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FAEMG

16/12/2016

ENTREVISTA | Gestão, inovação e qualidade garantem estabilidade em momentos de crise

Roberto Simões, o presidente da Faemg
Michelle Valverde
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Apesar das adversidades e incertezas, o presidente da Faemg considera positivo o desempenho do setor/Rafael Motta/Divulgação
Mesmo o Brasil enfrentando uma severa crise econômica, o que vem comprometendo o desempenho de vários setores, o agronegócio de Minas Gerais vem superando as dificuldades e apresentando resultados positivos em 2016.

O Produto Interno Bruto (PIB) do setor no Estado foi estimado em R$ 197,15 bilhões, o que representará um crescimento de 5,18% em relação a 2015. A diversidade de culturas, o aumento da produção e elevação de preços de importantes produtos justificam o desempenho positivo.

Para manter o agronegócio em crescimento, o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Roberto Simões, destaca que vários gargalos ainda precisam ser superados, como a infraestrutura precária, a alta tributação sobre o setor, a falta de recursos para o seguro safra e a burocracia, principalmente nas questões ambientais.

Para 2017, as expectativas ainda são cautelosas em função das incertezas econômicas e políticas. A tendência é que o produtor invista apenas no que for estritamente necessário. Para o próximo ano, também é esperada a criação do Fundo de Defesa Agropecuária, considerada a principal ferramenta para a segurança sanitária e abertura de novos mercados.


O agronegócio, frente à crise vivenciada no País em 2016, tem motivos para comemorar?

De modo geral, apesar de todas as dificuldades vividas em 2016, tanto políticas como econômicas, o agronegócio mineiro ainda conseguiu ter desempenho bastante razoável. Lógico que tivemos alguns problemas localizados. Mas chegamos a um final bastante razoável, com um crescimento de 5,18% do PIB, índice maior que o registrado no PIB do agronegócio nacional que cresceu apenas 3,43% no mesmo período. Cumprimos mais um ano, apesar de todos os problemas.

Como foi o desempenho das principais atividades do agronegócio mineiro em 2016?

Conseguimos terminar o ano com boas safras de importantes produtos como o café, que registrou recorde. Tivemos desempenhos positivos nas culturas da cana-de-açúcar, soja e de frutas. A safra de grãos ficou estabilizada. Ao longo do ano, tivemos uma queda inexplicável nos resultados dos suínos e frango, em um período de queda em bovinos, quando frango e suínos deveriam subir, mas foi uma queda ligeira e o quadro é de estabilidade. De modo geral, o setor funcionou bem.
 
Mesmo com o bom desempenho, o setor ainda enfrenta desafios. Quais são os principais gargalos da atividade?


Em 2016, prevaleceram os mesmos problemas como a segurança, que está complicadíssima no interior, aumentando cada vez mais os episódios e sem nenhuma expectativa de melhorias. O seguro rural é praticamente inexistente no País, dadas às dificuldades econômicas. Em Minas Gerais o subsídio é zero. Também convivemos com as inadequações tributárias, problemas de logística e infraestrutura. O fornecimento de energia no campo é outro desafio, já que as quedas são constantes  e os tempos de restabelecimento, muitas vezes, superiores às normas da Anatel. Por trabalharmos com produtos perecíveis, as perdas são grandes principalmente de proteínas, como as carnes e leite. Buscamos soluções junto às concessionárias, mas pouco foi resolvido. Há muitas demandas de obras em atraso e é necessário entender que o campo cresceu e a energia elétrica é fundamental para a produção.
 
Neste ano, que problemas foram registrados com a falta de chuvas?

Em determinadas regiões a estiagem fez com que 160 municípios mineiros decretassem situação de emergência. Ocorreu comprometimento da capacidade de pagamento dos produtores nos locais mais afetados. Para resolver a situação veio a Lei n° 13.340, que autoriza a liquidação e a renegociação de dívidas de crédito rural até setembro de 2017, contemplando produtores da área de abrangência da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e outras localidades no País.

A instabilidade econômica afetou a demanda pelo crédito rural?

Houve uma queda de 20% na demanda pelo crédito rural. Isto é reflexo da condição de endividamento dos produtores, que não têm mais formas de acessar o crédito e também em função dos altos juros, o que assusta o produtor. A gente tem problemas menores que outros setores, mas não somos uma ilha e também fomos afetados. A economia arrefeceu e o setor também. O Programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC), no qual Minas Gerais já foi líder, caiu também.
 
Os investimentos nas estruturas das unidades produtivas, em tecnologias e nas culturas também foram afetados pela crise econômica?


As pessoas estão retraídas devido ao momento de crise. Os investimentos, por parte do produtor, estão praticamente nulos. Existe um temor, o setor está aguardando melhores definições para poder planejar algum investimento. Por enquanto, é inseguro investir. O produtor rural precisa observar o mercado e investir somente no que for necessário, mantendo a cautela para próximo ano.
 
Qual a importância da criação do Fundo Estadual de Sanidade Animal (Fundesa)?

Queremos ter, pelo menos, uma igualdade de condições para, no futuro, nós termos comportamento semelhante a outros estados que já trabalham com o Fundo, como os da região Sul e Centro-Oeste do País. Outra vertente é que precisamos caminhar e conquistar o status de livre de aftosa sem vacinação. Pretendemos atingir outras zoonoses como a brucelose e tuberculose, o que é fundamental. Sem a criação do fundo podemos perder oportunidades de negociações internas e externas. Já foi determinado pelo Centro Pan-Americano de Febre Aftosa (Panaftosa) e pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE, em inglês) que, por volta de 2020, quem não tiver fundo desta natureza terá muitos problemas de mercado.
 
Quando o Fundesa deve ser aprovado?


O projeto de lei (PL) está na Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais (ALMG). Esperamos que logo no início de 2017 tenhamos a lei aprovada e a partir daí possamos fazer os acertos finais necessários da estrutura e da pessoa jurídica que vai abrigar o fundo. Estamos negociando com as indústrias e os produtores e já temos um consenso preliminar sobre valores. As assessorias adequadas da ALMG e do governo de Minas estão fazendo a redação final do PL, já que serão necessários alguns substitutivos, uma vez que o PL original saiu sem discussão com os interessados e causou muita turbulência no setor. O projeto reúne todo o setor agropecuário, do produtor rural até a indústria e existe disposição geral de fazer com o projeto se torne real.
 
A Faemg tem investido para que a produção do setor agropecuário seja feita de forma sustentável?

Partimos da premissa de que não mais é possível produzir sem pensar em preservar. Então, todos os nossos programas são focados, hoje em dia, na sustentabilidade. Todos os treinamentos do Senar e os da Faemg seguem a linha da sustentabilidade. Agora, a evolução depende também de uma adequação maior e da simplificação do sistema ambiental, que ainda tem sérios problemas.
 
Quais seriam estes problemas?

Além da burocracia que trava os processos, um dos últimos desencantos nossos foi o comportamento do ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, que liberou os dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR) que ainda precisam ser analisados internamente, para o mundo inteiro, para nossos concorrentes, de maneira absolutamente irresponsável. Fornecendo material com nomes de pessoas para ONGs e concorrentes internacionais. O que é proibido pela Constituição. A CNA, com apoio da Faemg, entrou na Justiça contra este ministro com ações de improbidade administrativa.
 
Como estão os projetos desenvolvidos pelo Senar Minas para a capacitação dos produtores rurais?


Estamos com a marcha bem firme, com planejamento muito adequado e ouvindo as bases. É uma entidade que tem capilaridade enorme, baseamos os projetos em levantamentos de dados com as entidades ligadas aos produtores, que são em torno de 380 em Minas. Com isso, nosso planejamento é firme e baseado na realidade. Em Minas Gerais, o Senar é uma das coisas mais auspiciosas que temos. As ações desenvolvidas crescem em torno de 10% ao ano. Em 2016, atendemos a mais de 200 mil pessoas e realizamos em torno de 13 mil eventos.
 
Quais são os principais cursos oferecidos pelo Senar?


Além dos cursos de formação profissional e promoção social, demos uma guinada e estamos muito focados na saúde e nos esportes. É uma nova visão para meio rural. Temos programas especiais como o Gestão com Qualidade em Campo (GQC), desenvolvido em parceria como os sindicatos, e que forma novas lideranças. Recentemente, começamos um projeto focado na sucessão rural, com treinamento de jovens no sentido de estimular a permanência no campo.
 
A sucessão familiar no campo é um dos principais problemas do setor em Minas Gerais. Como esse gargalo pode ser superado?

A sucessão é um problema mundial. As pessoas tendem a migrar para as cidades, onde se tem uma vida social melhor, mais conforto e apoio. Queremos mostrar que é possível ter acesso a estas condições também no campo. Estamos trabalhando com ações de saúde e esportes e buscamos formas para melhorar a vida no campo, utilizando novas técnicas para uma nova gestão. Queremos viabilizar a permanência do jovem no campo para termos processos de sucessão bem estruturados, o que não tem acontecido.
 
O governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, decretou calamidade financeira do Estado. Como o agronegócio mineiro pode ser afetado?

Sem dúvida nenhuma esta situação nos atinge, não somos uma ilha. Isto tudo significa incertezas, reduções de atividades, falta de investimento, desestímulo na sua essência. É lamentável que o Estado tenha chegado a uma situação desta natureza.
 
O ano de 2017 será mais favorável?


Sem o desenvolvimento das questões políticas e das medidas anticorrupção, ainda não conseguimos ter perspectiva favorável para 2017. O ano poderá ser absolutamente crítico, dependendo do desdobramento da Operação Lava Jato e de outras investigações. As instituições brasileiras sofreram um abalo tremendo com a falta de articulação dos poderes e as medidas estranhas. Por isso, há insegurança geral em relação a 2017. Será mais um ano de peleja.
 
Quais as expectativas para o agronegócio em 2017?


Mesmo com os desafios, continuamos investindo na safra. Sabemos que a safra de café será menor pela bienalidade negativa e a perspectiva é de uma safra maior de grãos. Por outro lado, o mundo está com estoques altos de commodities, principalmente de soja e milho, o que indica que não teremos grandes ascensões de preços, mas algo entre a estabilidade e quedas ligeiras de valores, inclusive das carnes. Em 2016, o aumento dos custos foi grande e diminuiu as margens de lucro. Mas em 2017, caso consolidada a previsão de safra maior e o arrefecimento dos preços dos grãos, a questão da ração animal será mais favorável. Mas ainda vai depender de clima e de como a produção vai se desenvolver.

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