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21/11/2017
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Opinião

21/10/2017

Editorial

A miséria gera lucros
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O mais recente relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre a situação da economia global registra alguns avanços, tendo como base de comparação a crise financeira desencadeada em 2008. E chama atenção para o aumento da concentração da renda global, que aponta como um dos entraves a consolidação do processo de recuperação, num contexto de mais rápida expansão dos negócios em todo o mundo e a partir dos países periféricos. Trata-se, essencialmente, de dar concretude à ideia de que a prosperidade planetária só poderá ser construída através de melhorias nos países mais pobres, potencialmente os mercados através do qual a economia poderá se expandir.

Tais conceitos, discutidos com alguma intensidade nos momentos mais agudos da crise de 2008/2009, a rigor foram postos de lado e a constatação de que aumentou a concentração da renda comprova este fato. Existem, no entanto, outras medidas, mais trágicas e mais dolorosas e de uma delas nos fala a jornalista Adriana Carranca, em recente artigo publicado no jornal “O Globo”. Segundo ela, a indústria têxtil e de confecções na África entrou em colapso. Literalmente. No Quênia, a indústria têxtil ocupava meio milhão de pessoas há duas décadas, hoje ocupa apenas 20 mil.

Uma sentença de morte decretada pelo comércio de vestuário usado, um negócio de centenas de milhões de dólares ao ano, alimentado principalmente pelos Estados Unidos, mas com participação também de países europeus, Índia e Paquistão. Segundo dados das Nações Unidas, no ano de 2015 pelo menos 800 mil toneladas de roupas usadas foram doadas nos Estados Unidos e 80% desse total foram exportados para a África, através de intermediários nas duas pontas e gerando lucros significativos. Muito provavelmente um dos mais perversos sinais da desigualdade e da exploração.

Países africanos tentam reagir, buscando recuperar a indústria local, modernizando-a e tornando-a mais competitiva, inclusive com planos para banir a importação de roupas de segunda mão a partir de 2019. E já esbaram com quem lucra com sua miséria. Nos Estados Unidos, por exemplo, já surgiu um lobby para pressionar os países africanos e impedir restrições às importações. Argumentam que o setor gera pelo menos 40 mil empregos para americanos, entre coletores, separadores e empacotadores. E acrescentam que se não forem exportadas as roupas jogadas fora causariam um novo problema ambiental.

São dados verdadeiramente impressionantes e para além das imagens convencionais, largamente divulgadas, da miséria africana. Algo para fazer refletir, para induzir mudanças que hoje o próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) aponta como cruciais para o equilíbrio global.

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