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30/03/2017

Há espaço suficiente para hotel e Airbnb conviverem, diz diretor da empresa

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São Paulo - Para enfrentar um ambiente muitas vezes hostil, o Airbnb, uma das estrelas da nova economia compartilhada, foi atrás de um pugilista.

Boxeador amador e conhecido pela combatividade verbal, Chris Lehane, 49, é diretor global de Política Pública e Comunicação da plataforma on-line de aluguel de curto prazo fundada em 2008 e que reúne 160 milhões de usuários no mundo e é avaliada em US$ 30 bilhões.

É sua tarefa lidar com governantes locais indóceis e guiar a empresa em tempos de Donald Trump, um claro opositor para uma companhia que se define como um “movimento”. Além, é claro, de manejar a ira de sua nêmesis, o setor hoteleiro.

“Estamos construindo o carro, a estrada e as regras da estrada e algumas pessoas estão jogando pedras em nós, tudo ao mesmo tempo”, diz Lehane, que, quando viaja, nunca fica em hotéis (mas jura que não é por medo).

Ele foi recrutado do universo da consultoria política, em que era um gerenciador de crises. Começou na Casa Branca de Bill Clinton, onde presenciou escândalos como o de Monica Lewinsky. Na semana passada, esteve em São Paulo e no Rio, onde achou tempo para praticar boxe na praia do Leblon.

Como está o ambiente para a economia compartilhada na era Trump?
Temos uma visão do mundo baseada em uma sociedade aberta. Por isso, tivemos diferenças com a atual administração. Podemos encontrar um campo comum [com Trump] em termos de mensagem econômica, mas não no caso, por exemplo, do decreto de restrição à viagem [veto à entrada de cidadãos de seis países de maioria muçulmana]. Apesar de o Airbnb estar sediado em San Francisco, a maior parte do negócio está baseada fora dos EUA.
Temos aspectos únicos de sermos uma plataforma de rede, e, embora eu saiba que isso soe como uma frase do Vale do Silício, estamos em vários lugares. Temos perto de 100 mil “hosts” [proprietários de imóveis] aqui no Brasil, que é um dos cinco maiores mercados. Há uma conversa acontecendo neste momento no mundo entre uma visão de sociedade aberta e uma de sociedade fechada. Teremos muros ou não? Abraçamos a diversidade ou a divisão?

Muitos caracterizam o Airbnb como um movimento. O sr. gosta dessa definição? E, como um movimento, vocês têm uma agenda política?
Sim, nos sentimos um movimento, no sentido de que é uma plataforma de pessoas para pessoas. Não é um movimento político, mas temos princípios filosóficos, de diversidade, inclusão.

Em oposição a Trump?
Eu diria que em apoio a uma filosofia bem específica, e vamos nos manter firmes nisso, se houver conflito com alguém que esteja no poder. Especificamente nos EUA, nos manifestamos contra o decreto de imigração, dissemos que íamos abrigar 100 mil pessoas sem teto, incluindo refugiados.
Veiculamos uma propaganda no Super Bowl [final do futebol americano] sobre essa ideia de uma sociedade aberta. Estivemos entre os principais coautores em documentos legais contra os decretos. Marcamos posição em temas LGBT, de diversidade, inclusão racial. Quando nossos valores são desafiados, temos obrigação de defendê-los.

Vocês são acusados de forçar entrada em ambientes regulados sem conversar, perguntar, negociar. E a cidade, ou o administrador local, que lidem com isso. Aceitam essa crítica?
Isso aconteceu na história. Houve oposição quando carruagens foram substituídas por carros, quando lâmpadas a gás deram lugar a eletricidade. Quando há algo novo, tipicamente governos recorrem a velhas leis, os incumbentes resistem, você tem que educar as pessoas.
Temos tentado trabalhar com governos. Fizemos mais de 250 parcerias pelo mundo, incluindo as maiores cidades. Tivemos problemas em quatro ou cinco lugares: Barcelona, Berlim, Nova York, San Francisco.

Transformar áreas residenciais em comerciais traz custos: barulho, poluição, trânsito... Moradores reclamam de pessoas que vão e vêm, do aumento nos aluguéis...
Não somos perfeitos. Estamos construindo o carro, a estrada e as regras da estrada e algumas pessoas estão jogando pedras em nós, tudo ao mesmo tempo. Particularmente, os donos de hotéis. Temos visto uma tendência neste último ano, em que governos estão bifurcando o negócio de compartilhamento de lares em duas categorias.
Alguém que divide a casa em que vive é um caso: são chamados de amadores. E a segunda categoria é atividade comercial: aluguel para férias ou temporadas, em que as pessoas estão fazendo isso numa perspectiva de negócio. Temos visto governos criarem um processo regulatório de duas vias: os amadores têm regulação leve. E, na parte comercial, regulação mais pesada, com licenciamento.

Há espaço para vocês e hotéis?
Sim, sempre achamos que essas coisas podem coexistir. O mercado é grande o suficiente para todos, a economia do turismo não para de crescer. Há duas áreas em que impactamos hotéis: uma é no seu sistema de preços. Hotéis tipicamente têm a capacidade de modular a oferta. Na semana passada em San Francisco, o típico hotel de três estrelas custava US$ 690 por noite. E o Airbnb típico, US$ 162. E a segunda coisa são millenials [nascidos na década de 1980]. Somos a primeira opção de viagem para eles.

Ser associados a millenials e hipsters não reduz o apelo?
Se você olhar para onde o mundo está indo, nos próximos dez anos esses millenials serão a vasta maioria de consumidores. Se você tiver de fazer uma escolha, você obviamente quer estar do lado certo da história. Mas temos expandido além dessa base.

Quais os planos para o Brasil?
O Brasil tem potencial enorme para turismo e hoje tem desempenho inferior ao que poderia. Precisa pensar nos viajantes chineses, por exemplo, que serão mais numerosos do que todos os outros combinados nos próximos 10 anos. Aonde eles irão?

Vocês consideram fazer um IPO [oferta de ações]?
Vou tentar habilmente desviar dessa (risos). Há um tempo para tudo. Queremos neste momento fazer dessa uma companhia para mais de 100 anos. E as fundações têm de ser incrivelmente fortes.

Então não no curto prazo?
Pode interpretar assim.

O sr. trabalhou na Casa Branca durante o governo Clinton. Se estivesse lá, o que diria a Trump, que parece ser o pesadelo de qualquer consultor?
Sou de esquerda e fui um grande apoiador de Hillary Clinton. Falando apenas do processo, ele foi um candidato inovador, pela habilidade de se conectar e falar diretamente com os eleitores, usando a tecnologia. Trump tem sabido demonstrar que é autêntico. Você pode não gostar disso, nem do que ele fala, mas há um bônus por autenticidade no mundo hoje.
Trump está mudando as regras de como a política funciona. O presidente Franklin Roosevelt [1933-45] foi o primeiro a usar o rádio. Até aquele momento, as campanhas eram feitas em paradas de trem. E o rádio mudou a maneira como a política funcionava, depois veio a TV. Mas você perdeu o componente de varejo, de as pessoas realmente terem que passar tempo com eleitores. Isso está começando a voltar. Trump está fazendo um “De Volta para o Futuro”, usando a tecnologia. (FP)

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