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Opinião

15/05/2018

Paradigmas engessados no tempo

Cesar Vanucci*
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“O palpite de uma mulher é muito
 mais preciso que a certeza de um homem.”
(Rudyard Kipling)

Embora estejam sendo significativos os avanços em conquistas associadas ao desenvolvimento pessoal da mulher, fruto da expansão da consciência coletiva quanto à verdadeira natureza do papel que toca a cada cidadão desempenhar no fascinante e complexo jogo da vida, existe ainda por aí um oceano inteiro de problemas a ser navegado na busca de soluções compatíveis com a dignidade humana. É gente que não acaba mais, homens e mulheres, a proceder no dia a dia que nem se fosse o pessoal lá da rua de minha meninice (história narrada no artigo anterior). As janelas prosseguem hermeticamente trancadas e figuras espectrais estão ainda a acompanhar, com desconfiança, por detrás dos reposteiros e venezianas, à luz mortiça dos candelabros e candeeiros, o esfuziante processo que corre solto lá fora em favor da emancipação feminina.

Essa gente faz ouvidos moucos a justos clamores nascidos do inconformismo, da inteligência e da sensibilidade diante dos paradigmas rígidos bolados pelo farisaísmo, pelo talebanismo no campo das ideias, na avaliação do comportamento da mulher. São paradigmas engessados no tempo. Para os retrógrados têm a mesma inexpugnável consistência das muralhas incas de Sacsayhuaman. O pessoal não consegue enxergar que são paradigmas irremediavelmente condenados pela doença letal de uma “certeza” trazida de momento obscurantista, soterrado na caminhada da história.

A briga pela derrubada de tais paradigmas é braba, longa, barulhenta. São ainda fortes os ecos de certas palavras de ordem procedentes de eras remotas, sintetizadas na frase padrão “lugar de mulher é em casa”. Os preconceitos vigorantes apresentam, entre nós, em muitos lugares, é bem verdade, efeitos atenuados em matéria de violentação à personalidade, se comparados com as inacreditáveis situações vividas em tempos antigos e em outros rincões de nossa própria época. Mas conservam vestígios culturais rançosos, daquelas épocas absurdas em que algumas coletividades eram forçadas a absorver, em suas regras de vida e crenças, a ideia, por exemplo, de que a mulher não possuía alma. Ou de que, no plano dos sagrados deveres conjugais, como amorosa e dedicada companheira, devesse se preparar para fazer jus ao prêmio máximo da loteca dos deuses, consentindo em que a enterrassem viva com os pertences e despojos do pranteado marido, senhor seu amo, quando de sua (dele) partida desta para melhor.

Todos estamos seguros de que provêm de uma visualização desfocada da realidade, mesclada com flagrante injustiça social, os escandalosos problemas trazidos, volta e meia, a debate nos frequentes e necessários conclaves organizados com o objetivo de fortalecer a valorização do papel feminino no contexto social. O desfile de absurdos é composto de revelações estonteantes. Abarcam desde inacreditáveis práticas escravagistas, processos de mutilação sexual, aceitos em nome de princípios religiosos, até inaceitáveis restrições no acesso ao mercado de trabalho a cargos e a promoções idênticos aos que são concedidos aos homens. Isso, sem falar na participação restrita nas decisões políticas e, também, nas limitações de ações nos campos técnico e científico e desfrute de bens educacionais. E por aí vai...

Fica para papo vindouro a conclusão destas reflexões.

*  Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

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