetes oficiais, dizem, não foi diferente, embora não tenham faltado declarações de inocência, defesa do andamento das investigações e punição de quem for culpado. Tudo mera formalidade, sem conteúdo e propósito, enquanto nos bastidores continuaram prosperando as mais variadas manobras visando apagar as consequências práticas dos processos em andamento, numa espécie de anistia que só não será ampla e irrestrita se a reação da sociedade for ainda mais forte.

E o presidente da República, que diz não carregar qualquer culpa, mas tem na sua conta cinco ministros entre os apontados pelo procurador-geral, reconhecendo “o mau desenvolvimento do sistema político-eleitoral no País”, convoca a seu gabinete os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, juntamente com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para apontar-lhes “a necessidade e a urgência” de reformas. Amanhã (22), o grupo voltará a se encontrar na busca de mudanças “que levem a uma melhoria expressiva na representação política nacional”. Trata-se, segundo eles, de buscar a racionalização do sistema político, redução dos custos das campanhas, fortalecimento institucional dos partidos, transparência e simplificação das regras eleitorais”.

Nada que já não tenha sido proposto, nada que possa soar mais surreal e extemporâneo, quando menos diante da constatação de que os presidentes da Câmara e do Senado figuram entre os alvos dos pedidos de inquérito. Com toda certeza faltou timing ao veterano parlamentar, hoje presidente da República, assim como não é possível descartar a possibilidade de que essa conversão tardia à causa da reforma política pode não passar de uma tentativa de blindagem antes que as listas de Janot produzam efeitos.

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