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23/02/2018

Ricos momentos em família, como brincar com os primos

Rogério Faria Tavares*
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Meu pai teve dez irmãos. Minha mãe, 13. Sou descendente, pois, de duas famílias numerosas, o que me agrada muito. As festas todas eram sempre para dezenas de convidados, de três ou quatro gerações distintas. Os natais, especialmente, lotavam a casa dos tios Julia e Dario, na rua Ovídio de Andrade, no bairro São Pedro. Ela se punha ao piano, animada, como toda legítima mineira de Montes Claros. Puxava o canto, com a sua bela voz: ‘Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel...’

Recordo-me até hoje, com carinho, dessa e de outras cenas preciosas da minha infância. Uma das lembranças mais remotas é a de passar dias inteiros nas casas dos tios, entretido com os primos, num tempo em que ainda era possível brincar na rua, sem medo do trânsito ou problemas de segurança. E num tempo em que ainda havia primos! Como as famílias estão cada vez menores e os casais estão optando por não gerar prole ou pelo filho único (e quem sou eu para condená-los: cada um sabe de si), a existência dessa espécie está seriamente ameaçada. Meus filhos, por exemplo, têm, até o momento, apenas uma prima: a linda Heloísa, de 8 anos, afilhada minha e de Sabrina. Se outro dia falei aqui nesta coluna da alegria de ter irmãos, não é menor o prazer de ter primos, sobretudo aqueles que crescem junto com a gente, partilhando o mesmo ambiente e, posteriormente, comungando memórias e realidades felizes. Meus filhos hoje já brincam com os filhos dos meus primos e, em muitos casos, com os netos deles.

Meu pai morreu sem conhecer os netos. Mesmo tendo vida longa (despediu-se de nós aos 90), casou tarde, com mais de 50 anos. Por isso, não houve tempo hábil para colher os sorrisos de Carlos e Gabriela... Tenho certeza de que apreciaria muito a condição de avô.

Provavelmente, se animaria a levar a duplinha aos parques e às praças de que tanto gostava. Não negaria o cinema, os pacotinhos de figurinhas, uma guloseima ou outra, um mimo no Natal e nos aniversários. Toparia, quem sabe, os tradicionais passeios a Araxá ou a Caxambu...

Inspirado por isso, pergunto ao meu primogênito, que fez 6 anos em janeiro, quantos filhos ele quer ter. Surpreendido, Carlos responde algo como ‘150 mil’, para logo emendar, em frase certeira: ‘Você não acha que está muito cedo para pensar nisso?’. Interrompido pelo seu bom senso, rendo-me, imediatamente: ‘Você tem toda razão’, e trato logo de mudar de assunto, de preferência para algo pertinente, que esteja de acordo com a sua idade. Para que antecipar as coisas? Por que não usufruir, plenamente, de tudo o que a vida oferece, sem pressa?

Porque o que não foi vivido não o será no futuro, nem nunca mais. Não adianta. Como dizia Heráclito, ninguém entra duas vezes no mesmo rio... Agora, para Carlos, é hora de ser criança. Ponto. Pensando bem, não consigo imaginar nada melhor que isso. A infância é o momento privilegiado para descobrir que o mundo é belo e bom. Ou deveria ser... E que vale a pena viver, mesmo no planeta maluco que habitamos.

* Jornalista. Da Academia Mineira de Letras

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