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Negócios

17/03/2017

Mulheres e a busca por investimento: um tratamento justo

Unreasonable Institute |
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Além de provar o valor do seu negócio, a capacidade do time e o potencial de crescimento, as mulheres empreendedoras enfrentam outros desafios na busca por investimento. Entenda quais nesse relato.

Um contexto

Há pouco mais de um mês, eu passei por um término de namoro um tanto comum — foi amável, afetuoso e com mútua admiração e respeito — nós não nascemos um para o outro. Enquanto refletia com uma amiga — e ainda me acostumando a ficar solteira novamente — fiquei surpresa em me ouvir dizendo: “sabe uma coisa que realmente me alegra? Fico feliz quando uma pessoa me diz que sou linda”.

Embora seja um ser humano extraordinário, com inúmeros talentos, falar não era uma das características do meu ex, e “você é linda” não eram palavras que eu estava acostumada a ouvir. Também nem tinha percebido antes que essas palavras eram o que eu realmente queria ouvir.

Quando eu imaginava alguém me dizendo que sou linda, esperava que isso viesse de um crush ou de um cara apaixonado que me conhecesse muito bem, referindo-se à uma beleza que vai além da aparência física. Talvez isso pudesse acontecer em um café ao nascer do sol; durante uma conversa animada em um jantar; depois de uma longa caminhada; ou mesmo ficando desesperada e alegremente perdida entre as colinas; ou na metade de um grandioso percurso com obstáculos ou uma “caça ao tesouro” — mas independente do que eu queira dizer, não sou exigente…

Esteja atenta ao que você deseja

O que eu não imaginava é que a primeira vez que alguém me chamasse de linda, após o fim do meu namoro, fosse no começo de uma reunião profissional com um homem mais velho com quem eu me encontraria com o objetivo de financiar a minha empresa.

Empresas com liderança feminina têm um melhor desempenho do que organizações que não possuem mulheres no comando; e apenas 3% dos fundos de capital de risco vão para startups com poderio feminino.

Eu fundei a Resonate quando eu tinha 26 anos e passei os últimos 3 anos desenvolvendo lentamente a minha confiança durante este tipo de reunião com investidores em potencial. Demorou um tempo para me sentir bem confortável, para tentar uma aproximação com meu interlocutor ainda na primeira parte da reunião, e conseguir conhecer melhor quem era a pessoa que estava na minha frente, sem ensaiar nervosamente todos os pontos que vinham a minha mente enquanto, na verdade, acabava levando a pessoa para uma desajeitada conversa fiada, na linha do “que bom tempo hoje”. Hoje eu sei que é uma experiência muito mais agradável para ambos os lados ter um tempo para se conectar como indivíduos. Afinal, não importa quem seja o investidor que estiver à minha frente e tenha escolhido dedicar a sua empresa, seu tempo, e geralmente, a sua própria fortuna, para apoiar causas que nós dois achamos importante. Falar sobre o trabalho da Resonate com outra pessoa que têm o mesmo propósito que eu é uma das minhas coisas favoritas.

Mas não é sempre que fico à vontade; essas reuniões têm altos riscos! Eu me importo profundamente com o trabalho que eu faço e passo todo dia pensando no que posso fazer melhor, como podemos aumentar nosso impacto, e como eu posso apoiar o meu time incrível que trabalha incansavelmente para desenvolver a capacidade e a liderança de mulheres desprotegidas e de garotas na África Oriental. Às vezes — como neste exato momento — temos um déficit orçamentário que necessitamos resolver até o final do ano, e há uma pressão para aproveitar ao máximo o pouco tempo que tenho com alguém que tem o poder de fornecer à Resonate os recursos que necessitamos para continuar nosso trabalho.

A minha expectativa em construir relacionamentos com investidores é que a conexão se baseie em respeito profissional mútuo.

Mas quando a reunião começa com um comentário sobre minha aparência física, isso só reforça a dinâmica de poder em jogo — especialmente a dinâmica entre os sexos.

Um pouco sobre poder

Precisamos levar cuidadosamente em conta a experiência de como é ser uma mulher na tentativa de levantar recursos financeiros.
É encantador o que às vezes é dito sobre a captação de recursos: o investidor pode ter o dinheiro, e você, enquanto captadora de recursos, está dando a eles a oportunidade de investir em algo que eles realmente se importam! Enquanto isso pode ser verdade até certo ponto, é insensato negar o poder que vem do acesso ao dinheiro e a recursos.

Esta dinâmica de poder fica mais acentuada pelo fato de que eu sou jovem e mulher.

Sinto uma inacreditável pressão para me apresentar como uma mulher madura e profissional, uma tensão tão grande que ninguém pode me procurar por “não saber meus números”, e evitar os hábitos prejudiciais e socialmente enraizados que podem fazer com que as mulheres sejam vistas com menos credibilidade. Eu me encolho toda vez que eu ouço um ultrapassado: “eu só” ou “eu acho”, saindo sem querer da minha boca. Eu faço uma nota mental quando me vejo pedindo desculpas por algo que eu não tenho culpa, ou detecto um tom upspeak (uma tendência para aumentar a voz no final das frases) ou um vocal fry (uma tendência para falar o final de palavras ou frase com uma voz baixa, aflita) no final de minhas frases. Em muitos aspectos, quando se trata de atrair uma doação de dólares ou um investimento, a sorte não está do lado das mulheres empreendedoras.
E nós ainda nem tocamos na questão da sexualização.

A "filha"

Em março de 2014, eu estava voltando para os Estados Unidos para minha primeira tentativa de captação de recursos, depois de lançar o piloto da Resonate na cidade de Kigali, em Ruanda. Liguei para alguns amigos para pedir conselhos.

Um amigo tinha acabado de ter uma conversa com uma empreendedora sobre como era sua abordagem para conseguir uma captação de recursos e ele repassou o seu conselho: faça “a filha” — rapidamente.

“O que? Afinal, o que isso significa?” Eu respondi.

“Você sabe, faça eles pensarem que você é como se fosse uma filha para eles; logo, os investidores não gostam… Eles dão em cima de você!”, ele respondeu com indiferença.

Fiquei parada. Pode me chamar de ingênua, mas isso de verdade não ocorreu comigo quando estava descobrindo como administrar uma empresa, como construir uma equipe, como passar credibilidade com meu trabalho, e como aumentar o dinheiro que financiasse meu empreendimento: que eu também teria que impedir as cantadas de meus investidores.

Mas aqui tem uma coisa – eu não quero ser a “filha”, porque isso prejudica a minha experiência e a minha credibilidade. Então, como isso vai embora de mim?

Você adivinhou: em um sofá em frente a um homem, que representa o investimento que estou procurando e que acaba de dizer a sua opinião sobre a minha aparência física.

A Espiral do Pensamento

No caso desse homem em particular (e no caso da maioria dos outros que fizeram comentários parecidos), eu não acho que ele teve qualquer intenção de “dar investidas”. De fato, ele provavelmente pensou que estava sendo educado e fazendo um elogio. Mas isso não importa. Porque uma vez que ele disse essas palavras, ele abriu minha mente em um espiral inteiro de dúvidas sobre mim mesma, algo como isso aqui:

A única razão para ele fazer uma reunião comigo é porque ele me acha linda.

Ele realmente se importa com nossa parceria de trabalho?

Se eu deixar claro que estou chateada ou desinteressada, ele vai se sentir desconfortável e vai negar o investimento?
Se ele continuar muito interessado e até mesmo nos der capital, como posso confiar que é porque ele acredita no nosso trabalho e não é uma atração amorosa?

Se for o caso, eu realmente quero o dinheiro?

Se eu fugir desta reunião ou deste dinheiro, vou conseguir encontrar em outro lugar?


Depois de conversar com diversas captadoras de recurso e empreendedores, estou bastante confiante que esta não é a única experiência. Todo mundo com quem falei tem suas próprias histórias de comportamentos inadequados, indo desde um ligeiro comentário até um abraço demorado, passando por um perseguição indesejada ou por um assédio sexual. Mas o que eu percebi quando trouxe isso à tona aos meus colegas homens é que eles ficaram surpresos ao ouvir a frequência que esses tipos de interação estavam acontecendo, e ainda mais para ter um panorama de quão negativo é o impacto que essas palavras e ações podem ter sobre a confiança e as carreiras da mulher; o que eles pensam ser um mero elogio.

O que não dizer

Existem muitas pesquisas sobre como as empresas com liderança feminina têm um melhor desempenho do que aquelas que não possuem mulheres no comando, e apenas 3% dos fundos de capital de risco vão para startups com poderio feminino. Um business case para investir em mulheres empreendedoras faz sentido – mas também precisamos observar o caso humano. Necessitamos considerar cuidadosamente a experiência do que é ser uma mulher tentando levantar dinheiro.

Aqui estão algumas coisas para não mencionar em uma reunião com uma empreendedora:

- Aparência física: mesmo se você pensa que está sendo legal. É sério. Simplesmente não faça isso.
- Estado civil. Nada relevante, nem apropriado.
- Equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Você perguntaria a um homem como ele encontra tempo para cuidar de suas crianças e tocar um negócio?

 Uma alternativa

Alguns dias depois da reunião em questão, eu sentei com outro potencial investidor uma outra conversa. Não falamos por muito tempo, mas o investidor ouviu atentamente, perguntou questões complexas que instigaram meu pensamento, e estava empolgado com nossos desejos de impacto.

No final de nossa conversa, o investidor me olhou diretamente no olho e disse: “Eu realmente gostei de ter a chance de falar com você. Obrigado pelo seu importante trabalho”.

Independente da reunião resultar em um financiamento ou não, aquele indivíduo já fez uma contribuição para a Resonate. Eu saí, praticamente saltitando, sentindo-me tranquila, orgulhosa da minha equipe e do que conquistamos, e incentivada a continuar com mais convicção ainda. Eu saí da reunião me sentindo respeitada, segura — e linda.

*Escrito por Ayla Schlosser, cofundadora e CEO da Resonate, uma organização que empodera as mulheres e meninas por meio do storytelling, trabalhando com elas para construir autoconfiança e despertar o potencial de liderança que possuem.

Artigo originalmente compartilhado no site da Endeavor Brasil


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