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09/02/2018

Na convivência das praças a vida corre mais simples e feliz

Rogério Faria Tavares*
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A Praça da Liberdade (Foto) sempre foi um dos mais tradicionais centros de convivência social de Belo Horizonte. Da época de sua fundação, no final do século 19, ela surgiu como o coração do poder político e administrativo da nova capital, reunindo os prédios das secretarias de estado e o palácio do governador. Em 1937, também ganhou o Palácio Cristo Rei, concebido sob as ordens de Dom Cabral e projetado pelo arquiteto italiano Raffaello Berti para sediar a Cúria Metropolitana e a residência oficial do bispo. Já o Edifício Niemeyer foi construído em 1955, por iniciativa de Antonio Joaquim e de sua esposa, a escritora Lúcia Machado de Almeida, autora de dois dos livros que mais marcaram a minha vida de menino: “O escaravelho do diabo” e “O caso da borboleta Atíria”, para os quais a autora contou com a assessoria de um sobrinho querido, desde cedo apaixonado pelos insetos: o professor Angelo Machado, da UFMG, meu confrade na Academia Mineira de Letras. No Niemeyer, o casal promovia os famosos saraus literários a que acorriam os intelectuais mais importantes de Minas e do Brasil. Em pouco tempo, o prédio se transformou num dos ícones da cidade.

Na praça também funcionou o famoso ‘footing’, momento com que as moças e os rapazes das gerações passadas contavam para flertar e, eventualmente, começar um namoro.

Cantada em prosa e verso, ela aparece na obra de Pedro Nava, Drummond e Fernando Sabino, entre outros. Durante vários anos, foi o lugar da realização da ‘Feira Hippie’, hoje na avenida Afonso Pena. Embora importante como núcleo de exposição da gastronomia, da arte e do artesanato produzidos em Minas, a feira não se adequava bem ao espaço, pondo em risco o seu verde e o patrimônio histórico. O acertado gesto de retirá-la de lá coube a um amigo: Roberto Borges Martins, então administrador da Regional Centro-Sul.

O tempo passou e a história da praça foi seguindo o seu curso. Atualmente, ela atrai milhares de visitantes por conta das atividades culturais que passou a abrigar. Na semana passada, conferi o Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (File) na sede do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e gostei demais. Carlos se divertiu a valer, interagindo com diversas das obras de autoria de artistas de todas as partes do mundo. Pesquisando sobre a trajetória do festival, descubro que ele existe desde o ano 2000 e que é o maior evento de arte e tecnologia do País.

Outro lugar encantador da praça é a Biblioteca Pública, comandada com brilho por Lucas Guimaraens, pertencente a uma das mais ilustres famílias literárias do Brasil. Passando em frente ao prédio projetado por Oscar Niemeyer, recordo-me imediatamente de cenas da infância, quando costumava frequentar a sua Sala de Multimeios, onde era oferecido o famoso curso de teatro do professor Helvécio Ferreira.

Por tudo isso, às vezes, me pergunto: o que seria das cidades sem as suas praças e o tanto de vida que há nelas? Restariam os passeios pelos shoppings, muito bons em alguns contextos, mas nada aconselháveis quando se quer apenas um pouco de ar, uma caminhada entre chafarizes e jardins, sem a necessidade de comprar nada, como nos tempos em que era bem mais simples ser feliz.

* Jornalista. Da Academia Mineira de Letras

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