Crédito: Divulgação

Marco Guimarães *

No quadro-negro da sua sala, Natalie, observada por seu auxiliar, o policial Pierre, escreve:
Sequestradora + Aline (menina sequestrada) + Virgínia + Arsinoe (escadas Rue Pascal –> Boulevard Port Royal). Em seguida, na linha de baixo: capitão Maurel (Rue Pascal = ok. Escadas= ? )

Diante da evidência de que a maioria dos desaparecidos tinha subido as escadas que dão acesso ao Boulevard Port Royal, optou por concentrar toda a investigação naquele local. — Vamos montar guarda naquelas escadas; há alguma coisa estranha por lá — disse ela para Pierre.

— Também acho, tenente. Eu diria mais, as coisas parecem acontecer quando os relâmpagos caem sobre a cidade.
— Eu já tinha notado, afinal, em todos os desaparecimentos há histórico de fortes descargas elétricas. Imprima para mim o boletim meteorológico para os próximos dias.

Vamos filtrar os dias com possibilidade de relâmpagos.

Depois que Pierre sai, ela olha mais uma vez para o que escrevera no quadro-negro e diz em voz alta: — É isso aí. Vira-se, então, para o outro lado da sala, dirige-se a sua mesa e senta-se, colocando os pés sobre ela, mas retirando-os logo em seguida, quando precisou alcançar o telefone. Com o aparelho na mão, discou o número do comissário e o colocou a par da decisão que tomara. Ele, em tom de brincadeira, disse: — Por favor, não vá desaparecer também. Ela desliga e manda que Pierre, à espera de que ela terminasse a conversa com o comissário, entrasse em sua sala.
— Tenente, a partir de amanhã parece que haverá raios para dar e vender.
— Ótimo, amanhã mesmo estarei a postos nas escadas.

No dia seguinte, às seis horas da manhã, Natalie saiu de sua casa na Rue de Bièvre. Resolveu pegar o ônibus 47, na Rue Monge, e descer na parada Censier; dali, seguiu a pé até a Rue Pascal, onde estavam as escadas.

Como previra o boletim, faíscas elétricas cortavam os céus, colocando a luz do dia dentro da escuridão invernal. Uma vez lá, deixou seu olhar percorrer toda a região. Era muito cedo, não havia ninguém, salvo os carros estacionados em toda a extensão da Rue Pascal. Subiu rapidamente as escadas. Ao chegar ao Boulevard Port Royal, levou as mãos aos bolsos laterais de sua capa e deu-se conta de que as chaves de seu apartamento não mais estavam lá. Talvez tenham caído quando subi as escadas, pensou. Retirou a pequena lanterna que sempre trazia consigo e desceu as escadas iluminando degrau por degrau.

Quando chegou à Rue Pascal, notou que havia algo diferente. Todos os carros ali estacionados tinham desaparecido.

— Não é possível. Não poderiam ter sumido em poucos minutos. Caminhou em direção à Rue Claude Bernard e, ao passar em frente à loja de conserto de roupas, local onde algumas vezes ia para fazer uma bainha ou outro arranjo, viu que ela dera lugar a uma pequena farmácia. Mais adiante, onde deveria estar o Hotel Esperança, havia uma livraria. Pegou o telefone e tentou ligar para o distrito, mas não tinha rede. Estava atônita; não fosse uma policial acostumada a gerenciar situações difíceis, teria ficado desesperada.
Foi então que decidiu ir até seu distrito policial. Quando chegou em frente ao prédio, exclamou: Ufa! Pelo menos o meu local de trabalho não virou um sei lá o quê. Seu semblante mudou quando, ao entrar no prédio, viu que a disposição das salas era diferente, e que até o balcão de atendimento ao público estava no lado oposto.

— Posso ajudá-la? — perguntou o policial de plantão.
— Espero que sim. Sou a tenente Natalie e trabalho aqui. Não entendo porque essa mudança toda — disse ela, procurando o distintivo policial. — Ah, merda, acho que caiu com as minhas chaves, quando subia as escadas da Rue Pascal. E o pior, os meus documentos não estão comigo.
— Tenente Natalie? Mudança toda? Do que a Sra. está falando?
— Foi isso mesmo que o Sr. ouviu. Eu trabalho aqui e não estou reconhecendo meu próprio local de trabalho.
— Ah, a Sra. trabalha aqui?
— Isso mesmo, e chefio as investigações sobre o desaparecimento de algumas pessoas, incluindo o meu chefe; o capitão Maurel.
— Espere um momento.
Ele vai até o telefone e liga para alguém, em seguida volta e diz para ela: — A senhora está detida até segunda ordem, por favor, queira me seguir.

*Escritor. Autor dos livros “Fantasmas de um escritor em Paris”, “Meu pseudônimo e eu”, “O estranho espelho do Quartier Latin”, “A bicha e a fila”, “O corvo”, “O portal” e “A escolha”