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13/06/2013

Qualificar agora é parte do negócio

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Se não houver investimento em educação profissional, organizações não têm como competir no mercado.

LUCIANA TANCREDO / VALE
Para Desiê Ribeiro, qualificar é investir no negócio
Para Desiê Ribeiro, qualificar é investir no negócio

A escassez de mão de obra qualificada no Brasil revela um país que já não consegue aproveitar o seu potencial de crescimento e perde em competitividade para nações menores e com menos tradição no cenário global. As raízes do problema, as soluções possíveis e os impactos causados nas corporações e na economia têm mobilizado empresas, governo, academia e entidades empresariais em discussões que já estão atrasadas.

No meio do caos, entretanto, existem bons exemplos que podem ser replicados. Muito tem sido feito para recolocar o Brasil nos parâmetros de inovação e competitividade exigidos pelo mundo conectado e globalizado do século 21.

Na Roda de Conversa "O papel das empresas na qualificação profissional", realizada na unidade carioca da Universidade Corporativa da Vale (Valer), no último dia 10, a reflexão sobre o tema levou a dois principais eixos: a má qualidade da educação básica oferecida no Brasil e o modelo a ser adotado pelas empresas que precisam, cada vez mais, de colaboradores qualificados.

Para a escritora e fundadora da ID Projetos Educacionais, Andrea Ramal, é preciso localizar a raiz do problema: educação básica. "Não temos gente qualificada no Brasil porque não preparamos bem nossas crianças. No Pisa (Programme for International Student Assessment, em português, Programa Internacional de Avaliação de Alunos) 2010, o Brasil, em um ranking de 65 países, ocupa a posição de número 53 em Leitura e Ciências e de número 57 em Matemática.  impossível ter bom desempenho universitário se não existe base. A criação de índices próprios de avaliação como o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) é um bom passo, que revela preocupação, mas ainda é pouco", analisa Andrea Ramal.


Gargalos - O cenário de baixa remuneração dos professores, falta de estrutura escolar (30% das escolas públicas brasileiras não têm quadra de esportes, 70% não têm biblioteca) e pouca ênfase em gestão escolar, ajudam a afastar os talentos do magistério e têm impacto direto na qualidade do aprendizado dos alunos. Nem mesmo as escolas particulares apresentam uma situação considerada satisfatória. "Faltam 300 mil professores no Brasil. Se começarmos a consertar tudo isso agora, os resultados ainda vão demorar 20 anos para aparecer. Por isso as empresas e as entidades têm que ter consciência do seu papel para que elas ganhem sustentabilidade", aponta a professora.

A diretora de educação do Sistema Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), Andrea Marinho, destaca que a defasagem de aprendizado na infância dificilmente é recuperado. "Hoje, cerca de 30% do tempo dos programas de formação profissional são gastos com nivelamento de conteúdo. Boa parte das pessoas tem sérias deficiências em competências tradicionais como raciocínio lógico e matemática. Isso nos leva, por exemplo, à não formação de engenheiros. Não adianta formar mais pessoas e manter os defeitos. O desafio é formar mais e melhor. Por isso é papel das empresas investir também na comunidade", avalia Andrea Marinho.

Diante desse conjunto de características, as empresas, que não podem esperar tanto tempo por uma solução, têm duas opções: a importação de mão de obra ou oferecer formação profissional, especialmente por meio das universidades corporativas. Nesse segundo caminho, apontado como o mais interessante pelos especialistas, trabalha a gerente de educação e desenvolvimento de pessoas da Vale, Desiê Ribeiro. A Valer, que completa 10 anos em 2013, atua na qualificação interna dos funcionários e do entorno das unidades. "Entendemos que a educação é também nosso negócio. Não fazemos filantropia, mas preparamos o nosso futuro. Atuamos em duas linhas: a educação continuada de quem já está na Vale e o que chamamos de fomento nas comunidades", explica Desiê Ribeiro.

A Valer tem mais de 6,2 mil ações educativas em seu catálogo, contemplando o desenvolvimento de três públicos: técnico-operacional (nível médio e técnico), técnico especialista (superior) e líderes. Há também ações para desenvolvimento de competências comuns a todos os públicos, ligadas a assuntos estratégicos da empresa, tais como saúde e segurança, sustentabilidade e inovação. Em 2012, a Valer consumiu US$ 74 milhões nas suas 24 unidades físicas no Brasil e seis no exterior: Suíça, Moçambique, Canadá, China, Malásia e Omã.


Exemplo - As experiências exitosas da iniciativa privada são poucas diante das dimensões continentais brasileiras. Para os debatedores, falta vontade política para a solução do problema, apesar dos esforços mais recentes.

Por outro lado, as grandes empresas têm poder de arrastar as que fazem parte da sua cadeia de parceiros para qualificação profissional. "Também trabalhamos para ajudar na qualificação dos nossos parceiros, especialmente fora do Brasil. Qualificá-los é uma forma de investir no nosso próprio negócio. Muitas vezes levamos fornecedores daqui para qualificar os de outros países, também fazemos isso com os líderes.  importante que tenhamos o mesmo nível e a mesma cultura nas várias unidades", afirma Desiê Ribeiro.

"Estamos na era do conhecimento. Cada vez mais ele é determinante na composição do valor de mercado das empresas. São as pessoas que fazem a diferença, por isso é preciso fazer a gestão do conhecimento. Quem não investe em educação corporativa perde talentos e, com isso, desempenho", alerta Andrea Ramal.

Para o professor da Fundação Dom Cabral (FDC) na área de organizações e comportamento organizacional e mediador do debate, Sigmar Malvezzi, vivemos um momento histórico comparável apenas ao Renascimento, entre os séculos 14 e 16. "O Estado não dá conta da sociedade atual, mas existe uma luz no fim do túnel.  hora de arregaçar as mangas. Se as empresas não investirem em educação profissional elas não têm como competir. E quem não está qualificado acaba marginalizado no mundo do trabalho", finaliza o professor.

DANIELA MACIEL


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