16/01/2018 - Parceria Brasil-Japão originou a Usiminas

O acordo Lanari-Horikoshi, documento que oficializou a parceria industrial entre Japão e Brasil na área de siderurgia, assinado em 1957, viabilizou a implantação da primeira siderúrgica do Estado: a Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais (Usiminas), em Ipatinga, no Vale do Aço. Sonho do então presidente Juscelino Kubitschek, mineiro de Diamantina (Vale do Jequitinhonha), a companhia tornou-se líder no mercado brasileiro de aços planos e um dos maiores complexos siderúrgicos da América Latina. Desde sua criação, em 1958, a companhia atravessou diferentes momentos políticos e econômicos do Brasil, tais como o chamado “milagre econômico”, a ditadura militar, a instituição da democracia, a aprovação da Constituição Federal, as crises financeiras da década de 1980 e do governo Collor, a criação do Plano Real, o boom da economia brasileira nos anos 2000 e a mais recente e grave crise econômica da história nacional, iniciada em 2014. Em meio a diferentes cenários, a Usiminas ainda teve que lidar com períodos de altas e baixas no preço do minério de ferro e na demanda por aço nos mercados mundial e nacional, além de conflitos internos envolvendo seus principais acionistas: Nippon Steel & Sumitomo Metal (NSSMC) e Ternium Techint. Os japoneses, conhecidos pela grande capacidade de resiliência, foram fundamentais pela prosperidade da empresa no decorrer das últimas décadas. Ao longo dos quase 60 anos de existência da Usiminas, foram inúmeras as contribuições oriundas da “Terra do Sol Nascente”. Da implementação de modelos de governança e negócios, ao emprego de tecnologias inovadoras, as inspirações se fazem presentes na empresa até hoje. “Nossa contribuição sempre foi muito além do know-how tecnológico ou capital financeiro. Desde o início, viemos imbuídos em construir uma empresa brasileira para ser administrada por brasileiros, mas que contasse com as expertises do Japão. Dessa maneira, trouxemos tecnologia, qualidade industrial, manufatura, modelo de governança e experiência global”, resumiu o diretor para as Américas da NSSMC, Kazuhiro Egawa. Tamanha importância da siderúrgica brasileira para os negócios da gigante japonesa, que a Usiminas é a única empresa do grupo classificada como usina integrada. Isso significa que o complexo mineiro tem o processo completo, da extração do minério de ferro até o fornecimento do aço para diferentes processos industriais e cadeias produtivas ao redor do mundo. Esse é um dos motivos que faz da Usiminas um dos negócios mais importantes para a Nippon. “O lucro da empresa é o nosso lucro. Aliás, o lucro da Usiminas representa o lucro da Nippon em toda a América Latina”, ressalta Egawa. Além do Brasil, por meio da Usiminas, a siderúrgica japonesa tem negócios na China, no Sudeste Asiático, na Índia, nos Estados Unidos, no México, no Oriente Médio e na África. Os segmentos de atuação dentro da siderurgia são: automotivo, construção, ferroviário e energia. ESPECIAL USIMINAS Ipatinga virou polo econômico com aportes da empresa Usiminas se ajusta às mudanças no Brasil Pós-guerra - De acordo com Egawa, o interesse do Japão em investir em uma siderúrgica brasileira se deu por alguns motivos, entre os quais se destacam dois. O primeiro diz respeito ao navio Kasato Maru, que há cerca de 110 anos trouxe o primeiro grupo oficial de imigrantes japoneses para o Brasil. O segundo se refere à necessidade que o país asiático tinha de se reintegrar ao restante do mundo no pós-guerra. “O Brasil nos recebeu muito bem no início do século XX e o interesse do então presidente Juscelino Kubitschek em construir uma siderúrgica para alavancar o desenvolvimento do Brasil seria a oportunidade de agradecermos e, ao mesmo tempo, nos reposicionarmos enquanto nação mundial. Foi então que as lideranças japonesas iniciaram as negociações com o governo brasileiro e enviaram os melhores profissionais para desenvolver o projeto”, recorda. Segundo ele, inicialmente estudou-se construir a usina em Santos, no litoral paulista. Mas, a comitiva de engenheiros que visitou o local percebeu que não seria possível erguer uma siderúrgica próxima à orla marítima, em função da baixa solidez do aterramento do solo. Para completar, os esforços do então governador de Minas Gerais, José Francisco Bias Fortes, eram grandes para que a fábrica fosse implantada em território mineiro. Neste sentido, o historiador José Augusto de Morais lembra que os japoneses, na ocasião, fizeram uma espécie de questionário para escolher qual cidade de Minas Gerais poderia receber o empreendimento. Entraram no páreo Belo Horizonte, o Vale do Paraopeba, Conselheiro Lafaiete, Ipatinga e Governador Valadares. Eles avaliaram itens como topografia e possibilidade de expansão, valor do terreno, localização da matéria-prima, transporte ferroviário e rodoviário, captação de água, fornecimento de energia elétrica, distância do porto de Vitória, distância do Rio de Janeiro e de São Paulo, obtenção de materiais de construção, existência de habitação, disponibilidade serviços de utilidade pública, transporte aéreo e existência de indústrias correlacionadas. “Na metodologia adotada, Belo Horizonte obteve 96 pontos; o Vale do Paraopeba, 48 pontos; Conselheiro Lafaiete, 50 pontos; Governador Valadares, 98 pontos; e Ipatinga saiu vencedora com 119 pontos”, ressalta. VALE DO AÇO CRESCEU JUNTO COM A EMPRESA A história de Ipatinga, principal cidade do Vale do Aço, se confunde com a história da Usiminas. Embora a emancipação do município date de alguns anos antes da construção da siderúrgica, o desenvolvimento da região aconteceu concomitantemente com a evolução da produção do parque fabril instalado na região. Porém, o historiador José Augusto de Morais destaca que Ipatinga viveu dois ciclos econômicos antes da chegada da usina. O primeiro, segundo ele, foi a derrubada da madeira para fazer carvão para as usinas localizadas em Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), e João Monlevade, também no Vale do Aço. O segundo, que também contribuiu para com a instalação da Usiminas, foi a construção da Usina Hidrelétrica de Salto Grande, em Braúnas. A Usiminas foi inaugurada no dia 26 de outubro de 1962 em Ipatinga, no Vale do Aço Foto: Acervo - José Augusto de Moraes “Como não tinha trem que fosse até Braúnas, o material era descarregado em Ipatinga e depois levado para lá. Essa parada obrigatória fez com que a vila tivesse que ter uma infraestrutura mínima, como dormitórios e comidas. Isso fomentava o desenvolvimento local”, explicou. Assim, na chegada de Juscelino Kubitschek, do governador José Francisco Bias Fortes, acompanhados pela comitiva de japoneses que compunham a primeira diretoria da Usiminas, em 16 de agosto de 1958, para o lançamento do marco inicial da companhia, Ipatinga era composta por exatas 60 casas e tinha 300 habitantes. “Uma curiosidade é que a Usiminas não teve o lançamento de uma pedra fundamental, como geralmente pede o início da construção de uma empresa. Kubitschek era muito supersticioso e acreditava que o termo ‘pedra fundamental dava azar. Por isso, foi feito um marco de madeira com pregos para marcar o início das edificações e iniciou-se a instalação da companhia”, revela. E aquela vila inicialmente formada por algumas poucas dezenas de pessoas de repente começava a receber uma dezena de milhares de homens que iriam trabalhar na construção e posterior operação do grande empreendimento que Minas Gerais estava prestes a receber. O local não tinha estrutura necessária para abrigar o pessoal e, ao invés de se criar condições em dentro da área em torno das obras, os dirigentes optaram por construir a chamada Vila Operária. “Todos os bairros eram classificados de acordo com os cargos dos funcionários e as casas eram diferenciadas segundo as funções exercidas pelos profissionais. A cidade cresceu ao redor deste ponto”, observa. Inauguração - Passaram-se meses e anos e no início dos anos 1960 começaram a chegar os equipamentos para dar funcionamento à usina, bem como foram firmados os primeiros contratos de fornecimento da empresa. Em 1962, embora houvesse um temor pelo atraso nas obras da fábrica, no dia 26 de outubro foi inaugurada a Usina Intendente Câmara, em Ipatinga, no Vale do Aço. Estiveram presentes importantes figuras políticas como o presidente da República, João Goulart; o primeiro-ministro Hermes Lima; o embaixador do Japão, Keiichi Tatisuke; o governador, Magalhães Pinto e seu secretariado; e o presidente da Usiminas, o engenheiro Amaro Lanari Júnior. Assim nascia a primeira siderúrgica mineira, marcando uma nova era na economia do Estado e do País. A primeira corrida de aço da empresa ocorreu ainda em 1962 e o nível de produção de 500 mil toneladas de aço em chapas largas foi atingido dois anos depois, em 1964. O produto final era destinado à indústria naval e automobilística, bem como para grandes reservatórios, inclusive de petróleo. A Usiminas nasceu já com capacidade de expansão em sua produção. O marco de 2 milhões de toneladas por ano seria atingindo em seu último estágio de expansão. Em termos de empregos, foram 6 mil funcionários na primeira etapa e 12 mil na segunda. O DIÁRIO DO COMÉRCIO, o Informador Comercial, realizou ampla cobertura sobre a implantação da Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais (Usiminas). O jornal noticiou a maior parte dos acontecimentos que permearam a instalação da companhia em Ipatinga. Do pleito de políticos e empresários mineiros à inauguração, passando pelos principais impactos que a construção da indústria proporcionou ao Estado. Confira a galeria: