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Opinião

23/05/2018

Poema em linha curva

Carlos Perktold*
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Há pelo menos quatro anos existem denúncias de dezenas, centenas de políticos apontados por corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes, que o povo brasileiro anda cansado de ler e ouvir. Médico amigo deste articulista recomendou a um de seus angustiados clientes que “deixasse de ver noticiários pela televisão”. A falta das informações baixaria seu nível de angústia, alta em todo o País, por causa de nossa inércia e perplexidade frente aos escândalos diários.

Em todas as notícias que vemos de pagamento de propinas, roubalheiras em fundos de pensão, reformas em casas de políticos, presentes de Rolex de ouro, 51 milhões de reais em dinheiro vivo, e outros regalos sedutores, a resposta de todos os acusados é sempre negar que receberam e se colocarem como ícones da moral, da ética e da honestidade. Por tudo isso, pensei em uma paródia para o “Poema em Linha Reta”, de Fernando Pessoa.
Nunca conheci político que tivesse levado propina; todos os eleitos têm sido campeões em tudo.

E eu, que tantas vezes votei, que tantas vezes errei, que tantas vezes perdoei; eu, que tantas vezes votei irrespondivelmente errado; indesculpavelmente eleitor.

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para ver os noticiários pela televisão; eu, que tantas vezes tenho sido espectador ridículo, visto absurdos políticos.

Eu, que tenho procurado meus eleitos publicamente exigindo ética na vida pública; que tenho sido grotesco, agressivo, arrogante e exigindo o que foi prometido em campanha; que em resposta tenho sido enxovalhado pelos eleitos; que quando não fui enxovalhado, tenho sido ridículo perante o público eleitor; que tenho sido cômico aos serviçais do Congresso.

Eu, que tenho visto o piscar dos olhos dos assessores DAS-5; eu, que tenho exigido que os políticos devolvam todo o dinheiro roubado; eu, que na hora de votar, fui desleixado e, na outra eleição, votei errado outra vez.

Eu, que tenho sofrido a angústia de ver o País cada dia mais ridículo perante o mundo; eu verifico que não tenho pares desesperados neste país de Lula, Temer, Dilma, Dirceu, Aécio, Serra, Hoffman, de PT, MDB, PP, PSB, PSD e PSDB.

Toda gente que pergunto não votaram em nenhum deles; nunca votaram errado, nunca sofreram a angústia de eleitor deprimido; todos votaram na oposição, todos acertaram seus votos.

Quem me dera ouvir da voz de um político; que confessasse não a compra de voto, mas uma corrupção; que relatasse não uma promessa jamais cumprida, mas uma roubalheira, uma licitação marcada.

Não, todos os políticos deste País são éticos e jamais assaltaram os cofres de prefeituras, assembleias, Congresso, INSS, fundo, e Presidência;  quem há neste Congresso brasileiro que um dia me confessasse que uma vez foi ladrão?

Ó políticos, seus canalhas que não voltarão; estou farto de corruptos.
Onde é que há gente honesta neste mundo? Então são apenas Lula, Aécio e Temer, vis e errôneos nesta terra? Poderão os assessores e suas malas não os terem armados; poderão ter sido denunciados – mas ladrões, nunca; eu que tenho sido eleitor traído.

Como podem esses políticos depor perante Sergio Moro sem titubear?
Você, político, que tem sido ladrão, literalmente ladrão.
Ladrão no sentido mesquinho e infame da gatunagem.

* Psicanalista e escritor

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